por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 10 de abril de 2012

23 - SIDINHO, MEU PARCEIRO


         No segundo ou terceiro dia de aulas, não lembro com precisão, senti a alegria da presença de um velho companheiro da vila, o Sidinho, agora colega de classe.     
Já tinha feito grandes progressos e pude apresentá-lo, com ares de intimidade, aos meus novos amigos: o Fernando Lopes, com quem dividia a carteira, o Ibsen, o José Henrique e o David.
Agora éramos seis sempre juntos nas horas de recreio.
         Do Fernando Lopes, do José Henrique e do David, nunca mais tive notícias.
O Ibsen, após muitos anos longe, hoje é meu vizinho de rua e participa com bastante freqüência do jantar anual de nossa turma, sempre na última sexta-feira de novembro, no Rincão Gaucho, salão privativo à direita.
         Estes jantares conseguem manter vivas amizades iniciadas, algumas, há cinqüenta anos.
Juntos, consolidamos esses laços: o Sergio Figueiredo - Paulista, o Adalberto Picaluga, o Fernando Marinho, o Aurélio Seixas, o Waldir Amorim, o Ayrton Costa, o Roberto Macedo, o Álvaro Vilhena, o João Roberto, o Sérgio Viola, o Deocleciano Pegado, o Ivan Ribeiro, o Pedro Caruso, o Maurício Fernandes, o Walter Rambauske, o Sidney Lima (motivo deste capítulo), o Gilberto Fornaciari, o Raul Ferrante, o Ítalo Suano, o Silvestre Mattos, o Antonio Macedo, o Manoel Carneiro, o Gilson Francisco, o José Gilson, o José Giordano, o Fernando Malheiros, o Serge Torres e muitos outros, por um motivo ou por outro, menos assíduos,
Alguns, já partiram. Lembro o João Marcelo de Araújo Jr., o Geraldo Lourenço, o Marcelo Anthero e o Eduardo Portela.
Mas, voltemos a 1948...
         Quanto ao Sidinho, a história é mais longa. Ligava-nos o companheirismo, as descobertas, as alegrias, as aventuras e também alguns momentos de grande tristeza.
         Morando tão próximos, passamos a estudar juntos, estendendo nossa amizade às nossas famílias. Seu Luís e Dona Dinorah - Dona Bebé, para os íntimos -, seus pais e Márcia, sua irmã mais nova, passaram a ampliar o meu mundo afetivo.
         Com o passar dos anos, desenvolvemos novas formas de comunicação, e um código baseado no assobio da marchinha de carnaval “Tomara que chova” era suficiente para que chegássemos às nossas janelas e do diálogo mantido, em altas vozes, as dúvidas eram esclarecidas.
Os vizinhos, querendo ou não, começavam a entender de matemática, português, geografia geral e o mais que fosse, bem como a participar de nossas angústias em véspera de provas.
Era comum alguma dona de casa atarefada, ao encontrar um de nós na rua, perguntar: “qual era mesmo a resposta da segunda questão ?”. Incrível !
         Sidinho era um bom parceiro, e na simplicidade de nossos poucos anos tínhamos amigos comuns e freqüentávamos os mesmos ambientes e as mesmas festas.
Certo domingo, fomos ao Cinema Carioca ver o filme “O retrato de Jennie”, com a maravilhosa Jennifer Jones; muito impressionados, por vários dias, o que vimos na tela, seria motivo de nossas conversas. Ainda hoje, quando ouço a música do filme, recordo-me das nossas inúmeras indagações de então.
Era a vida, novinha, a nos intrigar, desafiar, envolver.
         Seu Luís era representante de um laboratório que fabricava umas deliciosas pastilhas guturais, com um suave sabor de hortelã, acondicionas em elegantes caixinhas de metal em dourado e azul. O nome das pastilhas : “Biolaimo”. É evidente que vez por outra, devorávamos, de uma só vez, uma latinha inteira de pastilhas. Certamente, uma ação preventiva a uma possível dor de garganta inoportuna.
         No final de 1951, já terminadas as provas, fomos convidados a jogar bola com alguns novos conhecidos, bem maiores.
Sidinho adorou a idéia, eu não.
Fui uma única vez e não mais. Ele muito insistiu, até o dia do terrível acidente que mudaria repentinamente o rumo de sua vida.
         Numa quente tarde de fins de dezembro, um dos novos amigos, possuidor de uma possante motocicleta, dispôs-se dar uma carona ao meu velho camarada até sua casa.
         Uma ultrapassagem mal calculada, em frente ao Tijuca Tênis Clube, redundou numa colisão frontal com um táxi que trafegava em sentido contrário.
Muito ferido, Sidinho foi conduzido ao Hospital Souza Aguiar, enquanto alguém encarregava-se de avisar seus pais.
         Chegando ao Hospital e deparando-se com o filho bastante machucado, Seu Luís passou mal e não resistiu a um ataque do coração.
         Foram terríveis o suceder daqueles dias. Sidinho sofreu várias operações, sempre indagando pela ausência do pai.
Finalmente, a dura verdade!
         A vida de meu amigo mudaria muito. Um incontrolável sentimento de perda iria transtornar seu viver; eu acabara de perder um pouco do grande e alegre companheiro, agora, triste, preocupado, devorador contumaz de livros, querendo recuperar a todo custo algo que se perdera para sempre.
         Senti muito por tudo.
Chorei demais, rezei o que pude e pensava muito em porque tudo aquilo acontecera.
Procurei acompanhar o dia-a-dia de meu camarada, que sofria muito, muitas vezes calado, olhar no horizonte... Sentia-me impotente, e aos poucos fomos ficando um pouco mais distantes.
         A vida seguia, e haveria um dia no futuro que estaríamos em lados opostos. No devido tempo, contarei esta história.

Obs. - Trecho do meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997















3 comentários:

  1. Acróstico para um amigo
    Dedicado a José Carlos Leal
    Juventude vivida em sua plenitude
    Outra vez não haverá tempo igual
    Sabóia Lima na esteira do caminho
    Eu e você na amizade mais leal
    Com garra inaugurávamos nossas vidas
    Antes éramos como hoje somos
    Rios de sonhos perpassavam em nossas mentes
    Limites nós os demovíamos
    Ouvíamos a cultura do momento
    Sempre abertos à boa sapiência
    Luzes se acendiam em nossos rumos
    E na ALCA entretínhamos fantasias
    Amigos sempre fomos de verdade
    Linda história indelével para sempre.
    Sydney de Mello Lima
    Sidinho
    PS: ALCA – Instituição Lítero-Cultural do colégio onde estudávamos.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    cheirosdavida17 de julho de 2017 10:57
    Ao meu terno e eterno amigo Sidinho:


    Sinceridade de crianças que se encontram e, amigos se tornam;

    Incólume esta amizade vence tempo e distâncias.

    Depois já com a sabedoria dos anos bem vividos,

    Idealidade se torna verdade e, se encontram.

    No passar do tempo as raízes da estima ficaram profundas e rijas;

    Hoje se acarinham com a mesma veracidade de crianças

    Onde nem as dificuldades de um mundo louco poderão separá-los.

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