por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 30 de abril de 2012

36 - O DIA QUE NÃO DEVIA TERMINAR

                                           
         “Lafranhudos! Hora de acordar! Todo mundo fora da cama!”.
         As vezes éramos surpreendidos com este despertar.
Numa folga qualquer, papai lembrava de levar-nos a uma excursão, e antes do apito da Hanseática (fábrica da Brahma, na rua José Higino) nos colocava de pé.
Com ele tudo tinha que ser muito rápido, e com algum resmungo íamos atendendo às suas ordens. Seria um dia cheio, cansativo, mas, de certo, valeria a pena..
         Até hoje não sei de onde tirou esta palavra “lafranhudo”; nos chamava assim, principalmente a mim. “Lafranhudo”, eu gostava.
         Em poucos minutos já estávamos na rua Conde de Bonfim à espera do bonde 67 - Alto da Boa Vista . Eu, meio sonolento, ia conferindo devagar se nada havia esquecido - achava bonito levar, com cuidado, o meu facão, cabo de madrepérola, no coldre de coro afivelado no cinto.
          Ocupando um banco inteiro, começamos a viagem.
Evidentemente, o facão do Guido era o mais bonito, com a lâmina de aço inoxidável toda trabalhada com lindos desenhos. Com desdém, virava o rosto e distraia-me vendo passar, ponto a ponto, a  Muda da Tijuca, a Usina, as Águas Férreas.                               
       No sentido contrário os bondes desciam cheios, passageiros pendurados nos balaustres demandavam seus destinos, certamente mais um dia penoso de trabalho.
Enquanto isso rapidamente chegávamos ao Alto da Boa Vista.
Hora de saltar; daqui para frente era dar à perna, pois acompanhar nosso guia não era empreitada para qualquer um.
         Tudo era novidade. Papai, sempre falando, ia dando instruções de como se comportar: “num córrego de águas cristalinas, se você cuspir e a saliva não dissolver, pode beber dessa água que é potável”. Coisas daquela época pois, hoje, onde estão os córregos de águas cristalinas ?
          Um suave murmúrio de água deslizando pelas rochas nos alertava para alguma surpresa após a próxima curva.
Lá estava, a majestosa Cascatinha Taunay, obrigatoriamente nossa primeira parada, coisa para pouco tempo, o suficiente para sentir o frescor do vapor úmido em nossos rostos, encher os pulmões de ar puro e abastecer o único cantil disponível.
Consultado o mapa no mural em azulejos, decidiu-se o rumo: Pico da Tijuca.
         O silêncio da mata era interrompido pelo canto de alguma ave assanhada, e pelo rumor cadenciado dos nossos passos a levantar poeira do pedrisco seco.
Papai já não falava tanto, mesmo assim contava as aventuras das excursões de quando jovem  a Itatiaia, às Agulhas,  às Prateleiras e,  também das caminhadas do Rio até Petrópolis, partindo de Botafogo em certas noites de desafio.
         As respirações ofegantes foram amainadas com a chegada à gruta Paulo e Virgínia. Depois, Bom Retiro e a subida final em trilhas cada vez mais estreitas até o Pico da Tijuca, a 1021 metros acima do nível do mar.
Vencida a última etapa facilitada pelos degraus escavados na rocha, finalmente o deslumbre da visão magnífica da cidade a nossos pés. Um espetáculo de trezentos e sessenta graus. Ao longe o sussuro do borburinho da cidade em plena atividade, muito junto a nós o roçar das folhas atiçadas pelo vento brando.
         Depois, o almoço farto, o papo descontraído enquanto com gravetos fazíamos desenhos sem nexo na areia fina. A neblina que aos poucos ia se formando lembrava que era hora boa de voltar para casa.
         De novo no Alto da Boa Vista, a última provocação de papai a por em cheque nossos brios: “nada de bonde, vamos a pé até em casa!”.
Repto aceito.
         Este seu pai tem menos juízo do que vocês !”, disse mamãe assustada com a demora na nossa volta.
         À noite já ia bem alta quando deitei.
Olhando para as sombras no teto do quarto, lembrava das coisas boas do dia que passara.
Baixinho, dizia para o meu amigo Tim que aquele dia não devia terminar.
Finalmente o cansaço foi mais forte e eu dormi.   
        
 Obs. - Pequena crônica contida em meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997


sábado, 28 de abril de 2012

35 - CINEMA REX, SZENKAR, PROKOFIEV...


         Minha geração é certamente das últimas a ter uma razoável base para entender e gostar da chamada música erudita. Muito se deve aos famosos “Concertos para Juventude” que aconteciam sempre aos domingos, pela manhã, no Cinema Rex no centro da Cidade, nos anos 40 e 50.
         Em 1940 foi fundada a Orquestra Sinfônica Brasileira pelo maestro José  Siqueira ; o maestro húngaro Eugen Szenkar, presenteado ao Brasil em decorrência das perseguições nazistas, foi um dos incentivadores destes concertos que formou um público apto a apreciar todas as maravilhas da música clássica.
         Mais tarde estes concertos passaram a ser realizados no Teatro Municipal já com a direção do Maestro Eleazar de Carvalho. Antes de cada audição explicava ao jovem público, de viva voz, detalhes sobre o autor, sua época, os movimentos da peça que iria ser ouvida, a participação e as características dos instrumentos, os solistas e por aí a fora.
         Começava a apurar meu gosto e a eleger as músicas preferidas ficando exultante quando as identificava ao serem executadas nas rádios - “Os mestres cantores” de Wagner, “Clair de Lune” de Debussy, “Bolero” de Ravel, “Abertura da ópera Lo Schiavo” e a “Protofonia de O Guarani” de Carlos Gomes, “Batuque” de Lorenzo Fernandes.
         Depois, fui sendo apresentado, sem pressa, a Mozart, Beethoven - seu concerto número três foi o mais querido por anos e anos - Chopin, Brahms,Tchaikovski...
         “Pedro e o lobo” de Sergei Prokofiev foi um acontecimento inusitado - uma história completa contada pelo Paulo Santos, locutor famoso no rádio de então, acompanhada pela orquestra com os instrumentos solando e fazendo as vezes dos personagens.
          Em O Pedro e o Lobo é utilizada uma Orquestra Sinfônica completa em que cada personagem é representado por um instrumento ou naipe da orquestra e possui um tema musical.
Os personagens são representados pelos seguintes instrumentos respectivamente:
            Pedro: Quarteto de Cordas;
        O Pássaro: Flauta;
        O Pato: Oboé;
        O Gato: Clarinete;
            A avó: Fagote;
            O Lobo: Três Trompas;
      Os Caçadores: o tema é introduzido pelas Madeiras e os disparos são representados pelos Tímpanos e pelo Bumbo.
           Tudo isto fez com que fosse oportuna minha iniciação musical com aulas de piano.
Entre minha infância e adolescência, tive quatro professoras: Dona Marci, Dona Maria da Penha, Dona Maria Emília e Dona Ninita.
          As célebres audições deixavam os nervos à flor da pele.
“Gavotte de  Maturin” ensaiada até a exaustão. Mesmo assim, os dedos presos pelo tormentoso nervosismo, comprometia a interpretação.
 Minhas professoras sofriam comigo.
Certamente, frustrei-as, todas !

Trecho do meu livro "Cheiro de Verão"
        




34 - O MELHOR DO ESPETÁCULO

                                    

         Nas férias, outro acontecimento, infelizmente muito raro, era acompanhar papai em um dia de trabalho.
Papai era o que se chamava “vendedor pracista” da Perfumaria Myrta S.A., executando trabalho externo em diversos bairros, e mesmo em algumas cidades do então Estado do Rio de Janeiro, inclusive sua capital Niterói.
A Myrta foi o único emprego de papai durante seus 76 anos de vida. Lá entrou como auxiliar de escritório chegando à diretoria, devido simplesmente à sua capacidade de trabalho, honradez e lealdade.
Só o via reclamando, quando no verão, ao ouvir o “Reporter Esso” antes de sair de casa, como fazia diariamente, escutava incrédulo o “speaker” dizer “... tempo bom, previsão para a máxima de hoje, quarenta graus...”.
Aí, ele perdia a paciência: “como tempo bom? Quarenta graus? Vá trabalhnar na rua, filho de uma égua, para ver se isto é tempo bom...”.
Batia a porta, e lá ia resmungando, “tempo bom...”.      
         Admirava muito sua eficiência e dava-me orgulho sua disposição para enfrentar sol ou chuva, entrando e saindo de farmácias, drogarias e empórios, a retirar pedidos e cobrar faturas de vendas anteriores.
         Acompanhava com muita atenção sua atuação, sempre ágil, raciocínio rápido numa habilidade fora do comum em manejar números. Dúzias, grosas, percentagens, descontos, tudo feito com muita firmeza, fechando negócios em poucos minutos e vendendo quase sempre mais do que pretendia o comprador.
         Seus instrumentos de trabalho resumiam-se numa pequena caderneta de apontamentos em espiral, pouco maior que um maço de cigarros, e um lápis bem apontado. Quando sentia que tudo estava resolvido, dizia: “então, estamos conversados! até para o mês”.
          Sabonete, talco e pasta de dentes Eucalol, sabonetes Carin, Orquídeas do Brasil, 145 passaram a ser produtos muito familiares para mim. Lindas caixas de madeira acondicionavam os sabonetes Pinho da Sibéria ou Parisiana.
Até hoje tenho algumas destas caixas, guardando lembranças que me são muito caras.
         Colecionavam-se as famosas estampas do sabonete Eucalol, arquivando-as em grossos álbuns de cartolina cinza. Pedrinhas semipreciosas vez por outra eram encontradas dentro dos produtos em promoções de muito sucesso.
         Normalmente até a hora do almoço, lá pela uma da tarde, conseguia acompanhar o ritmo do “velho” Cesar.
Com o “pandulho cheio” (*), entregava os pontos.
Papai então me colocava num cinema, e continuava a trabalhar até às 18 horas quando marcava encontro para me apanhar. Uma vez, em dia de mais serviço, cheguei a assistir três sessões seguidas no cinema Roxy.
Achava muito bom, pois já gostava muito de cinema.
         Papai trabalhava muito e tinha outros compromissos que impedia sua maior presença junto aos filhos. Eu sentia muito, e por tão preciosa companhia, recordo-me da maioria das vezes que saímos, sobretudo quando o programa era noturno.
Sentia-me muito importante.
         Certa noite fomos todos ao Metro-Passeio, na Cinelândia, segundo ele o melhor cinema da cidade, para ver um filme que até hoje seria capaz de rememorar cada pormenor.
         Gregory Peck, Jane Wyman estrelavam este filme, “Virtude Selvagem”, uma singela história vivida por um casal desbravador e seu filho solitário a lutar pela companhia de uma pequena corsa selvagem. Toda a trama é desenvolvida  no interior do Colorado, com belas paisagens valorizando a narrativa, cheia de grandeza e fé no ser humano.   
         “Carnaval no Gelo” era outro programa imperdível. Armavam um verdadeiro circo na ponta do Calabouço, local próximo ao Aeroporto Santos Dumont, para exibição de patinadores famosos. Muita luz, luxo e beleza a encher meus olhos.
         Respeitavam mais o Brasil naquela época; hoje, sem a menor sem-cerimônia o espetáculo passou a chamar-se “Holiday on Ice”.
A estrela da companhia era a famosa patinadora norueguesa Sonja Henie, porém o melhor do espetáculo era estar junto do papai.
        

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         (*) - “Pandulho cheio” - Era uma expressão muito usada por papai. Pandulho significa estômago, barriga. Estar de barriga cheia; ter acabado de almoçar.

Obs. - Excerto do meu livro "Cheiro de Verão"


quarta-feira, 25 de abril de 2012

33 - "TATU TÁ NO PAU..."

                                    
        
Foram três anos seguidos de férias em Monerá, sempre na primeira quinzena de fevereiro.
Assim foi em 52, 53 e 54. Dias maravilhosos que deixavam saudades.
À volta, aconteciam os preparativos para as aulas, que não tardariam, aumentando em fortes tons, uma indisfarçável melancolia.
         Aliás, férias na minha infância não significavam dias inteiros de “boa vida”. Havia sempre alguma obrigação a ser cumprida.
Uma, era marcante e até prazerosa, a pintura de cadeiras, armários, latas de mantimentos e tudo mais que necessitasse ficar como novo. Evidentemente que o pior pincel sobrava para mim, em restrita obediência à lei do “mais forte”, no caso, cada um dos meus irmãos.
         Outras missões eram mais desagradáveis, e fugir delas era tarefa quase sempre fadada ao fracasso. Lavar pratos, talheres e panelas, encerar  os quartos, a sala e degrau por degrau da íngreme escada que nos levava ao segundo andar eram encargos cumpridos com resignação.
Muitas vezes usava-se o pesado escovão e não com a enceradeira elétrica, que segundo nossa “chefa” era um modernismo que não correspondia a um trabalho esmerado.
         Mamãe a tudo fiscalizava e só liberava após uma vistoria rigorosa.
Nem sempre as coisas corriam em paz e muitas vezes os atritos eram inevitáveis. Dona Tininha ficava muito brava e eu inutilmente revoltado.
         Nas colônias de férias em Monerá havia, em se tratando de um evento patrocinado pelo colégio, uma orientação religiosa ao longo de toda nossa estadia. Felizmente, os padres que nos acompanhavam eram bastante esclarecidos e preparados para tratar com crianças e adolescentes.
         Faziam-me muito bem as missas celebradas sempre às cinco e trinta da manhã, na paz do dia ainda nascendo, bem como os Ofícios a Nossa Senhora, rezados e cantados em calmas caminhadas ao cair da tarde, pulmões repletos do bom ar da mata adormecendo.
         Excelente terapia...
         As partidas de futebol, a piscina, as olimpíadas, os jogos de botão e pingue-pongue e muitas outras atividades, sempre muito bem planejadas e dirigidas pelo Irmão Moisés, o nosso querido “batatinha”, e pelo Professor Tarlé, o eterno mestre de História e Geografia, fazia as horas correrem muito depressa.
Os passeios de barco no lago de águas negras, a pesca das carpas, bagres e lambaris, o churrasco na Fazenda Santa Bárbara são acontecimentos de não mais esquecer.
         Como era divertido o prosa com “Tio Pedro”, velho ex-escravo com quase cem anos, a tocar sua flautinha de bambu e a cantar repetidamente, “tatu tá no pau, ô tira Antônio...”.
         Era impressionante que durante alguns dias conviviam crianças e rapazes desde dez até dezoito anos, numa harmonia quase perfeita e desenvolvendo atividades que agradavam com unanimidade.
         Após o jantar, todos, já bastante cansados, participavam do sarau, onde cada um dos participantes demonstrava alguma arte ou habilidade.     
         Mágicas, canções em solo acompanhadas por acordeon, o instrumento da moda, ou em corais recém improvisados. Pequenos esquetes eram seguidos de célebres piadas, algumas mais do que conhecidas outras nem tanto, principalmente quando na voz do Fernando Vieira, um humorista nato e trocadilhista militante.
         Fernando e suas charadas infames: “Um sujeito ia dirigindo seu carro na Rio-São Paulo, quando de repente é ultrapassado em grande velocidade por dois malucos que seguem na contramão. Ele sorri e prossegue a viagem. Mais adiante se depara com os dois malucos chocados contra uma árvore. Qual a moral da história?”.
Após alguns segundos de confabulação da platéia, vem a resposta inesperada: “mais vale um, passar rindo na mão, que dois voando”, evidentemente um trocadilho do provérbio “mais vale um passarinho na mão, do que dois voando”.
Era incrível o Fernando Vieira, sempre com uma observação divertida para alegrar a turma.
         Evidentemente que não viajava tão sozinho para estas colônias. No primeiro ano, por exemplo, seguiu comigo o Pedro Glauco, colega e amigo do Guido, que recebeu de mamãe a desconfortável incumbência de zelar por mim.
         Gostava muito do Pedro, já quase adulto, sempre muito calmo e atencioso comigo e, sobretudo um “freguês de caderno” a levar várias surras nas partidas de botão que disputávamos.
Hoje, Pedro é o Padre Glauco, jesuíta em plena atividade no Colégio Santo Inácio.
         Em dias especiais eram feitos passeios mais longos até as cidades vizinhas.
Na volta, a noite escura e o vento frio eram enfrentados ao som de canções cantadas numa seqüência sem intermitências, o ritmo marcado nas mãos e pés em batidas compassadas.
         De quando em vez um uníssono grito saldava um caminhante ronceiro ou a tênue luz vinda de um indolente casebre de beira de estrada.
Quem acordado estivesse poderia ouvir estranho coro, cortando o silêncio da boca da noite:
“My Bonnie lies over the ocean;
My Bonnie lies over the sea;
my Bonnie lies over the ocean;
Oh! bring back my Bonnie to me;
Bring back, bring back,
Oh! bring back my Bonnie to me, to me!;
Bring back, bring back,
Oh! bring back my Bonnie to me !”.


- Trecho de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997.
        

32 - "NIQUE-NAL"

                                       
        
         Os trens “Maria Fumaça” já eram meus velhos conhecidos das viagens que amiúde fazia toda a família, a Petrópolis.
Quando de férias, quase sempre em dias de julho, era quase um ritual de seguidas manhãs, o assistir as manobras dos trens do alto da ponte que cortava a Estação de Ferro.
          Ficava muito perto da pensão Vera Regina, nossa casa por poucos dias, e o apito das locomotivas era o irresistível chamamento para o desfile dos vagões de primeira e segunda classe, os comboios de carga, o carregamento de lenha e o enchimento das caldeiras.
Ficava deslumbrado com toda aquela agitação; tudo resultava muito bem arrumadinho em poucos minutos de movimentos bem sincronizados.
Coisa muito moderna pensava baixinho.
         Uma destas férias foi muito pesarosa, pois todos sofriam muito com as dores que papai não conseguia disfarçar, causadas por uma úlcera no duodeno que o levaria a uma cirurgia, poucos dias após a volta ao Rio de Janeiro.
         Lembro do cirurgião, Dr. Fernando Paulino, de grande nomeada na época.
         Papai ficou logo bom. Apenas, como lhe restara menos da metade do estômago, deveria, como aconteceu pelo resto de sua vida, alimentar-se com bastante comedimento.
         Visitar minha Tia Célia, Mère Margarida, por muitos anos freira do Colégio Sion de Petrópolis até seu falecimento já bem velinha, exigia viagem de ida e volta, no mesmo dia, sempre aos domingos, a bordo do nosso velho conhecido trem, envolto em grossos rolos de fumaça.
           Marcante a personalidade de Tia Célia: sempre com um largo sorriso, a conversar sobre tudo, sempre atualizada com seu tempo e quase nunca a falar de religião nos passava lições de fé pelo seu testemunho e sua afetividade. Demonstrava ser muito feliz com sua opção religiosasa e seu exemplo valia mais que mil pregações ou sermões inflamados.
O cheiro de lenha queimada que enchia os ares da cidade parece que atiçava ainda mais nosso apetite, só aplacado no Restaurante Falconi, com suas mesas e cadeiras impecavelmente protegidas por alvas capas de tecido rugoso e suas massas italianas que com “boa vontade” assemelhavam-se com aquelas feitas pelo meu tio Armando.

Trecho do meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997

segunda-feira, 23 de abril de 2012

31 - MARIA FUMAÇA E O CHÁ DE BODE

                                      
 
         Em fevereiro de 1952, um acontecimento. Pela primeira vez viajava sem a companhia de papai ou mamãe.
Custou, mas valeu a pena.
Fui para a colônia de férias do colégio, em Monerá, uns confins a meio dia de “Maria Fumaça”(*) do Rio de Janeiro, atrás das serras de Friburgo. Seriam quinze dias de muitas novidades. Comecei a vivê-las muito antes, passadas as festas de ano novo.
         Na véspera, o auge da excitação. Mamãe rabujava: “pára, menino, está parecendo um bicho-carpinteiro”.
Noite partida pelo estridente despertador, pouco depois das três. O corre-corre dos últimos preparativos, o vestir, o fechar a mala, o farnel, e já o taxi encomendado de véspera estava a espera.
          O bater da porta, a noite escura, a rua deserta, quase fria, desconhecida para os meus olhos de onze anos. A Gare Barão de Mauá, a plataforma, o leve cheiro de lenha queimada, o trem, as lâmpadas de carbureto sendo acesas uma a uma. As caras conhecidas,  o assento junto à janela, o coro cada vez mais estridente de vozes infantis.
          O soar do sino, o longo apito, o ranger de ferros, finalmente o trem em movimento.
Estamos a bordo de uma companhia inglesa “The Leopoldina Railways”; olho para o relógio da estação, cinco horas e vinte e cinco minutos. Saída no horário preciso; quanto a chegada...
         Lembro cada detalhe desta primeira viagem. A palhinha verde escura do  assento de encosto alto, a proteção em grosso tecido branco no espaldar das poltronas, o cheiro desagradável do acetileno incandescente, os rostos amigos dos colegas mais chegados, o Giordano, os Lages, Flávio e Roberto, o Edmar, o Maurício. O  clarear do dia, o desfilar de pessoas mal acordadas em cenários inéditos, todos os pormenores estão fielmente gravados em minha memória.
         Uma hora de viagem.
Lá, bem no fundo do coração, o primeiro aperto, bem de leve,  saudade das minhas coisas, da minha casa.
         Depois, a parada em Itaboraí e a longa espera pelo trem Campista. Várias manobras e a nova composição toma rumo de Cachoeiras de Macacu.
         A vagarosa subida da serra, a cremalheira, Friburgo, Banquete, Bom Jardim e finalmente Monerá. A estação, a loja dos correios e do outro lado a igrejinha de Nossa Senhora da Guia.
         Seis horas da tarde, o desembarque, o carregar de malas pesadas e a  primeira surpresa: todos a bordo, no caminhão com pranchões de madeira apoiados nas laterais a guisa de bancos.
         Meia hora numa estrada cheia de curvas; muita poeira, o penetrante perfume da erva cidreira, o cheiro do mato e o vento no rosto, davam uma maravilhosa sensação de liberdade.
Enfim, a chegada à Vila Berckmans, meu lar pelos próximos quatorze dias, pois o primeiro, praticamente já se fora.
         O banho frio foi o primeiro teste para alguém acostumado com banhos mornos, conseqüência de uma superproteção indesejada. Ao passar o pente nos cabelos, o sinal dos tempos na quantidade de carvão acumulada nas longas horas do balançar da “Maria Fumaça”.
         O jantar sonolento, o “chá de bode” (*), uma breve explanação sobre as regras a serem obedecidas para um convívio civilizado, e finalmente o dormitório, com camas separadas por tabiques de madeira a meia-altura; a privacidade era protegida por uma cortina de lona encorpada.
         Como sempre o sono só chegou após o canto dos galos, o pensamento longe...- a vila, a minha casa, meus irmãos, meu pai, minha mãe, minha mãe, minha mãe ...




_________________
        
         (*) -  “Maria Fumaça” : na realidade, tratava-se de mais uma das famosas locomotivas Garratt, fabricada pôr Beyer Peacock, famosas no mundo inteiro. Uma destas importantes locomotivas está exposta no Museu do Trem, em Recife, Pernambuco,
(*) - “Chá de Bode” : chá feito com erva cidreira e segundo às más línguas, adicionavam no seu preparo algum calmante para relaxar a garotada na hora de dormir. Sua ingestão era compulsória.

sábado, 21 de abril de 2012

30 - O "PERNA DE PAU"


        
         A “doença” de meu irmão e a morte do pai do meu melhor amigo  foram dois grandes dramas que marcaram 1951. Duas dores, um repentino amadurecer e o começo do adeus à minha infância, selaram aquele ano.
         Apesar de todas as turbulências este foi o ano das minhas melhores notas. Por mais de uma vez consegui ser o primeiro da turma; para ser mais exato, sem exageros, parece-me que foram duas vezes.
Um sonho mostrar o boletim em casa, igualzinho aos melhores do meu irmão.
          Lamentavelmente este feito não iria repetir-se no futuro, mas foi uma boa a experiência, apesar de nunca gostar muito da cara dos primeiros de turma, “uma raça muito besta e meio por fora da realidade”, pensava com meus botões. Sempre achei-os muito tristes, vítimas de algozes paternos a exigir sempre mais e mais notas dez. Alguns pareciam até meio “maricas”. Não devia ser bem isto, mas era o que sentia.
         O ritual da entrega dos boletins, ao início de cada novo mês, era um misto de emoção e tortura.
Os boletins superpostos pela ordem de classificação eram nomeados, sem pressa, um a um, pelo professor titular: “em primeiro lugar David Luiz Rozani Nunes com média nove vírgula seis; em segundo lugar Luiz Ronaldo Marino de Araújo com média  nove vírgula quatro; em terceiro lugar José Carlos Coelho Leal com média nove vírgula um”.
Ufa! que alívio.
         Havia meses, no entanto, que a tortura passava do vigésimo e até do trigésimo lugar. Aí, era preciso uma grande desculpa para justificar semelhante fracasso.
         Ao final de 1951 estava completando quatro anos de colégio e com ares de veterano procurava de alguma forma suprir as minhas deficiências, uma delas ser um tremendo “perna-de-pau”, sempre o último a ser escolhido na formação dos times.
         Inúteis meus esforços.
A cada rejeição sentia uma dor muito grande por dentro, mistura de humilhação e rancor. Rancor contra Dona Tininha que de tanto proibir não permitiu que aprendesse a jogar no momento certo. Agora, minha desvantagem era muito grande.
         Nunca consegui superar tal problema. Minha sina era continuar sendo, cada vez mais, um belo “perna-de-pau”, com todo o ônus que fazia jus tal título. Pouco a pouco evitava jogar futebol, até desistir em definitivo. O mundo dos esportes deixou, assim, ingloriamente, de aplaudir uma grande estrela!

Obs. - Trecho o meu livro "Cheiro de Verão", escrito ao longo dos anos 1987 e 1988

quinta-feira, 19 de abril de 2012

29 - O REBELDE.

         A medida do meu crescimento era a mesma dos conflitos com Dona Tininha. Pouco a pouco, sem que eu quisesse ou sequer notasse, ia tornando-me um rebelde; pelo menos era tratado como tal.
         Às vezes ficava difícil obedecer.
Não conseguia entender a razão de certas proibições. Na verdade mamãe levava ao extremo a missão de educar três filhos, com temperamentos bem diversos, e talvez pela diferença de idades sentia-me mais isolado e por conseqüência, com uma carga maior de exigências a cumprir.
          Somente com o passar dos anos, comecei a perceber algumas coisas.
          Em primeiro lugar, havia algo mal resolvido no passado de mamãe, talvez sua infância de pouca duração, caçula que era de sete irmãos e  ausente da mãe, morta prematuramente.
         As dificuldades financeiras deviam ser grandes, pois cedo, antes dos treze, deixou os cadernos em troca de patrão, além de enfrentar todas as tarefas de uma casa cheia de irmãos, já homens - meus tios, Augusto, Humberto, Carlos e Ângelo que conheci, e tio José e vovô Vicenzo que não.
          Imagino sua dedicação para atender a todos, transpirando responsabilidades por todos os poros, procurando se superar dia após dia e às irmãs - tias Angelina e Helena.
         Depois, casada aos dezessete anos e morando com meus avós, num ambiente bem diverso, foi envolvida pela expectativa da chegada de um primogênito que desse continuidade ao nome da família - meu pai era o único homem a acompanhar as irmãs, Célia, já freira do Sion, Heloisa e Nelsinda.
          A perda do primeiro filho deve ter abalado muito seu íntimo já em conflito com tantas mudanças e oprimida ao peso de tantas reponsabilidades.
         Tudo isto teve influência direta na sua maneira de ser como mãe, sempre procurando garantir para seus filhos uma segurança que provavelmente jamais conheceu.
Excesso de amor, com certeza.
         Sentia mamãe muito sozinha. A casa, os filhos e uma quase doentia obceção pelo cumprimento do dever a afastavam de papai e isto me fazia sofrer.
         Hoje reconheço que muito do que consegui devo a disciplina rígida que me foi imposta. Difícil era entender tudo isto aos dez, onze, quatorze anos. E aí, os conflitos e a rebeldia impotente, pois querendo ou não, o desfecho natural era acabar capitulando às suas ordens.
Sentia-me seguidamente triste, solitário e aos poucos uma timidez indesejável fez-se em mim. Acho que mamãe exagerou nas doses de carinho

Obs.: trecho do meu livro “Chuiro de Verão”.

28 - ÍDOLOS E BOLACHAS

        
         Admiração tive muitas e por várias pessoas.
Ídolos acho que nunca os tive, diferentemente de uma multidão de fanáticos por artistas, políticos, estadistas, e até jogadores de futebol. Vi muitas brigas, algumas sérias, por causas estéreis de este ou aquele ser o melhor, o perfeito - como se dizia nos bons tempos, “o tal...”.
         Acho que exagerei um pouco.
Minhas calças curtas me davam o direito de ter um ídolo, ou para não me contradizer totalmente, uma “grande admiração”, pela figura de um jogador de futebol, crack de um clube só em toda sua carreira: Nilton Santos.
         Campeão comigo em 1948, esteve fora do maior desastre do futebol brasileiro, a derrota para a seleção do Uruguai, na Copa de 1950, em pleno Maracanã.
Flávio Costa, técnico da seleção de 50, preferiu escalar Bigode e o resultado foi o que se viu.
Anos mais tarde, Nilton Santos dava o seguinte depoimento: “1950 foi a minha primeira Copa. Fiquei de fora porque o Flávio Costa não gostava de mim. Primeiro ele implicou com minha chuteira. Disse que o bico era mole e devia ser duro para eu poder dar bico para frente. Eu já tinha jogado como atacante e para isso era preciso ter habilidade, certo? Portanto a chuteira obedecia. Além disso, ele achava que jogador de defesa tinha que chutar para cima. Daí eu já não cruzei bem com ele. Ai ele me mudou de posição. Eu era lateral esquerdo e quando fui convocado para a Copa de 1950 já era campeão carioca pelo Botafogo e campeão sul-americano pela seleção. Ele me botou de lateral direito, reserva do capitão do time, que era o Augusto. Eu não ia jogar nunca, só se o Augusto morresse...”
O gênio daquele time Campeão do Mundo de 1950 era Schiaffino, Juan Alberto Schiaffino, um ponta-de-lança de toques rápidos e arremates precisos.
O curioso é que o arremate mais importante de sua vida, o primeiro gol contra o Brasil, não foi nada preciso. Declaração de Schiaffino: “quando Ghiggia cruzou, tentei escorar a bola de raspão, só que acertei o peito do pé. Em vez de ir para o canto direito, ela foi para o esquerdo. Foi uma sorte espantosa”.  
O gol decisivo, o segundo, foi cópia do primeiro, com Ghiggia vencendo Bigode na corrida e Barbosa (o goleiro) se adiantando para se antecipar ao cruzamento para Schiaffino. Juvenal veio na corrida para fazer a cobertura.
Mas, em vez de cruzar, Ghiggia chutou.
A bola passou entre a trave e o goleiro, silenciando o estádio e todo país. Faltavam apenas 11 minutos para o término da partida.
O público embora muito chocado aplaudiu a vitória uruguaia.
Barbosa não teve qualquer culpa na derrota, no entanto nunca mais readquiriu o grande prestígio que tinha até então.
Na Copa de 1994, nos Estados Unidos, Barbosa tentou entrar na concentração brasileira para apoiar os jogadores, mas foi barrado.
Muito triste, declarou à imprensa: “No Brasil a pena máxima por um crime é de 30 anos. Eu pago há 44 anos por um crime que não cometi...”
         Com toda certeza, aquela noite de 16 de junho de 1950, foi a mais triste e silenciosa de toda a história deste Rio de Janeiro.
Da janela do meu quarto não via viva alma na rua. Ficava difícil imaginar que poucas horas antes, tudo eram festas e confiança na vitória e no carnaval que viria em plena época de festas juninas.
Apesar de tudo, eu sonhava...
         Sonhava ver de perto meu ídolo, conversar com ele e quem sabe, trocar uns passes com uma “número cinco” em qualquer pedaço de verde do gramado da minha imaginação.
Um dia isto quase aconteceu, de verdade, mas era o Ademir (outro participante do desastre de 1950) e o verde era a cor de seu carro “rabo de peixe”, em ligeira parada, num sinal vermelho na Praça Saens Peña, bem ali, em frente ao bar Éden. (*)
         Valeu a pena ter, pelo menos, um ídolo, pois nunca me decepcionou, mesmo ao final de sua carreira, beirando os quarenta anos.
E ainda, depois de largar as chuteiras, me deu uma grande satisfação quando num jogo em que o Botafogo foi seriamente prejudicado, presenteou o árbitro Armando Marques com umas merecidas “bolachas”. Neste dia, dormi com minha alma botafoguense lavada.

    


(*) - O bar Éden ficava onde hoje está o edifício do Banerj. Servia o melhor sorvete “italiano” do Rio de Janeiro, e no final da minha adolescência era uma delícia saborear um “bife a cavalo com arroz”, no meio da madrugada na volta de um baile qualquer.

27 - MEU HERÓI


         Muita mágoa e aflição me traziam as inoportunas comparações, obras de vários mestres, ao longo dos 11 anos vividos junto aos maristas.
Os modelos, referenciais para as comparações, eram meus irmãos, principalmente o “famigerado” Guido Nelson, o “rei das medalhas”, o modelo de aplicação, paradigma a ser imitado a todo custo.
         Atenção! Não quis ofender: “famigerado”, é um adjetivo inofensivo que significa: que tem fama, célebre, muito notável.
         “Porque você não é igual a ele?”, frase que humilhava sem proveito e revoltava sem ódio.
Mas, machucava.
         Guido sempre disputava os primeiros lugares e, merecidamente, nas festas de fim de ano, subia a palco do salão engalanado para receber calorosos aplausos, peito coberto de medalhas de ouro e algumas de prata.
         Apesar do apelo de meus mestres, jamais consegui desempenho semelhante.
         Custei a superar tal problema. Eu era diferente, e daí?
Fácil, hoje; muito difícil, entender tudo isto, naqueles dias.
Estes fatos afastavam meu irmão de mim, de verdade. Admirava-o, e muito, mas sentia-me rejeitado. Um coadjuvante de segundo plano. Jamais seria igual a ele...
         1951, tão amargo para meu amigo Sidinho, apresentaria outro grande drama, que me aproximaria de meu irmão e ajudaria a superar o que poderia transformar-se , lamentavelmente , num tremendo complexo de inferioridade.
         Naquele ano, ao fim das férias de julho, ao voltar de Friburgo com uma gripe mal curada, Guido foi examinado pelo nosso conhecido Dr. Jucá, ouvindo o diagnóstico perverso: tuberculose pulmonar.
Repentinamente, tudo mudaria lá em casa.
         Um quarto só para o Guido, isolado. Louças e talheres separados e devidamente escaldados após cada uso. Deviam-se evitar maiores contatos. A vida de todos, totalmente mudada.
Em 1951, tuberculose era quase uma sentença fatal.
         Imediatamente foi iniciado o tratamento com novas drogas, as últimas palavras para a época: coisas como, di-hidro-estreptomicina, hidrazina e assemelhados.
Cada injeção aplicada causava reações brutais, mas era preciso insistir no tratamento. Meu irmão ardia em febre, deixando todos nós consternados.
         O quadro permaneceu inalterado por mais de uma quinzena.
         Dava pena olhar para minha mãe, e certamente, naqueles dias, não ouvi sua cantigas. Acho que só ela sentia que alguma coisa não estava correta, numa intuição que não seria a única durante sua vida.
         Numa manhã, provavelmente após uma noite insone, decidiu consultar nosso vizinho da casa oito, médico, por quem não tinha grandes simpatias.
         “Hoje à noite, após o jantar, a senhora prepara um bom cafezinho e iremos com calma examinar a questão”, disse Dr. Rui com sua voz  quase sussurrante e de um tom grave impressivo.
         Lá pelas nove, a mesa já posta com cuidado ostentando a melhor louça, a longa espera de um dia sofrido teve seu fim com a chegada do ilustre convidado.
Rapidamente postei-me atrás da porta da copa, ouvidos muito atentos, pois esta não era conversa de se perder.
         Dr Rui ouviu calmamente a história contada por papai com ajuda sempre chorosa da mamãe, sem dizer uma única palavra. Viu as radiografias sem muita demora e subiu para examinar o “doente”.
         O café foi servido e com seu perfume ainda no ar, ouvimos finalmente, - eu, atrás da porta, naturalmente - o que todos queriam ouvir: “acho que tenho boas notícias” e prosseguiu pausadamente, “estas radiografias não estão boas e não auscultei nada de estranho nos pulmões do rapaz; amanhã, pela manhã, passarei para leva-lo a novas radiografias e vamos ver se meu diagnóstico favorável é confirmado”.
         Depois de muitas noites, após mal educada indiscrição, finalmente dormi com muita esperança de que todo pesadelo iria terminar.
         Poucas horas mais, e Guido estava livre das conseqüências de um desastrado diagnóstico.
Um mês perdido, logo o de seu aniversário de dezoito anos. Nota zero em todas as matérias no boletim do colégio. Apesar de tudo, muita alegria.
Mamãe acertara mais uma vez, e o Dr. Rui da Costa Leite, a partir daqueles dias, passava a ser um “deus” para Dona Tininha.
         Apesar do mês perdido, Guido passou em sétimo lugar no vestibular da PUC para o curso de engenharia.
Vibrei demais com a grande vitória do meu herói.

Obs.- Trecho do meu livro "Cheiro de Verão".





          



segunda-feira, 16 de abril de 2012

26 - O "MAGDALENA"

             


Em abril de 1949, os jornais e as rádios ocuparam-se por vários dias com um acontecimento que me impressionou fortemente.
Em pensamentos sentia, numa vivência amargurada, a desgraça envolvendo fatos acontecidos longe do meu dia-a-dia, mas de qualquer forma marcantes para a humanidade.
A história: em 25 de abril de 1949 o navio Magdalena - cargueiro de bandeira inglesa, que voltava de Buenos Aires para Londres - chocou-se com uma rocha submersa e encalhou com um carregamento de 4,7 mil toneladas.
 O desastre aconteceu nas ilhas Tijucas, próximo à então deserta Barra da Tijuca.
A Marinha, após desencalhar o Magdalena, tentou rebocá-lo  em direção ao Porto do Rio de Janeiro. Na entrada da Baía de Guanabara, no local conhecido como Boca da Barra, o navio partiu-se em dois pedaços e afundou.
O impacto do acidente atraiu a atenção mundial pelas trágicas coincidências com outro naufrágio, o do transatlântico Titanic, que também afundou partindo-se ao meio, abalando a opinião pública mundial a partir da madrugada de 14 para 15 de abril de 1912.
 Além dos naufrágios dos dois navios terem acontecido de formas idênticas, ambos num mês de abril e em suas viagens inaugurais, também o fabricante era o mesmo, o estaleiro Harland & Wolff.
Em Londres, a imprensa debateu por muito tempo o baque que o acidente poderia representar para a tradicional indústria naval inglesa.
Depois de longo processo o Tribunal Marítimo Brasileiro apresentou o conjunto de causas do acidente: erro de navegação, negligência dos oficiais de serviço e omissão do comandante.
Até nisso a história do Magdalena  se parece com a do Titanic.
Única diferença: no Magdalena os 274 passageiros e tripulantes foram salvos. 

Obs. - Trecho do livro Cheiro de Verão