“Lafranhudos! Hora de acordar! Todo mundo fora da cama!”.
As vezes éramos surpreendidos com este despertar.
Numa folga qualquer, papai lembrava de levar-nos a uma excursão, e antes do apito da Hanseática (fábrica da Brahma, na rua José Higino) nos colocava de pé.
Com ele tudo tinha que ser muito rápido, e com algum resmungo íamos atendendo às suas ordens. Seria um dia cheio, cansativo, mas, de certo, valeria a pena..
Até hoje não sei de onde tirou esta palavra “lafranhudo”; nos chamava assim, principalmente a mim. “Lafranhudo”, eu gostava.
Em poucos minutos já estávamos na rua Conde de Bonfim à espera do bonde 67 - Alto da Boa Vista . Eu, meio sonolento, ia conferindo devagar se nada havia esquecido - achava bonito levar, com cuidado, o meu facão, cabo de madrepérola, no coldre de coro afivelado no cinto.
Ocupando um banco inteiro, começamos a viagem.
Evidentemente, o facão do Guido era o mais bonito, com a lâmina de aço inoxidável toda trabalhada com lindos desenhos. Com desdém, virava o rosto e distraia-me vendo passar, ponto a ponto, a Muda da Tijuca, a Usina, as Águas Férreas.
No sentido contrário os bondes desciam cheios, passageiros pendurados nos balaustres demandavam seus destinos, certamente mais um dia penoso de trabalho.
Enquanto isso rapidamente chegávamos ao Alto da Boa Vista.
Hora de saltar; daqui para frente era dar à perna, pois acompanhar nosso guia não era empreitada para qualquer um.
Tudo era novidade. Papai, sempre falando, ia dando instruções de como se comportar: “num córrego de águas cristalinas, se você cuspir e a saliva não dissolver, pode beber dessa água que é potável”. Coisas daquela época pois, hoje, onde estão os córregos de águas cristalinas ?
Um suave murmúrio de água deslizando pelas rochas nos alertava para alguma surpresa após a próxima curva.
Lá estava, a majestosa Cascatinha Taunay, obrigatoriamente nossa primeira parada, coisa para pouco tempo, o suficiente para sentir o frescor do vapor úmido em nossos rostos, encher os pulmões de ar puro e abastecer o único cantil disponível.
Consultado o mapa no mural em azulejos, decidiu-se o rumo: Pico da Tijuca.
O silêncio da mata era interrompido pelo canto de alguma ave assanhada, e pelo rumor cadenciado dos nossos passos a levantar poeira do pedrisco seco.
Papai já não falava tanto, mesmo assim contava as aventuras das excursões de quando jovem a Itatiaia, às Agulhas, às Prateleiras e, também das caminhadas do Rio até Petrópolis, partindo de Botafogo em certas noites de desafio.
As respirações ofegantes foram amainadas com a chegada à gruta Paulo e Virgínia. Depois, Bom Retiro e a subida final em trilhas cada vez mais estreitas até o Pico da Tijuca, a 1021 metros acima do nível do mar.
Vencida a última etapa facilitada pelos degraus escavados na rocha, finalmente o deslumbre da visão magnífica da cidade a nossos pés. Um espetáculo de trezentos e sessenta graus. Ao longe o sussuro do borburinho da cidade em plena atividade, muito junto a nós o roçar das folhas atiçadas pelo vento brando.
Depois, o almoço farto, o papo descontraído enquanto com gravetos fazíamos desenhos sem nexo na areia fina. A neblina que aos poucos ia se formando lembrava que era hora boa de voltar para casa.
De novo no Alto da Boa Vista, a última provocação de papai a por em cheque nossos brios: “nada de bonde, vamos a pé até em casa!”.
Repto aceito.
“Este seu pai tem menos juízo do que vocês !”, disse mamãe assustada com a demora na nossa volta.
À noite já ia bem alta quando deitei.
Olhando para as sombras no teto do quarto, lembrava das coisas boas do dia que passara.
Baixinho, dizia para o meu amigo Tim que aquele dia não devia terminar.
Finalmente o cansaço foi mais forte e eu dormi.
Obs. - Pequena crônica contida em meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997