por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº55 - MAIS TRABALHO



-         Leal! Não agüento mais essa tal de Dona Honorina!
-         Calma!
-         Esse negócio de morar em pensão “está bagunçando o meu coreto” – disse Fernando decidido a tomar alguma providência.
-         Eu como chego tarde e cansado, só faço mesmo é tomar banho e dormir. Não está dando tempo nem para pensar.
-         Você não viu o caso que ela criou com o Carlos só porque o cara é judeu e tinha que cumprir o que manda a sua religião; pediu uma alimentação especial. A mulher ficou uma fera... Era só um dia...
-         O negócio dela é ganhar dinheiro.
-         E os nossos vizinhos de cima o Alfredo e o Chico. Volta e meia, madrugada já alta, quase saem na porrada.

          Nossos vizinhos de cima eram o Alfredo Laufer, o Luiz Fernando e o Francisco Aboin, vulgo Chico “pé de cana”.
          Chico era um inveterado boêmio ao contrário do Alfredo que poderia ser chamado, sem ofensa de cê-dê-efe; felizmente não era um chato como de maneira geral eram todos os cê-dê-efes.
          Alfredo estudava muito, Chico, nem tanto.
          A cena se repetia com certa freqüência: véspera de prova, madrugada já querendo amadurecer, Alfredo dormia o sono dos justos. Chico chegava, para variar meio “alto” e despertava o amigo e implorava uma panorâmica da prova do dia seguinte.
          Depois de muito bate-boca e muito xingamento, Alfredo resolvia ensinar ao malandro.
          Dias depois viria o resultado da prova. Era muito comum o Chico tirar melhor nota que o Alfredo. Aí novo arranca-rabo noite adentro para desespero do Fernando.
          Por essas e outras, o cara estava mesmo decidido a mudar.

-         Comprei o jornal da terra marquei alguns apartamentos e se você topar iremos vê-los, escolher o melhor e alugá-lo.
-         E onde eu vou achar tempo para isso?
-         É rapidinho...
-         E o dinheiro?
-         “Você está com tudo e não esta prosa...”. Dono de Curso... Deixa de ser pão-duro.
-         Não é bem assim...
-         É capaz até de ficar mais barato que esta pensão e, afinal, teremos a liberdade até para levar umas menininhas para nos fazer companhia. Liberdade, privacidade e conforto para dois pobres estudantes perdidos na “serra”.
-         Não custa tentar...
-         Pensei também em convidar mais um colega para dividir as despesas. Já falei com o Luiz Carlos e ele topa. Só falta você concordar.
-         Por mim, tudo bem. Se você conhece o cara vale a pena tentar...Ah! E os móveis? Teremos que providenciar.
-         Deixa comigo que tudo vai se arranjar.
-         Mudando de assunto, alguém procurou por mim?
-         O Martiniano Lauro. Disse que estão procurando um professor de matemática para o Colégio Werneck. Indicou você.

          A semana não terminaria sem que tivéssemos mudado e eu assumisse a cadeira de matemática do Primeiro Científico do Instituto Werneck.
          Mais trabalho...
          Antes de esquecer! Meu novo endereço: Av. XV de Novembro (atual Avenida do Imperador), 970 apto. 504 – Bloco B, pelo menos ao correr daqueles próximos anos...


         - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito ao longo do ano de 2001 na Cidade de Arraial do Cabo.




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