Estava chegando finalmente o dia da “libertação”.
A partir do Baile dos Calouros chupetas e toucas seriam finalmente arquivadas; a minha touca, para sempre, pois a tenho guardada com muito carinho.
Na verdade o trote transcorreu em calma; apenas um calouro transgrediu as normas impostas. Foi o Bill.
Assim aconteceu a coisa: premeditadamente, nosso herói, por mais de uma vez, negou-se a usar a chupeta na presença de um veterano.
Levado a julgamento público pela comissão de trote, depois de um longo e impagável interrogatório, com direito inclusive à defesa dos porquês de seu tresloucado ato, foi condenado.
A sentença foi cumprida logo em seguida em ato solene do alto da escadaria que encimava o relógio de sol que até hoje orna o frontispício do prédio da Universidade.
Seu cabelo foi rapado a zero. O careca ainda teve a ousadia de desafiar seus algozes:
- Não há problema. Amanhã estarei de volta com meus cabelos devidamente crescidos. Em poucas horas tenho capacidade de recuperá-los.
Com efeito, no fim da manhã do dia seguinte aparecia o nosso Bill com os cabelos intatos, devidamente penteados.
- É peruca!
- Não é.
- É!
- Podem examinar a vontade, puxar, torcer...
- É cabelo mesmo!
- Eu não disse que crescia em menos de 2 horas. Vocês são uns “patos”.
O feitiço se virara contra o feiticeiro.
Logo descobriram a farsa. Não era o Bill e sim o Bel seu irmão gêmeo. Tudo tinha sido feito com o propósito de achincalhar os veteranos que, obviamente, ficaram com a “cara no chão”.
Pensaram até em dar uns cascudos no farsante, mas já era tarde; ele se mandara de carona para o Rio.
A propósito: Bill era o Alcebíades Gomes Leite de Carvalho que anos mais tarde se formaria junto comigo na U.E.G. atual U.E.R.J..
Valeu!
Mas chegou finalmente o dia da libertação.
Aquela sexta-feira 12 de maio foi um dia saboroso.
Degustei-o com muito contentamento. Eram duas conquistas que deveriam ser comemoradas a pouco e pouco: a possibilidade de ter, junto a mim, por várias horas o amor de minha vida e, a incrível sensação de que meu destino, finalmente, tomava um rumo definitivo.
O Clube Petropolitano com seus jardins orvalhados, a música dançante, às vezes agitada ou quase sempre romântica, o frio da madrugada na serra que fazia com que os casais mais e mais se aconchegassem criara o clima ideal para uma noite perfeita.
Passava das quatro da manhã quando deixávamos Petrópolis a bordo do DKW da Tité que, em ocasiões muito especiais, o emprestava sem disfarçar uma preocupação que só teria fim com o retorno do “bólido” a casa e depois de minuciosa vistoria; em caso de chuva o carro deveria ser cuidadosamente seco antes de recolher-se ao seu merecido repouso na garagem.
Na frente iam o Carlos Alberto, nosso motorista de luxo e Dona Nice cabeça pendida para o lado num profundo sono. No banco de trás, eu e Tania. Juntinhos, abraçados em carícias há muito desejadas.
Só nós dois no mundo...
O sol já nascera fazia tempo quando cheguei a casa.
Súbito, à volta à realidade. Nada de descansar no sábado e domingo, pois havia muito trabalho pela frente: atualizar as contas do curso, preparar algumas aulas, datilografar estênceis para confecção de apostilas e, se sobrar tempo, estudar um pouco as matérias da faculdade acumuladas pela falta de tempo no decorrer da semana que passara.
Assim seriam passados quase todos os domingos daí para frente, pelo menos nos próximos três anos.
O Bill também foi meu colega de turma no Colégio Militar !
ResponderExcluirEram dois irmãos gêmeos Bill e Bel, sempre sacanas...
Marcos