por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 52- OLHA O RELOGINHO!!!

                     


       Tão envolvido estava nas minhas tarefas de universitário, professor e, sem empáfia, empresário que esqueci que o mundo continuava a girar e as coisas não deixavam de acontecer.
          Depois do papelão de Jânio, o país mergulhara numa tremenda crise e a solução dada foi uma “velha conhecida”: “tapar o sol com uma peneira” como sabiamente dizia Dona Tininha.
           Criaram, então, um parlamentarismo híbrido, forma de evitar a entrega do poder pleno a João Goulart, o Jango. “O presidente está de mãos atadas”, protestavam seus partidários.  
          Daí para frente, governar significava um complicado malabarismo político. Na verdade deram-lhe um crédito de confiança limitado que devia ser renegociado diante de cada iniciativa do governo.
          Em contrapartida o populismo de Jango recebia apoio decisivo dos sindicatos, das organizações de esquerda e dos políticos ditos “nacionalistas” todos ávidos de reformas sociais, algumas, ou quase todas, de tendências bastante duvidosas e de poder.
          Enquanto estava envolvido com chupetas, toucas e matrículas, o país vivia uma crise, primeira de muitas outras, cada vez mais graves que se sucederiam até 31 de março de 1964.
          O primeiro-ministro Tancredo Neves (sempre perto do poder) prometia renunciar para concorrer às eleições para governador de Minas que se realizariam em outubro daquele ano.
Jango indica então San Tiago Dantas para novo primeiro-ministro.           
          Até então ministro das Relações Exteriores, Dantas atraíra a oposição dos conservadores e moderados tendo em vista sua férrea defesa de uma política externa não alinhada com os Estados Unidos e francamente aberta às nações socialistas.
           O Congresso impôs o veto ao candidato. Seguiram-se dias tensos, com as Forças Armadas de prontidão e uma greve geral de 24 horas de cunho sindicalista.
          A solução foi a escolha de Brochado da Rocha, do PSD gaúcho, que imediatamente lançou-se na luta pela antecipação do plebiscito popular sobre a permanência, ou não, do regime parlamentarista, originalmente marcado para 1965 ao final do governo de Jango.
           Novas divergências sobre a forma de realização do plebiscito, nova crise, renúncia do Gabinete de Brochado e posse de novo primeiro-ministro, o terceiro e derradeiro, o socialista Hermes Lima
           O plebiscito foi marcado para 6 de janeiro de 1963. O país viveu então dias de aparente trégua e o parlamentarismo “à brasileira” estava com seus dias contados.
           Para ser sincero só tomava conhecimento destes fatos quando nos fins de semana ao encontrar-me com Tania para alguns poucos instantes de amor e calma era interrompido pelo Sr. Mário, meu futuro sogro.
-         Leal! Esse Jango vai levar esse país à desgraça.
-         Talvez não, seu Mário.
-         Lacaios da União Soviética. É isso que eles pretendem nos transformar. República Sindicalista...
-         Não é bem assim. O Brasil não é qualquer republiqueta do Caribe e no momento certo irá reagir.
-         Já peguei em armas uma vez contra Getúlio e, apesar de minha idade pego de novo contra esses pelegos.
-         Isso não vai ser necessário...
-         Vai sim senhor. Tenho pena de vocês e de seus futuros filhos.

          Quando, finalmente, Sr. Mário se dava por satisfeito pelo extravasamento de toda sua indignação e se retirava, finalmente podíamos namorar.
          Infelizmente, não por muito tempo.
          O relógio da copa acabara de soar dez badaladas. Quase que simultaneamente “alguém” aparecia na porta da sala e:
-         Leal! Olha o reloginho!
-         Já sei Dona Nice. Já estou indo...
-         Boa Noite! Lembranças para Dona Tininha.

          Olha o reloginho! Cantilena, já minha conhecida e que ainda iria ouvir por certo tempo...
 
          -  Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001.





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