por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 43 - UM TIRO CORTOU O SILÊNCIO

          
       Mil  Novecentos e Sessenta e Dois parecia começar agitado.
          Já na madrugada de 1º para 2 de janeiro enquanto tentava conciliar o sono, esse meu eterno rival, meio dorme-não-dorme, ocorreu um sobressalto.
          Um baque surdo me despertou de vez.
          Coisa estranha!
          Parecia que alguma coisa pesada caíra.
          Mantive a imobilidade por alguns minutos a espera de possível novo barulho, ouvidos em alerta.
          Nada!
          Não custava levantar em silêncio e dar uma olhada pela janela. Foi o que fiz. Tudo calmo e a madrugada acomodava-se silente como nunca. Voltei para cama.
          Nada de vir o sono.
       E o baque surdo?
          Do quarto ao lado vinha o som familiar do ressonar de papai.
Afinal não custava nada vistoria também pela janela do quarto do César e Tininha que dava para os fundos da vila.
          Ato contínuo, no ponto dos pés, cheguei à janela. Tudo calmo.
          Já ia voltando para o meu quarto quando tive a idéia de melhor examinar a casa 3 e, para tanto, recolhi o postigo da esquerda projetando meu corpo um pouco para fora.
          Finalmente a descoberta de minha aflição.
          A vizinha casa 3 tinha na frente uma varanda coberta. Um telheiro encimado por uma janela que dava para um dos quartos superiores que compunha a fachada da casa.
         Moravam na casa Dona Leonor e sua neta Tatiana minha companheira de brincadeiras na infância. Apenas as duas e ambas imigrantes alemãs
          Na noite quente esta janela mantinha-se despudoradamente aberta. Com a ajuda de uma pequena escada de madeira ficava fácil o acesso ao interior da casa.
          Exatamente isto estava fazendo um "amante da coisa alheia". No momento de minha inspeção preparava-se para colocar a perna direita para dentro do quarto.
          Sem tempo a perder chamei papai que acordou de imediato. Sem dizer uma só palavra passou a mão numa pequena pistola que tinha na mesinha de cabeceira.
          Um tiro cortou o silêncio da noite.
          Assustado com o estampido o larápio rapidamente pulou do telhado para o gramado que circundava casa todo ele em grana do tipo  “pelo-de-urso” que devido à alta umidade do verão estava bem alto formando um alcatifado de rara beleza.
          Na rápida viagem até o solo não se deu conta da rede elétrica que abastecia de luz a casa. Um curto circuito foi inevitável. Numa carreira só o patife sumiu protegido pelo negror da noite.
          O baque do corpo do ladrão no relvado fez um barulho semelhante ao que eu ouvira minutos antes. Estava explicado o inusitado.
          O alvoroço na vila foi geral. Todo mundo espantando o sono comentando o acontecido; é um absurdo! Onde iremos parar com tanta violência? – esse o comentário geral.
          Era da inocência. Nem de longe imaginavam o que iria acontecer com esta cidade algumas décadas adiante.
          Examinando depois com mais cuidado o derredor da casa aparecia claro a marca da escada que provavelmente na primeira tentativa caíra sobre o gramado.
          O mandrião após aquele baque inicial ficou na expectativa dando algum tempo até recomeçar a sua faina. Tempo exato que levei até consumar a revista desde o quarto de meus pais.

       - Trecho do meu livro   "Chheiros da Vida" escrito em 2001  







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