por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº56 - AS GELADEIRAS

                        
          Nossa nova moradia era um chamado “conjugado”: quarto amplo, uma cozinha com fogão a gás de bujão, um armário de alumínio preso à parede acima da pia e, completando a “mansão”, um banheiro até que bastante  confortável.
          A localização não poderia ser melhor, bem no centro da cidade a meio caminho da faculdade e pertinho do curso, do Colégio Werneck, dos restaurantes, bancos, bares e cinemas. Ideal!
          Montar o apartamento foi coisa fácil, pois o locador era também dono de um bazar e de uma loja de móveis e, convenhamos, não havia tanto espaço a ser preenchido por mobiliários e similares.
          Compramos quase tudo no mesmo dia em que assinamos o contrato de locação. Coisas simples como duas camas dobráveis, um beliche, duas mesas em madeira crua de baixa qualidade com uma pequena gaveta central, três cadeiras com estofo de couro apenas no assento.
          Algumas panelas, frigideira, pratos, xícaras, copos, talheres e mais algumas bugigangas bastavam para garantir nosso conforto. 
Guarda-roupas e estante não seriam necessários comprar, pois o que o apartamento tinha de melhor era um grande armário embutido com diversas compartimentos, cabideiros, gavetas e tudo mais.
          Agora, geladeiras.  Compramos duas. Isso mesmo compramos duas...
-         É GE, uma boa marca, o preço está bom e além do mais sei que você vai casar a qualquer momento e levar a sua.
-         Você pirou de vez. Casar!
-         Apaixonado como você está...
-         Casar? Com que roupa?
-         Leleco! Você está ficando rico! Além do mais uma geladeira GE por esse preço é um bom investimento.

          Olha que já tínhamos intimidade. Fora o grupo dos “seis” era a primeira pessoa a chamar-me Leleco. Tudo bem...
          Agora que o tal Fernando era “doido” isso não se discute. Um “apertamento” com duas geladeiras... Investimento? Positivamente o cara não batia bem da cabeça, pensei com meus botões.
          No dia seguinte de nossa mudança chegou o Luiz Carlos. Grande praça, grande papo e com o passar dos dias mostrou-se ser um ótimo companheiro. As coisas estavam ficando bem melhores do que eu previa.
          Na primeira segunda-feira, todos com cara da própria, assistindo uma enfadonha aula de estatística, Fernando sussurrou ao pé de meu ouvido:
-         Hoje à noite você não dá aula, pois não?
-         Dou só a primeira aula até dez para as oito. Depois entra o Ivan que vai até o fim da noite. Mais tardar oito e meia estou em casa.
-         Então não assuma mais nenhum compromisso que vamos jantar em casa.
-         Jantar onde?
-         Em casa, porra! Vou fazer uma tremenda macarronada – arrematou Fernando cheio de convicção.
-         Verdade?
-         Claro! Vamos comemorar nossa independência de Dona Honorina...
-         Coitada da Honorina...
-         Eu, você e o Luiz Carlos. Já comprei o vinho para solenizar o momento.
-         Mas não temos nada no apartamento que se pareça com comida!
-         Quando esse Portocarreiro “cocoroca” acabar a aula maluca de "estatística" , pego meu carro e vou às “comprinhas”. Pago tudo e depois acertamos.
-         Mas você garante que cozinha bem?
-         Não tem “Aji-No-Moto” não! Meu tempero é original, de primeira
-         Quero ver esse “ragu”...
-         Mais respeito!

          - Trecho  do me livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001.







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