O ano estava mesmo para novidades.
Com o vestibular batendo às portas o negócio era ficar em casa e tentar descansar o mais possível, pois a maratona iria ser braba. Aquele verão tinha sido particularmente calorento e de muitas chuvas.
Terça-feira 16 de janeiro de 1962. Pouco depois das onze já estava na cama e tentava ler qualquer coisa. No outro quarto sob a luz forte de um abajur papai com seus óculos tipo “fundo de garrafa” lia sua “Seleções”.
Súbito senti como se tudo em minha volta caísse num vácuo. No mesmo instante um terço de Nossa Senhora com alvas contas de madrepérola que mamãe mantinha à cabeceira da cama, rolou para o chão deslizando na curva suave do espaldar roliço da cama Patente.
- Carlinhos! Sentiu?
- O quê pai?
- Tremeu tudo!
- É parece.
- Liga teu radinho e veja se a Rádio Continental vai dar alguma coisa.
- Era o que eu estava pensando fazer.
A Rádio Continental era realmente eficiente e logo transmitia as primeiras notícias. A terra tremera no Rio de Janeiro.
Nos dias que se seguiram os jornais relatavam o acontecido: a terra tremeu às 23horas 27minutos e 45 segundos. O tremor alcançou 5 graus na Escala Mercale, conforme informava o Prof. Othon Henry Leonardos, Diretor da Escola Nacional de Geologia, e teria tido seu epicentro na Serra da Carioca, mas precisamente no Parque Nacional da Tijuca.
Em entrevista ao jornal Correio da Manhã o Profesor Lélio Gama, diretor do Observatório Nacional, dizia que os bairros mais atingidos foram Tijuca, Andaraí, Grajaú e Vila Isabel. A causa provável teria sido uma acomodação de camadas subterrâneas, provavelmente devido às fortes chuvas que tinham castigado a cidade nos últimos dias.
Terremoto no Rio de Janeiro. Quem diria!...
- Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001 na Cidade de Arraial do Cabo
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