Aqueles primeiros dias de abril foram nervosos.
O anúncio colocado no jornal começava a funcionar, e mais e mais iam pessoas pedir informações sobre o curso. Em revezamento constante mantínhamos plantão para informações, e se possível fazer matrículas. Trabalho sério das 10 da manhã ate às 10 da noite.
Em geral gostavam de tudo, mas achavam “salgadas” as mensalidades
Como a tarefa era impossível de ser desempenhada apenas por nós dois, Ivan teve a idéia de convidar um colega de turma, um mineirinho de Leopoldina, o Antônio Carlos Berno. Agora éramos três para a alternância.
Certa tarde veio um casal, muito distinto, receber informações na intenção de matricular seu filho aluno do 3º Científico do Colégio Werneck.
Estranhei um olhar de espanto, de repulsa mesmo, mantida pelo casal durante toda a nossa conversa. Quanto mais eu explanava nossas intenções mais sentia reprovação do casal. Estava convicto que aquela matrícula estava perdida.
O silêncio constrangedor após sua saída deixou-me pensativo: onde errara, pensava eu. Pensei, pensei e fiquei sem resposta.
Decepcionado fui até o banheiro passar uma água fria no rosto para reanimar. Ao olhar-me no espelho, encontrei a explicação para a reação negativa do casal.
Pendurada ao pescoço se destacava uma linda e pouco discreta chupeta amarela.
Animal! Como você faz uma coisa destas! – urrei...
A explicação: até o dia 13 de maio, dia da libertação dos escravos, os calouros da engenharia eram obrigados a andar na escola ou fora dela, com uma chupeta pendurada ao pescoço e usar uma indecorosa touca amarela.
Toda vez que cruzassem com um veterano eram obrigados a cobrir a cabeça com a touca e sugar a chupeta com sofreguidão. Caso contrário poderiam ser punidos pela Comissão de Trote. Ao chegar ao curso tirara a touca, mas esquecera da chupeta.
Falha imperdoável!
A vida continuava...
O trabalho estava árduo e precisávamos de ajuda.
Decidimos, então, criar uma diretoria, com salário definido em função dos possíveis lucros do curso. Era uma forma de contar com a colaboração do Antonio Carlos sem troná-lo, no entanto, sócio.
Assim, o Diretor Geral ficou sendo o Ivan, eu, Diretor Secretário e o Antônio Carlos, Diretor Financeiro, ou melhor, usando o termo da época, Diretor Tesoureiro.
Depois de várias e desgastantes reuniões o quadro de professores ficou, provisoriamente composto: nós três, os diretores, e mais Daniel Augusto, Martiniano Lauro, Werner e Rubens.
No dia aprazado, 16 de abril, o curso começou a funcionar. Tínhamos então 8 alunos em sala, quase um aluno para cada professor.
No dia 30 de abril, feito o balanço do mês e pagas todas as contas inclusive aluguel, porcentagem do Almirante (ah! Não gosto desse cara! - pensava com os meus botões) e os salários dos professores, recebi 4.270 Cruzeiros. Como tinha aplicado 5.115, meu prejuízo foi de 845 Cruzeiros.
Melhor do que esperava...
No mês de maio eram 15 os alunos, optamos por dispensar um professor e no fim do mês recebi limpos de qualquer prejuízo 9.027 Cruzeiros.
Estávamos no caminho certo.
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001.
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