Minha primeira moradia em Petrópolis foi a pensão de Dona Honorina na subida da Rua Marechal Deodoro, o “imodestamente” denominado Hotel Alvorada.
Na placa que encimava o portão de entrada, o desenho das colunatas do novo palácio presidencial, não deixava dúvidas quanto à inspiração para o nome. Brasília ainda não completara um ano, mas tudo que lhe dizia respeito era de serventia para nomear novos empreendimentos, desde um modesto botequim até uma casa de alta-costura mais sofisticada.
Moradia de alguns veteranos como o Alfredo Laufer, o Luiz Fernando e o Francisco Aboin, o “Chico - pé-de-cana”, agora abrigaria alguns calouros: eu, o Carlos Pogrebinschi, e um tal de Fernando que viria a dividir o quarto comigo. Sua chegada, retardada por alguns dias, deixou-me num contínuo suspense. Quem seria meu companheiro neste início de jornada?
Numa “república” um pouquinho mais acima, na Aureliano Coutinho, moravam o Martiniano Lauro, o Antônio Carlos e o Jayme Camargo, todos veteranos.
Esses foram meus primeiros camaradas em Petrópolis.
Papai ajustara comigo uma mesada de vinte mil cruzeiros, pouco mais de um e meio salários-mínimos da época. Com essa quantia deveria custear as despesas com moradia, alimentação além de cobrir os custos com as mensalidades da faculdade, livros e demais despesas pessoais.
Orçamento de difícil execução.
Providências deveriam ser tomadas para que minha sobrevivência fosse garantida com segurança. Trocando em miúdos: eu teria que arranjar urgentemente um trabalho.
Qual? Onde? Em qual horário? O curso de engenharia tinha aulas pela manhã, inclusive aos sábados, em algumas tardes e ainda eventualmente à noite. Sobrava pouco tempo...
Num papo informal no bar da Universidade, o “Charles’ Bar”, soube que um tal Ivan estava a procura de um sócio disposto a enfrentar a empreitada da fundação de um curso vestibular.
- Não se metam nisso! Curso vestibular nessa cidade é “fogo na roupa” – opinou um petropolitano que participava da conversa.
- Como assim?
- Aqui já abriu e fecharam curso “as pampas”.
- Mas o nosso será diferente.
- E onde vocês vão arranjar alunos? Ninguém mais acredita.
- E onde essa turma vai estudar?
- No Rio. Descem e sobem todos os dias. Eu mesmo fiz assim e olhe que fica caro e cansativo.
- Pois então, se fizermos um negócio sério conquistaremos a confiança da garotada.
- Acho difícil, além de que vocês deverão levar em conta ainda que a turma daqui goste de “dar o beiço”.
- Ai fica complicado, mas acho que vale a pena arriscar. E o Ivan? Onde o encontro?
- Ele está no Rio. Amanhã deverá estar de volta e num intervalo entre as aulas te apresento a ele.
- Amanhã nascerá o grande curso vestibular de Petrópolis.
- Boa sorte!
- Vamos precisar.
Estas primeiras notícias não eram nada animadoras. No entanto estava disposto a apostar no negócio. Afinal já tinha alguma experiência e, querendo ou não, um aluno do meu cursinho tinha obtido o primeiro lugar no vestibular daquele janeiro.
O que mais me preocupou foi saber que a turma da cidade tinha o péssimo hábito de “dar o beiço”. Trabalhar igual a um condenado e não ver a cor do dinheiro não teria graça alguma.
Pouco dormi naquela noite. Pela cabeça as idéias se seguiam misturando cifrões, salas, cadeiras, alunos, professores, sócio, propaganda...
Será que esse Ivan é um cara sério?
Já devia passar das quatro quando dormi.
- Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001, no alvorecer do Século XXI.
- Abaixo foto de um ônibus da Única, importados dos Estados Unidos, que nos levava com todo o conforto a Petrópolis.
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