por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

'CHEIROS DA VIDA" - nº49 - SÓ FALTA RONCAR

                 

          Subia pausadamente a ladeira da Rua Marechal Deodoro com a alma em festa, agradecido a Deus pelas grandes decisões que tomara e confiante na empreitada que eu e meu sócio acabávamos de iniciar.
          Parece-me sério esse Ivan – pensava com confiança.
          Agora é chegar a casa, rascunhar algumas providências, fazer alguns cálculos. Tomar meu copinho de leite que combinara para que fosse colocado no meu quarto todas as noites, cair na cama e se possível fosse, dormir rapidamente, pois daqui para frente terei muito que fazer.
          O dia, no entanto, ainda reservava uma surpresa.
          Diferentemente do que fazia desde o primeiro dia de minha estadia na pensão, apanhei minha chave no claviculário da recepção e subi direto para meu quarto sem o papo informal com os novos amigos na sala de televisão.
          Já no corredor vi que vazava luz pela bandeira da porta de meu quarto. Havia alguém lá dentro.
          Apressei os passos.
          Não houve necessidade da chave, a porta estava apenas encostada.
-         Oi!
-         Fernando?
-         Ele.
-         José Carlos.
-         Tá arrumado isso aqui, hein?
-         A gente procura se organizar...
-         Minha cama é aquela pelo visto.
-         Você quer trocar?
-         Tudo bem! Pra mim está bom. Tem ido às aulas?
-         Desde o primeiro dia.
-         Eu me atrasei, pois estava tentando ficar pelo Rio mesmo. Mas não deu e então estou aqui.

          Enquanto trocava de roupa, Fernando continuou:
-    Os mestres têm dado a bibliografia de suas matérias?
-         Alguns sim, outros não. Para mim tanto faz, pois pelo que tenho visto os livros são caros e muitos deles importados. O Jango não vai querer gastar as divisas do país na compra de livros técnicos para estudantes elitistas. Ficarei com as apostilas e está muito bom.
-         O que você tiver de livros para comprar passa para mim que vou ao Rio e compro. As aulas são às 8?
-         Às 8.
-         Vamos junto amanhã, certo?
-         Claro.
-         Boa noite!
-         Boa!

           Protocolar nossa apresentação. Fria até.
           Antes que falasse mais alguma coisa o cara já dormia.
Tinha vindo para casa disposto a fazer um monte de cálculos, projeções e listagens de providências a tomar. Enfim começar a planejar com mais cuidado o futuro do negócio. Agora com o companheiro já dormindo não seria de bom tom manter a luz acesa.          
          Não nesse primeiro dia.
          É as coisas estavam melhores quando o quarto era só meu. Voltei ao antigo problema: um quarto só meu...
          Já deitado olhar fixo nas réguas do lambris do teto, tendo ao fundo a trilha sonora do final do filme da sessão das dez no Art-Palácio, parede colada ao nosso prédio, um turbilhão de pensamentos fazia doer minha cabeça.
          Dia cheio havia sido aquele culminando com o conhecimento de meu colega do quarto. Pensava: estranho esse cara de poucas palavras e interessado em comprar livros caros. Fala como garotão da Zona Sul, usa roupas despojadas e tem o rosto bastante castigado pela acne. 
          Só falta roncar. Se isso acontecer, mudo amanhã mesmo.
         
           - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001.
  






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