Conviviam no mesmo campus três faculdades: direito, filosofia e engenharia. De longe dava para identificar quem era quem tal a diversidade dos comportamentos.
Na engenharia circulava o jornalzinho “O Geninho” cujo símbolo era o mesmo do Diretório Acadêmico, um garotinho espevitado de calças curtas, cabeça desproporcional ao corpo, cabelos arrepiados, óculos de grossa armação, empurrando uma roda dentada e carregando no bolso uma imensa régua de cálculo.
O Geninho criou o slogan do “Charles’ Bar”: “Ou você come mal e passa bem, ou você come bem e passa mal”. Lá, nesse bar “pé-sujo”, surgiu espontaneamente o ponto de encontro da moçada, local de início das paqueras, dos “altos lances”, das definitivas amizades e dos grandes negócios.
Pois foi nesse lugar que conheci o Ivan e depois de poucas palavras o negócio estava fechado.
Os novos sócios cumprimentaram-se efusivamente, olhos nos olhos, “para o que der e vier”.
Ao fim da conversa o curso já tinha data de inauguração marcada dia 16 de abril de 1962, uma segunda-feira, faltavam apenas alguns detalhes como, por exemplo: onde funcionaria o curso?
- Leal! Existe um curso que funcionou o ano passado à Rua Marechal Deodoro, quase em frente à sua pensão e parece que este ano está desativado – disse Ivan, mal nossas mãos se separaram.
- Mais um fracassado certamente. Acho que não é um bom começo usar tal endereço.
- Não! O curso que funcionava lá era para artigo 99, nada de vestibular.
- E ai?
- E ai, não há desgaste algum.
- Então vamos saber quem é o dono para tentar uma negociação.
- O dono mora no próprio prédio num apartamento de cobertura. Parece que é um Almirante reformado e o nome dele é Iramaia.
- Nada simpático o nome do fulano, mas isso não interessa. Depois do almoço iremos lá. Certo?
- Certo.
À noite, na Chrrascaria Majórica, comemorávamos o negócio fechado e delineávamos as próximas providências.
- Vamos recapitular: teremos que pagar um aluguel de sete mil cruzeiros para ter o direito de usar as instalações todos os dias após as 6 da tarde e mais, 5% de nossa renda bruta a título de participação tendo em vista que usaremos o nome do curso Pio XXII, aliás o mesmo nome do edifício. Estas são nossas obrigações com o Almirante.
- Isso mesmo Seu Leal.
- Então já temos sala, carteiras, quadro-negro, secretaria montada. Tudo bem. E os alunos? Onde iremos buscá-los?
- Muito simples. Colocamos um anúncio na Tribuna de Petrópolis. Anúncio de 3 colunas. Coisa legal “as pampas”.
- E quanto deve custar essa pinóia?
- Também já me informei; custa outros sete mil cruzeiros para ser veiculado durante uma semana.
- Puxa! Você está informado mesmo.
- Penso em fazer este curso desde o ano passado. Faltava o sócio. Agora já tenho.
- Só um detalhe: e as despesas iniciais?
- Meio a meio.
- 50% para cada um. Fechado!
Lá se vai minha mesada, pensei comigo.
- Techo de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001.
EM TEMPO - Como em Petrópolis, nos meses de aulas, fazia muito frio era comum que os alunos usassem as tradicionais "japonas" de lã.
Todos os alunos da Engenharia usavam em seus bolsos à altura do peito, orgulhosos, o bordado delicado do "Geninho", nosso querido símbolo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário