por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 16 de outubro de 2012

'CHEIROS DA VIDA" - Nº 47 - LÁ SE VAI MINHA MESADA ...

          

          Conviviam no mesmo campus três faculdades: direito, filosofia e engenharia. De longe dava para identificar quem era quem tal a diversidade dos comportamentos.
          Na engenharia circulava o jornalzinho “O Geninho” cujo símbolo era o mesmo do Diretório Acadêmico, um garotinho espevitado de calças curtas, cabeça desproporcional ao corpo, cabelos arrepiados, óculos de grossa armação, empurrando uma roda dentada e carregando no bolso uma imensa régua de cálculo.
          O Geninho criou o slogan do “Charles’ Bar”: “Ou você come mal e passa bem, ou você come bem e passa mal”. Lá, nesse bar “pé-sujo”, surgiu espontaneamente o ponto de encontro da moçada, local de início das paqueras, dos “altos lances”, das definitivas amizades e dos grandes negócios.
          Pois foi nesse lugar que conheci o Ivan e depois de poucas palavras o negócio estava fechado.
          Os novos sócios cumprimentaram-se efusivamente, olhos nos olhos, “para o que der e vier”.
          Ao fim da conversa o curso já tinha data de inauguração marcada dia 16 de abril de 1962, uma segunda-feira, faltavam apenas alguns detalhes como, por exemplo: onde funcionaria o curso?
-         Leal! Existe um curso que funcionou o ano passado à Rua Marechal Deodoro, quase em frente à sua pensão e parece que este ano está desativado – disse Ivan, mal nossas mãos se separaram.
-         Mais um fracassado certamente. Acho que não é um bom começo usar tal endereço.
-         Não! O curso que funcionava lá era para artigo 99, nada de vestibular.
-         E ai?
-         E ai, não há desgaste algum.
-         Então vamos saber quem é o dono para tentar uma negociação.
-         O dono mora no próprio prédio num apartamento de cobertura. Parece que é um Almirante reformado e o nome dele é Iramaia.
-         Nada simpático o nome do fulano, mas isso não interessa. Depois do almoço iremos lá. Certo?
-         Certo.

         À noite, na Chrrascaria Majórica, comemorávamos o negócio fechado e delineávamos as próximas providências.
-         Vamos recapitular: teremos que pagar um aluguel de sete mil cruzeiros para ter o direito de usar as instalações todos os dias após as 6 da tarde e mais,  5% de nossa renda bruta a título de participação tendo em vista que usaremos o nome do curso Pio XXII, aliás o mesmo nome do edifício. Estas são nossas obrigações com o Almirante.
-         Isso mesmo Seu Leal.
-         Então já temos sala, carteiras, quadro-negro, secretaria montada. Tudo bem. E os alunos? Onde iremos buscá-los?
-         Muito simples. Colocamos um anúncio na Tribuna de Petrópolis. Anúncio de 3 colunas. Coisa legal “as pampas”.
-         E quanto deve custar essa pinóia?
-         Também já me informei; custa outros sete mil cruzeiros para ser veiculado durante uma semana.
-         Puxa! Você está informado mesmo.
-         Penso em fazer este curso desde o ano passado. Faltava o sócio. Agora já tenho.
-         Só um detalhe: e as despesas iniciais?
-         Meio a meio.
-         50% para cada um. Fechado!         

          Lá se vai minha mesada, pensei comigo.



          - Techo de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001.

          EM TEMPO -  Como em Petrópolis, nos meses de aulas,  fazia muito frio era comum que os alunos usassem as tradicionais "japonas" de lã.
       
          Todos os alunos da Engenharia usavam em seus bolsos à altura do peito, orgulhosos, o bordado delicado do "Geninho", nosso querido símbolo.


                                                 O 'Geninho"- CRIADO EM 1962

                                                         

Nenhum comentário:

Postar um comentário