por José Carlos Coelho Leal

sábado, 13 de outubro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 45 - O CABOCLO TUPINAMBÁ

                            
          Para o senhor tudo bem. Fosse para outro patrão eu não estaria dirigindo, ainda mais num dia como hoje e nessa “serra braba” cheia de cerração. Não estaria mesmo!
-         Qual é a história?
-         Isso mesmo. Para o senhor, seu César, faço qualquer negócio.
-         Pedro! Você está ficando maluco?
-         Hoje é sexta-feira. O senhor sabe o que acontece nas sextas-feiras depois da meia–noite?
-         Sei lá!
-         Gato voa. Não gosto destas coisas.
-         Como é?
-         Gato voa! Gato voa e muito mais coisa acontece. É muito arriscado andar por aí “dando sopa”.

          Até que o jipe do papai, com tração nas quatro rodas, havia se comportado muito bem na longa maratona em que se transformaram aqueles últimos 15 dias.
          Felizmente compensara.
          Naquela noite estava voltando para o Rio depois de prestar a última prova no vestibular para a Faculdade de Engenharia Industrial da Universidade Católica de Petrópolis.
          Nacional, Fluminense e Petrópolis foram as escolas para as quais prestara provas ao longo daquela extenuante quinzena.
         Tudo correra bem. Já com a aprovação garantida, antes de iniciar o retorno ao Rio, jantamos na Churrascaria Majórica, papai, Pedro e eu; figurinha difícil nosso motorista Pedro. Depois do suculento filé, a volta para casa e o insólito espetáculo das crendices de Pedro.
-         Minha sorte é que estou protegido pelo meu “caboclo”. Ele me protege; cuida de mim dia e noite.
-         Quem é esse bendito “caboclo”. Onde está que eu não vejo?
-         Aqui no meu bolso, seu César.
-         No bolso?
-         Vou mostrar para o senhor.

          Dirigindo com cuidado com uma só das mãos, Pedro retirou do bolso do blusão junto ao coração um cartão colorido protegido por um inviolável protetor de plástico.
-         Aqui esta ele, meu caboclo Tupinambá.
-         Quero ver – disse papai ajeitando seus grossos óculos com lentes de “fundo de garrafa”.

          Ato continuo Pedro estendeu o braço para ligar a luz interna do jipe enquanto oferecia o valioso troféu para apreciação de papai.
           O jipe saltitava serra a baixo bem devagar.
Pedro aguardava ansioso.
Papai aproximou-se da luz, forçou a vista como fazia habitualmente, fruto de sua miopia excessiva.
Não resistiu a um sorriso maroto que eu bem conhecia.
-         Carlinhos! Dá uma olhada.
-         Deixa-me  ver.
-         O que você acha?
-         Bem...
-         Qual é o problema? – indagou Pedro demonstrando certa apreensão.

          Na verdade o famoso caboclo Tupinambá, conforme mostrava a imagem no santinho, não oferecia uma aparência muito máscula.
          Quase nu encostado languidamente ao troco de uma árvore secular, braços para cima mostrando uma pele desprovida de pelos e de aparência aveludada definitivamente deixava dúvidas...
          Pedro não estava gostando nada da nossa reação. Diminuiu ainda mais a marcha do “possante”.
-         O problema! Você quer saber mesmo qual é o problema?
-         Claro!
-         Esse seu caboclo Tupinambá é um tremendo veado!

          Agora o jipe parou de todo.
-         O senhor não diga isso. O caboclo não vai gostar.
-         Que posso fazer? Teu caboclo é veado e pronto.
-         Não diga isso, por favor!
-         É veado.
-         Carlinhos pede para seu pai não dizer isso. O caboclo pode se zangar e virar esse jipe. Não vai se salvar ninguém.
-         Pedro...
-         O Carlinhos não tem nada com isso. Esta feliz com o ingresso na faculdade e você não vai estragar a festa dele só por causa de um caboclo que é veado.
-         Não dirijo mais. Vou pedir demissão.

          Estava criado o impasse. Papai fora longe demais na gozação com o Pedro.
          O crente estava apavorado.
-         Deixa de palhaçada e vamos em frente.
-         O senhor ofendeu meu “protetor”.
-         Teu “protetor” é veado – insistiu papai.
-         Não diga isso!
-         Toca essa “geringonça”.

          Passaram-se alguns minutos. Continuava o impasse.
          Finalmente o silêncio foi cortado.
          -  Fui eu quem chamou teu caboclo de veado. Se acontecer alguma coisa será só comigo.
          -   Ele está aborrecido...
-         Você não tem nada com isso, pois está até defendendo teu padrinho. Aliás uma bichona arretada...
-         Não vou mais dirigir.
-         Vai dirigir sim senhor. Não estou nem mais chamando teu caboclo de veado, estou chamando de padrinho...
-         Legal! Vou levar o carro até sua casa para não estragar a festa do Carlinhos. Mas amanhã peço demissão.
-         Amanhã é Sábado. Você não trabalha.
-         Vamos ver.

          Papai virou-se para trás e num jeito característico seu, protegendo seu gesto da visão de Pedro, levantou o polegar fazendo sinal de positivo.
          A viagem seguiu finalmente. Lenta e cheia de cuidados.
          Chegamos à casa perto das duas da manhã.
-         Pedro entra aí para fazer um lanche com o César e o Carlinhos – disse mamãe saudando aliviada nossa tardia chegada.
-         Não quero não senhora. Seu César ofendeu meu caboclo. Amanhã não trabalho mais para ele.
-         Amanhã não, hoje. E o hoje é sábado. Você não trabalha – retorquiu papai sempre com ar de zombeteiro.
-         Toma pelo menos um copinho d´água.
-         Não faça isso Dona Tininha! Deixa a água quieta no filtro. Sexta-feira depois da meia noite a água dorme e se for acordada fará mal. A senhora pode até morrer!

          Incorrigível nosso Pedro e suas inúmeras crendices.
          Segunda pela manhã estava a postos para levar papai ao trabalho.
          Não se falou mais em caboclos, em gatos que voam águas que dormem e em demissões.
          Anos mais tarde Pedro todo enfatiotado, num Aero-Willys luxuoso, levando minha noiva até a igreja no dia do casamento.
          Muita saudade do seu César gozador... Nesses dias em que estava feliz era insuperável.
          Muita saudade, muita saudade, muita saudade.
         
          -  Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001 na Cidade de Arraial do Cabo,


           Abaixo foto do prédio central da Universidade Católica de Petrópolis - UCP ,com seu relogio de sol em funcionamento.



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