por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº55 - MAIS TRABALHO



-         Leal! Não agüento mais essa tal de Dona Honorina!
-         Calma!
-         Esse negócio de morar em pensão “está bagunçando o meu coreto” – disse Fernando decidido a tomar alguma providência.
-         Eu como chego tarde e cansado, só faço mesmo é tomar banho e dormir. Não está dando tempo nem para pensar.
-         Você não viu o caso que ela criou com o Carlos só porque o cara é judeu e tinha que cumprir o que manda a sua religião; pediu uma alimentação especial. A mulher ficou uma fera... Era só um dia...
-         O negócio dela é ganhar dinheiro.
-         E os nossos vizinhos de cima o Alfredo e o Chico. Volta e meia, madrugada já alta, quase saem na porrada.

          Nossos vizinhos de cima eram o Alfredo Laufer, o Luiz Fernando e o Francisco Aboin, vulgo Chico “pé de cana”.
          Chico era um inveterado boêmio ao contrário do Alfredo que poderia ser chamado, sem ofensa de cê-dê-efe; felizmente não era um chato como de maneira geral eram todos os cê-dê-efes.
          Alfredo estudava muito, Chico, nem tanto.
          A cena se repetia com certa freqüência: véspera de prova, madrugada já querendo amadurecer, Alfredo dormia o sono dos justos. Chico chegava, para variar meio “alto” e despertava o amigo e implorava uma panorâmica da prova do dia seguinte.
          Depois de muito bate-boca e muito xingamento, Alfredo resolvia ensinar ao malandro.
          Dias depois viria o resultado da prova. Era muito comum o Chico tirar melhor nota que o Alfredo. Aí novo arranca-rabo noite adentro para desespero do Fernando.
          Por essas e outras, o cara estava mesmo decidido a mudar.

-         Comprei o jornal da terra marquei alguns apartamentos e se você topar iremos vê-los, escolher o melhor e alugá-lo.
-         E onde eu vou achar tempo para isso?
-         É rapidinho...
-         E o dinheiro?
-         “Você está com tudo e não esta prosa...”. Dono de Curso... Deixa de ser pão-duro.
-         Não é bem assim...
-         É capaz até de ficar mais barato que esta pensão e, afinal, teremos a liberdade até para levar umas menininhas para nos fazer companhia. Liberdade, privacidade e conforto para dois pobres estudantes perdidos na “serra”.
-         Não custa tentar...
-         Pensei também em convidar mais um colega para dividir as despesas. Já falei com o Luiz Carlos e ele topa. Só falta você concordar.
-         Por mim, tudo bem. Se você conhece o cara vale a pena tentar...Ah! E os móveis? Teremos que providenciar.
-         Deixa comigo que tudo vai se arranjar.
-         Mudando de assunto, alguém procurou por mim?
-         O Martiniano Lauro. Disse que estão procurando um professor de matemática para o Colégio Werneck. Indicou você.

          A semana não terminaria sem que tivéssemos mudado e eu assumisse a cadeira de matemática do Primeiro Científico do Instituto Werneck.
          Mais trabalho...
          Antes de esquecer! Meu novo endereço: Av. XV de Novembro (atual Avenida do Imperador), 970 apto. 504 – Bloco B, pelo menos ao correr daqueles próximos anos...


         - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito ao longo do ano de 2001 na Cidade de Arraial do Cabo.




EXTRA - PARA OS QUE CHEGARAM AGORA!


O PORQUÊ DESTE BLOG

 (Apresentação deste blog em março de 2012)

Aposentei-me na Prefeitura em janeiro de 1992.

Nosso ambiente de trabalho, neste final de carreira,  era bastante diferente daquele do inicio, na antiga SURSAN, no meado dos anos sessenta.

Decidi parar no Serviço Público e, continuar meu trabalho, agora,  em uma empresa de consultoria de grandes amigos, a minha querida SERPEN.

Apesar de dar sequência a minha carreira de engenheiro , consegui conciliar o tempo e comecei a escrever meu primeiro livro.

As coisas andaram bem até estar próximo a sua edição e publicação.

Um, acidente de percurso desagradável fez-me perder o original, já revisto, e de súbito, fiquei órfão de meus originais bem  como das  fotografias legendadas.

Tudo isso aconteceu entre os anos 1997 e 1998.

Comecei, então, uma tarefa de recuperação de meus arquivos, alguns infelizmente perdidos para sempre devido aos, na época, modernos disquetes corrompidos.

Jamais consegui recuperar todo o material escrito.

Certo dia conversando altas horas da noite com minha neta Gabriela fui instado a  confeccionar um "blog" usando o material original recuperado mesmo sem revisão. Tal qual saiu do computador ao primeiro impuso de escrever.

Pensei um tanto tempo e resolvi iniciar essa tarefa.

É isso que começo a mostrar neste "blog" .

Espero não estar importunando meus amigos.

É uma catarse que já conheço e faz bem a minha alma.

Se for possível, me aturem!!!

Lá vamos nós...

Um abraço a todos / Março de 2012 / Zé Karlos

Em tempo: o livro "Cheiro de Verão" já foi publicado neste blog. Estamos agora no segundo livro "Cheiros da Vida", este, escrito em 2001 quando da minha permanência (foram nove anos de repouso para um guerreiro) na traquila Arraial do Cabo.

domingo, 28 de outubro de 2012

EXTRA - MAIS UM POEMA DE MINHA NETA GABRIELA

domingo, julho 24, 2011

Paçoca despedaçada

Pode o amor acabar de repente
Pode o rio acabar em enchente
E eu posso até morrer sem nada
Mas o que me entristece é ver minha paçoca despedaçada.

Pode a porca torcer o rabo
Dizerem até que é coisa do diabo
E me obrigarem a sorrir forçada
Mas o maior desespero está na paçoca despedaçada.

Que o chão suba aos ares
Que sequem rios e mares
Que a bomba seja lançada
Mas o que me apavora é a minha paçoca despedaçada.

Alguns falam que eu faço drama
outros entendem que é só o que minh'alma clama
Mesmo assim, compro jujubas - desencantada-
Mas não esqueço da minha paçoca desperdiçada.

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 54 - SÓ NÓS DOIS NO MUNDO

              
       Estava chegando finalmente o dia da “libertação”.
          A partir do Baile dos Calouros chupetas e toucas seriam finalmente arquivadas; a minha touca, para sempre, pois a tenho guardada com muito carinho.
          Na verdade o trote transcorreu em calma; apenas um calouro transgrediu as normas impostas. Foi o Bill.
          Assim aconteceu a coisa: premeditadamente, nosso herói, por mais de uma vez, negou-se a usar a chupeta na presença de um veterano.
          Levado a julgamento público pela comissão de trote, depois de um longo e impagável interrogatório, com direito inclusive à defesa dos porquês de seu tresloucado ato, foi condenado.
          A sentença foi cumprida logo em seguida em ato solene do alto da escadaria que encimava o relógio de sol que até hoje orna o frontispício do prédio da Universidade.
          Seu cabelo foi rapado a zero. O careca ainda teve a ousadia de desafiar seus algozes:
-         Não há problema. Amanhã estarei de volta com meus cabelos devidamente crescidos. Em poucas horas tenho capacidade de recuperá-los.

          Com efeito, no fim da manhã do dia seguinte aparecia o nosso Bill com os cabelos intatos, devidamente penteados.
-         É peruca!
-         Não é.
-         É!
-         Podem examinar a vontade, puxar, torcer...
-         É cabelo mesmo!
-         Eu não disse que crescia em menos de 2 horas. Vocês são uns “patos”.

          O feitiço se virara contra o feiticeiro.
          Logo descobriram a farsa. Não era o Bill e sim o Bel seu irmão gêmeo. Tudo tinha sido feito com o propósito de achincalhar os veteranos que, obviamente, ficaram com a “cara no chão”.
          Pensaram até em dar uns cascudos no farsante, mas já era tarde; ele se mandara de carona para o Rio.
          A propósito: Bill era o Alcebíades Gomes Leite de Carvalho que anos mais tarde se formaria junto comigo na U.E.G. atual U.E.R.J..
          Valeu!
          Mas chegou finalmente o dia da libertação.
          Aquela sexta-feira 12 de maio foi um dia saboroso.     
          Degustei-o com muito contentamento. Eram duas conquistas que deveriam ser comemoradas a pouco e pouco: a possibilidade de ter, junto a mim, por várias horas o amor de minha vida e, a incrível sensação de que meu destino, finalmente, tomava um rumo definitivo.
          O Clube Petropolitano com seus jardins orvalhados, a música dançante, às vezes agitada ou quase sempre romântica, o frio da madrugada na serra que fazia com que os casais mais e mais se aconchegassem criara o clima ideal para uma noite perfeita.
          Passava das quatro da manhã quando deixávamos Petrópolis a bordo do DKW da Tité que, em ocasiões muito especiais, o emprestava sem disfarçar uma preocupação que só teria fim com o retorno do “bólido” a casa e depois de minuciosa vistoria; em caso de chuva o carro deveria ser cuidadosamente seco antes de recolher-se ao seu merecido repouso na garagem.
         Na frente iam o Carlos Alberto, nosso motorista de luxo e Dona Nice cabeça pendida para o lado num profundo sono. No banco de trás, eu e Tania. Juntinhos, abraçados em carícias há muito desejadas.
         Só nós dois no mundo...
         O sol já nascera fazia tempo quando cheguei a casa.
         Súbito, à volta à realidade. Nada de descansar no sábado e domingo, pois havia muito trabalho pela frente: atualizar as contas do curso, preparar algumas aulas, datilografar estênceis para confecção de apostilas e, se sobrar tempo, estudar um pouco as matérias da faculdade acumuladas pela falta de tempo no decorrer da semana que passara.
          Assim seriam passados quase todos os domingos daí para frente, pelo menos nos próximos três anos.
   
          - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito ao longo do ano de 2001 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

'CHEIROS DA VIDA" - Nº 53 - 2001, O ANO QUE NÃO VAI TERMINAR...



          De duas uma, ou eu, ou o mundo está “ruim da cachola”. Ouvia muito isso quando criança, “... para fazer uma bobagem desse tamanho, deves estar muito ruim da cachola!”, alertava minha mãe paciência já quase findando.
          Acho que é o mundo “ruim da cachola” que está me deixando, igualmente, com a “cachola chué”.
          Mais alguns dias é já lá se vai o primeiro ano do Século XXI.
          A esperança de algo novo para humanidade que habitou nossos pensamentos nos primeiros dias, desapareceu igualzinho como acontece com as areias finas da Praia dos Anjos escoando por entre os dedos levadas pelo vento.
          Dizem certos intelectuais: “um ano que valeu por dez”.
          Depois de 11 de setembro este ano entrará, certamente, na galeria dos anos que não terminam.
          O terrorismo, a violência gratuita, a insensibilidade dos poderosos, a fragilidade dos organismos internacionais, todos esses fatos constatados crescentemente no dia-a-dia minam nossas expectativas criando sem sentir um vazio em nossa alma, amargo, cético, doentio.
          Neste ano, quase extinto, mais de 700 pessoas morreram em El Salvador vítimas de um terremoto que atingiu 7,6 graus nas escala Richter.
          Por causa da “vaca louca” quase 200 mil bovinos, caprinos e suínos foram sacrificados na Inglaterra abrindo mais uma selvagem guerra comercial. Em decorrência o Canadá parar defender a sua indústria aeronáutica, em eterna luta com a brasileira Embraer, suspendeu a importação de carne brasileira, mentirosamente suspeita de também estar contaminada.
          Enquanto a ciência descobre que apenas 1,5% dos genes humanos se diferenciam dos genes dos macacos, o jornalista Edwin Blanck revela que a empresa americana IBM pôs sua tecnologia de classificação de dados a serviço do Holocausto.
          No Brasil a maior plataforma de petróleo do mundo, a P-36, vai para o fundo do mar causando um prejuízo de pelo menos 1 bilhão de Reais e matando onze operadores.
          O traficante brasileiro Fernandinho Beira-Mar é preso na Colômbia repetindo denuncias envolvendo juizes, policiais e parlamentares brasileiros no esquema de corrupção.
          Enquanto o brasileiro Hélio Castro Neves ganhava as 500 milhas de Indianápolis e virava celebridade nos EUA, eu fico internado 3 dias no Hospital Santa Helena de Cabo Frio, vítima de uma tremenda intoxicação provavelmente causada pelo verniz com que foram pintadas as janelas de meu escritório de Arraial. Minha pressão chegou a 7 por 4 e tive a nítida sensação que partia para o além...
          Em 7 de outubro, menos de um mês depois dos atentados no EUA, os americanos, apoiados pelos britânicos, começam a bombardear o Afeganistão em busca de Osama Bin Laden e de sua organização terrorista, a AL-Qaeda.
          Para terminar, esta semana FHC critica o congresso norte-americano por aprovar mecanismo de proteção da economia da nação mais rica do mundo contra produtos estrangeiros, o “fast track”. Ele dá sinais de que o Brasil poderá não aderir à Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).
         O ano vai terminando com a atriz estreante Mel Lisboa esbanjando sensualidade na minissérie de televisão “Presença de Anita” e com a brasileirinha Daniele Hypólito ganhando a medalha de prata no Mundial e, a de ouro, no torneio internacional de Marselha constituindo os melhores resultados da ginástica olímpica do Brasil em todos os tempos.

          - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo já ao final do primeiro ano de Século XXI

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 52- OLHA O RELOGINHO!!!

                     


       Tão envolvido estava nas minhas tarefas de universitário, professor e, sem empáfia, empresário que esqueci que o mundo continuava a girar e as coisas não deixavam de acontecer.
          Depois do papelão de Jânio, o país mergulhara numa tremenda crise e a solução dada foi uma “velha conhecida”: “tapar o sol com uma peneira” como sabiamente dizia Dona Tininha.
           Criaram, então, um parlamentarismo híbrido, forma de evitar a entrega do poder pleno a João Goulart, o Jango. “O presidente está de mãos atadas”, protestavam seus partidários.  
          Daí para frente, governar significava um complicado malabarismo político. Na verdade deram-lhe um crédito de confiança limitado que devia ser renegociado diante de cada iniciativa do governo.
          Em contrapartida o populismo de Jango recebia apoio decisivo dos sindicatos, das organizações de esquerda e dos políticos ditos “nacionalistas” todos ávidos de reformas sociais, algumas, ou quase todas, de tendências bastante duvidosas e de poder.
          Enquanto estava envolvido com chupetas, toucas e matrículas, o país vivia uma crise, primeira de muitas outras, cada vez mais graves que se sucederiam até 31 de março de 1964.
          O primeiro-ministro Tancredo Neves (sempre perto do poder) prometia renunciar para concorrer às eleições para governador de Minas que se realizariam em outubro daquele ano.
Jango indica então San Tiago Dantas para novo primeiro-ministro.           
          Até então ministro das Relações Exteriores, Dantas atraíra a oposição dos conservadores e moderados tendo em vista sua férrea defesa de uma política externa não alinhada com os Estados Unidos e francamente aberta às nações socialistas.
           O Congresso impôs o veto ao candidato. Seguiram-se dias tensos, com as Forças Armadas de prontidão e uma greve geral de 24 horas de cunho sindicalista.
          A solução foi a escolha de Brochado da Rocha, do PSD gaúcho, que imediatamente lançou-se na luta pela antecipação do plebiscito popular sobre a permanência, ou não, do regime parlamentarista, originalmente marcado para 1965 ao final do governo de Jango.
           Novas divergências sobre a forma de realização do plebiscito, nova crise, renúncia do Gabinete de Brochado e posse de novo primeiro-ministro, o terceiro e derradeiro, o socialista Hermes Lima
           O plebiscito foi marcado para 6 de janeiro de 1963. O país viveu então dias de aparente trégua e o parlamentarismo “à brasileira” estava com seus dias contados.
           Para ser sincero só tomava conhecimento destes fatos quando nos fins de semana ao encontrar-me com Tania para alguns poucos instantes de amor e calma era interrompido pelo Sr. Mário, meu futuro sogro.
-         Leal! Esse Jango vai levar esse país à desgraça.
-         Talvez não, seu Mário.
-         Lacaios da União Soviética. É isso que eles pretendem nos transformar. República Sindicalista...
-         Não é bem assim. O Brasil não é qualquer republiqueta do Caribe e no momento certo irá reagir.
-         Já peguei em armas uma vez contra Getúlio e, apesar de minha idade pego de novo contra esses pelegos.
-         Isso não vai ser necessário...
-         Vai sim senhor. Tenho pena de vocês e de seus futuros filhos.

          Quando, finalmente, Sr. Mário se dava por satisfeito pelo extravasamento de toda sua indignação e se retirava, finalmente podíamos namorar.
          Infelizmente, não por muito tempo.
          O relógio da copa acabara de soar dez badaladas. Quase que simultaneamente “alguém” aparecia na porta da sala e:
-         Leal! Olha o reloginho!
-         Já sei Dona Nice. Já estou indo...
-         Boa Noite! Lembranças para Dona Tininha.

          Olha o reloginho! Cantilena, já minha conhecida e que ainda iria ouvir por certo tempo...
 
          -  Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001.





domingo, 21 de outubro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 51 - A TOUCA E A CHUPETA

                  
          Aqueles primeiros dias de abril foram nervosos.
          O anúncio colocado no jornal começava a funcionar, e mais e mais iam pessoas pedir informações sobre o curso. Em revezamento constante mantínhamos plantão para informações, e se possível fazer matrículas. Trabalho sério das 10 da manhã ate às 10 da noite.
           Em geral gostavam de tudo, mas achavam “salgadas” as mensalidades
          Como a tarefa era impossível de ser desempenhada apenas por nós dois, Ivan teve a idéia de convidar um colega de turma, um mineirinho de Leopoldina, o Antônio Carlos Berno. Agora éramos três para a alternância.
          Certa tarde veio um casal, muito distinto, receber informações na intenção de matricular seu filho aluno do 3º Científico do Colégio Werneck.
          Estranhei um olhar de espanto, de repulsa mesmo, mantida pelo casal durante toda a nossa conversa. Quanto mais eu explanava nossas intenções mais sentia reprovação do casal. Estava convicto que aquela matrícula estava perdida.
          O silêncio constrangedor após sua saída deixou-me pensativo: onde errara, pensava eu. Pensei, pensei e fiquei sem resposta.
          Decepcionado fui até o banheiro passar uma água fria no rosto para reanimar. Ao olhar-me no espelho, encontrei a explicação para a reação negativa do casal.
          Pendurada ao pescoço se destacava uma linda e pouco discreta chupeta amarela.
          Animal! Como você faz uma coisa destas! – urrei...
          A explicação: até o dia 13 de maio, dia da libertação dos escravos, os calouros da engenharia eram obrigados a andar na escola ou fora dela, com uma chupeta pendurada ao pescoço e usar uma indecorosa touca amarela.
          Toda vez que cruzassem com um veterano eram obrigados a cobrir a cabeça com a touca e sugar a chupeta com sofreguidão. Caso contrário poderiam ser punidos pela Comissão de Trote. Ao chegar ao curso tirara a touca, mas esquecera da chupeta.
          Falha imperdoável!
          A vida continuava...
          O trabalho estava árduo e precisávamos de ajuda.
          Decidimos, então, criar uma diretoria, com salário definido em função dos possíveis lucros do curso. Era uma forma de contar com a colaboração do Antonio Carlos sem troná-lo, no entanto, sócio.
            Assim, o Diretor Geral ficou sendo o Ivan, eu, Diretor Secretário e o Antônio Carlos, Diretor Financeiro, ou melhor, usando o termo da época, Diretor Tesoureiro.
           Depois de várias e desgastantes reuniões o quadro de professores ficou, provisoriamente composto: nós três, os diretores, e mais Daniel Augusto, Martiniano Lauro, Werner e Rubens.
          No dia aprazado, 16 de abril, o curso começou a funcionar. Tínhamos então 8 alunos em sala, quase um aluno para cada professor.
          No dia 30 de abril, feito o balanço do mês e pagas todas as contas inclusive aluguel, porcentagem do Almirante (ah! Não gosto desse cara! - pensava com os meus botões) e os salários dos professores, recebi 4.270 Cruzeiros. Como tinha aplicado 5.115, meu prejuízo foi de 845 Cruzeiros.
          Melhor do que esperava...
          No mês de maio eram 15 os alunos, optamos por dispensar um professor e no fim do mês recebi limpos de qualquer prejuízo 9.027 Cruzeiros.
          Estávamos no caminho certo.

         - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001.


















sábado, 20 de outubro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 50 - A FAMÍLIA SABÓIA E SILVA

           

          
           O nome dele: Luiz José Sabóia e Silva. Aluno emérito do cursinho da casa de Dona Tininha. Classificado em primeiro lugar no vestibular de 1962.
          A bem da verdade o mérito era todo dele, brilhante aluno e dono uma simplicidade marcante que não bastava, no entanto, para esconder uma inteligência privilegiada.
           Seja como for Sabóia tornara-se meu amigo desde a Tijuca e, agora como colegas de faculdade nossos laços de amizade tenderiam fatalmente a apertarem-se.
          Sua família morava simultaneamente no Rio e em Petrópolis, onde Dr. Luis, seu pai, era engenheiro da Fábrica de Papel. Os fins de semana passavam em sua bela casa à rua Dr. Pereira dos Santos,  antiga Rua Anadia, juntinho à Praça Saens Peña.
          Considerando esse fato e a incomensurável boa vontade do Dr. Luis, minha carona nas segundas-feiras estava garantida e, pontualmente às 6 da manhã, partíamos para mais uma semana de labutas.
          No entanto havia em detalhe...
          O detalhe: o carro do Dr. Luis era um “Dauphine”, orgulho da indústria brasileira de então. Um carrinho compacto que na publicidade das revistas e da televisão aparecia saltando, com as rodas no ar e salientando os “40 HP de emoção”.
          Começou a fazer sucesso e agradar ao público. Mas não tinha no espaço interno e principalmente na durabilidade, seus pontos altos: logo ganhou, por ser frágil, o apelido de uma marca de leite em pó solúvel dos anos 60, o leite Glória. O slogan do produto, agora estendido pelo público ao “Dauphine” era: “Desmancha sem bater”...
          Pois neste carro seguíamos serra acima, cinco pessoas mais bagagem à farta. Valente o carro nunca falhou e assim, comecei a fazer preciosas amizades: Sabóia, seu pai, Dr. Luiz, Dona Léa, sua mãe e a irmã Luiza.
          Sem saber começava a ficar envolvido pelo acolhimento carinhoso daquela família e, sem modéstia, acho também que os cativara desde o primeiro dia de nosso encontro.
         Todas estas pessoas foram de suma importância em minha vida, principalmente durante os anos vividos em Petrópolis.
          No meu coração os guardarei para sempre.

          - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito na Cidade de Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001.



sexta-feira, 19 de outubro de 2012

'CHEIROS DA VIDA" - nº49 - SÓ FALTA RONCAR

                 

          Subia pausadamente a ladeira da Rua Marechal Deodoro com a alma em festa, agradecido a Deus pelas grandes decisões que tomara e confiante na empreitada que eu e meu sócio acabávamos de iniciar.
          Parece-me sério esse Ivan – pensava com confiança.
          Agora é chegar a casa, rascunhar algumas providências, fazer alguns cálculos. Tomar meu copinho de leite que combinara para que fosse colocado no meu quarto todas as noites, cair na cama e se possível fosse, dormir rapidamente, pois daqui para frente terei muito que fazer.
          O dia, no entanto, ainda reservava uma surpresa.
          Diferentemente do que fazia desde o primeiro dia de minha estadia na pensão, apanhei minha chave no claviculário da recepção e subi direto para meu quarto sem o papo informal com os novos amigos na sala de televisão.
          Já no corredor vi que vazava luz pela bandeira da porta de meu quarto. Havia alguém lá dentro.
          Apressei os passos.
          Não houve necessidade da chave, a porta estava apenas encostada.
-         Oi!
-         Fernando?
-         Ele.
-         José Carlos.
-         Tá arrumado isso aqui, hein?
-         A gente procura se organizar...
-         Minha cama é aquela pelo visto.
-         Você quer trocar?
-         Tudo bem! Pra mim está bom. Tem ido às aulas?
-         Desde o primeiro dia.
-         Eu me atrasei, pois estava tentando ficar pelo Rio mesmo. Mas não deu e então estou aqui.

          Enquanto trocava de roupa, Fernando continuou:
-    Os mestres têm dado a bibliografia de suas matérias?
-         Alguns sim, outros não. Para mim tanto faz, pois pelo que tenho visto os livros são caros e muitos deles importados. O Jango não vai querer gastar as divisas do país na compra de livros técnicos para estudantes elitistas. Ficarei com as apostilas e está muito bom.
-         O que você tiver de livros para comprar passa para mim que vou ao Rio e compro. As aulas são às 8?
-         Às 8.
-         Vamos junto amanhã, certo?
-         Claro.
-         Boa noite!
-         Boa!

           Protocolar nossa apresentação. Fria até.
           Antes que falasse mais alguma coisa o cara já dormia.
Tinha vindo para casa disposto a fazer um monte de cálculos, projeções e listagens de providências a tomar. Enfim começar a planejar com mais cuidado o futuro do negócio. Agora com o companheiro já dormindo não seria de bom tom manter a luz acesa.          
          Não nesse primeiro dia.
          É as coisas estavam melhores quando o quarto era só meu. Voltei ao antigo problema: um quarto só meu...
          Já deitado olhar fixo nas réguas do lambris do teto, tendo ao fundo a trilha sonora do final do filme da sessão das dez no Art-Palácio, parede colada ao nosso prédio, um turbilhão de pensamentos fazia doer minha cabeça.
          Dia cheio havia sido aquele culminando com o conhecimento de meu colega do quarto. Pensava: estranho esse cara de poucas palavras e interessado em comprar livros caros. Fala como garotão da Zona Sul, usa roupas despojadas e tem o rosto bastante castigado pela acne. 
          Só falta roncar. Se isso acontecer, mudo amanhã mesmo.
         
           - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001.
  






quarta-feira, 17 de outubro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 48 - A GLOBALIZAÇÃO

                              
       Vai chegando ao fim o primeiro ano do Século XXI.
          A esperança de um mundo melhor logo esvaeceu.
          A tragédia americana continuou a repercutir pelo mundo: medo do antraz, a estúpida guerra contra o Afeganistão, a caça maluca a Osama Bin Laden, a contínua matança entre israelenses e palestinos e o Brasil seguindo a sina de continuar sendo o eterno ignorado pela atenção mundial.
          Os “generais de gabinete” já deram nome para a crise apelidando-a de “Conflito pós-moderno”
          Momentaneamente a opinião pública preocupa-se com os destinos de Cabul, Kondoz e Kandahar, como já se preocupou com Kosovo, Chechenia e similares, não se falando da esquecida África e  os dramas da Somália, Sudão, Angola e por ai vai...
          O fim dessas histórias são mais conhecidos que o desfecho dos antigos filmes de “bang-bang”, quando o bandido morria no fim, apenas como uma pequena e fundamental diferença: nestas histórias reais o bandido não morre e, cada vez mais, impõe à humanidade sua dominação psicológica e até econômica..
          Imperialismo, terrorismo, fundamentalismo e globalização. Estas são as palavras que me assustam no momento.
          Leio num artigo de revista algo que ficou muito claro para mim desde que iniciei a escrever minhas histórias: “... a destruição da memória, da história, do passado é algo terrível para uma sociedade e isto tenta fazer a globalização com o cidadão comum”.
         E aí esta minha angustia, pois, cada vez mais, fica evidente que para fazer face à globalização que vem seguindo um poder absoluto de negação à tolerância exacerbando as oposições entre pobres e ricos , dominadores e dominados.
         Mais uma vez o mundo mergulha numa utopia que seria a globalização baseada na partilha e na paz gerada pelo respeito das diversidades.
          Diz Jacques Le Goff, historiador francês da atualidade: “Uma globalização assassina das diversidades é nociva e catastrófica”.
          E o que vemos no mundo atual?
          Acho melhor voltar para o mundo de 1962, onde globalização era uma palavra desconhecida. O desafio que valia era a conquista de meu destino.

          - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001.
               

terça-feira, 16 de outubro de 2012

'CHEIROS DA VIDA" - Nº 47 - LÁ SE VAI MINHA MESADA ...

          

          Conviviam no mesmo campus três faculdades: direito, filosofia e engenharia. De longe dava para identificar quem era quem tal a diversidade dos comportamentos.
          Na engenharia circulava o jornalzinho “O Geninho” cujo símbolo era o mesmo do Diretório Acadêmico, um garotinho espevitado de calças curtas, cabeça desproporcional ao corpo, cabelos arrepiados, óculos de grossa armação, empurrando uma roda dentada e carregando no bolso uma imensa régua de cálculo.
          O Geninho criou o slogan do “Charles’ Bar”: “Ou você come mal e passa bem, ou você come bem e passa mal”. Lá, nesse bar “pé-sujo”, surgiu espontaneamente o ponto de encontro da moçada, local de início das paqueras, dos “altos lances”, das definitivas amizades e dos grandes negócios.
          Pois foi nesse lugar que conheci o Ivan e depois de poucas palavras o negócio estava fechado.
          Os novos sócios cumprimentaram-se efusivamente, olhos nos olhos, “para o que der e vier”.
          Ao fim da conversa o curso já tinha data de inauguração marcada dia 16 de abril de 1962, uma segunda-feira, faltavam apenas alguns detalhes como, por exemplo: onde funcionaria o curso?
-         Leal! Existe um curso que funcionou o ano passado à Rua Marechal Deodoro, quase em frente à sua pensão e parece que este ano está desativado – disse Ivan, mal nossas mãos se separaram.
-         Mais um fracassado certamente. Acho que não é um bom começo usar tal endereço.
-         Não! O curso que funcionava lá era para artigo 99, nada de vestibular.
-         E ai?
-         E ai, não há desgaste algum.
-         Então vamos saber quem é o dono para tentar uma negociação.
-         O dono mora no próprio prédio num apartamento de cobertura. Parece que é um Almirante reformado e o nome dele é Iramaia.
-         Nada simpático o nome do fulano, mas isso não interessa. Depois do almoço iremos lá. Certo?
-         Certo.

         À noite, na Chrrascaria Majórica, comemorávamos o negócio fechado e delineávamos as próximas providências.
-         Vamos recapitular: teremos que pagar um aluguel de sete mil cruzeiros para ter o direito de usar as instalações todos os dias após as 6 da tarde e mais,  5% de nossa renda bruta a título de participação tendo em vista que usaremos o nome do curso Pio XXII, aliás o mesmo nome do edifício. Estas são nossas obrigações com o Almirante.
-         Isso mesmo Seu Leal.
-         Então já temos sala, carteiras, quadro-negro, secretaria montada. Tudo bem. E os alunos? Onde iremos buscá-los?
-         Muito simples. Colocamos um anúncio na Tribuna de Petrópolis. Anúncio de 3 colunas. Coisa legal “as pampas”.
-         E quanto deve custar essa pinóia?
-         Também já me informei; custa outros sete mil cruzeiros para ser veiculado durante uma semana.
-         Puxa! Você está informado mesmo.
-         Penso em fazer este curso desde o ano passado. Faltava o sócio. Agora já tenho.
-         Só um detalhe: e as despesas iniciais?
-         Meio a meio.
-         50% para cada um. Fechado!         

          Lá se vai minha mesada, pensei comigo.



          - Techo de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001.

          EM TEMPO -  Como em Petrópolis, nos meses de aulas,  fazia muito frio era comum que os alunos usassem as tradicionais "japonas" de lã.
       
          Todos os alunos da Engenharia usavam em seus bolsos à altura do peito, orgulhosos, o bordado delicado do "Geninho", nosso querido símbolo.


                                                 O 'Geninho"- CRIADO EM 1962

                                                         

domingo, 14 de outubro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 46 - A TURMA DE "DAR O BEIÇO"



          Minha primeira moradia em Petrópolis foi a pensão de Dona Honorina na subida da Rua Marechal Deodoro, o “imodestamente” denominado Hotel Alvorada.
          Na placa que encimava o portão de entrada, o desenho das colunatas do novo palácio presidencial, não deixava dúvidas quanto à inspiração para o nome. Brasília ainda não completara um ano, mas tudo que lhe dizia respeito era de serventia para nomear novos empreendimentos, desde um modesto botequim até uma casa de alta-costura mais sofisticada.
          Moradia de alguns veteranos como o Alfredo Laufer, o Luiz Fernando e o Francisco Aboin, o “Chico - pé-de-cana”, agora abrigaria alguns calouros: eu, o Carlos Pogrebinschi, e um tal de Fernando que viria a dividir o quarto comigo. Sua chegada, retardada por alguns dias, deixou-me num contínuo suspense. Quem seria meu companheiro neste início de jornada?
          Numa “república” um pouquinho mais acima, na Aureliano Coutinho, moravam o Martiniano Lauro, o Antônio Carlos e o Jayme Camargo, todos veteranos.
          Esses foram meus primeiros camaradas em Petrópolis.
          Papai ajustara comigo uma mesada de vinte mil cruzeiros, pouco mais de um e meio salários-mínimos da época. Com essa quantia deveria custear as despesas com moradia, alimentação além de cobrir os custos com as mensalidades da faculdade, livros e demais despesas pessoais.
          Orçamento de difícil execução.
           Providências deveriam ser tomadas para que minha sobrevivência fosse garantida com segurança. Trocando em miúdos: eu teria que arranjar urgentemente um trabalho.
          Qual? Onde? Em qual horário? O curso de engenharia tinha aulas pela manhã, inclusive aos sábados, em algumas tardes e ainda eventualmente à noite. Sobrava pouco tempo...
          Num papo informal no bar da Universidade, o “Charles’ Bar”, soube que um tal Ivan estava a procura de um sócio disposto a enfrentar a empreitada da fundação de um curso vestibular.
-         Não se metam nisso! Curso vestibular nessa cidade é “fogo na roupa” – opinou um petropolitano que participava da conversa.
-         Como assim?
-         Aqui já abriu e fecharam curso “as pampas”.
-         Mas o nosso será diferente.
-         E onde vocês vão arranjar alunos? Ninguém mais acredita.
-         E onde essa turma vai estudar?
-         No Rio. Descem e sobem todos os dias. Eu mesmo fiz assim e olhe que fica caro e cansativo.
-         Pois então, se fizermos um negócio sério conquistaremos a confiança da garotada.
-         Acho difícil, além de que vocês deverão levar em conta ainda que a turma daqui goste de “dar o beiço”.
-         Ai fica complicado, mas acho que vale a pena arriscar. E o Ivan? Onde o encontro?
-         Ele está no Rio. Amanhã deverá estar de volta e num intervalo entre as aulas te apresento a ele.
-         Amanhã nascerá o grande curso vestibular de Petrópolis.
-         Boa sorte!
-         Vamos precisar.

          Estas primeiras notícias não eram nada animadoras. No entanto estava disposto a apostar no negócio. Afinal já tinha alguma experiência e, querendo ou não, um aluno do meu cursinho tinha obtido o primeiro lugar no vestibular daquele janeiro.
          O que mais me preocupou foi saber que a turma da cidade tinha o péssimo hábito de “dar o beiço”. Trabalhar igual a um condenado e não ver a cor do dinheiro não teria graça alguma.
          Pouco dormi naquela noite. Pela cabeça as idéias se seguiam misturando cifrões, salas, cadeiras, alunos, professores, sócio, propaganda...
          Será que esse Ivan é um cara sério?
          Já devia passar das quatro quando dormi.
 
          - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001, no alvorecer do Século XXI. 

          - Abaixo foto de um ônibus da Única, importados dos Estados Unidos, que nos  levava com todo o conforto a Petrópolis.