- Leal! Não agüento mais essa tal de Dona Honorina!
- Calma!
- Esse negócio de morar em pensão “está bagunçando o meu coreto” – disse Fernando decidido a tomar alguma providência.
- Eu como chego tarde e cansado, só faço mesmo é tomar banho e dormir. Não está dando tempo nem para pensar.
- Você não viu o caso que ela criou com o Carlos só porque o cara é judeu e tinha que cumprir o que manda a sua religião; pediu uma alimentação especial. A mulher ficou uma fera... Era só um dia...
- O negócio dela é ganhar dinheiro.
- E os nossos vizinhos de cima o Alfredo e o Chico. Volta e meia, madrugada já alta, quase saem na porrada.
Nossos vizinhos de cima eram o Alfredo Laufer, o Luiz Fernando e o Francisco Aboin, vulgo Chico “pé de cana”.
Chico era um inveterado boêmio ao contrário do Alfredo que poderia ser chamado, sem ofensa de cê-dê-efe; felizmente não era um chato como de maneira geral eram todos os cê-dê-efes.
Alfredo estudava muito, Chico, nem tanto.
A cena se repetia com certa freqüência: véspera de prova, madrugada já querendo amadurecer, Alfredo dormia o sono dos justos. Chico chegava, para variar meio “alto” e despertava o amigo e implorava uma panorâmica da prova do dia seguinte.
Depois de muito bate-boca e muito xingamento, Alfredo resolvia ensinar ao malandro.
Dias depois viria o resultado da prova. Era muito comum o Chico tirar melhor nota que o Alfredo. Aí novo arranca-rabo noite adentro para desespero do Fernando.
Por essas e outras, o cara estava mesmo decidido a mudar.
- Comprei o jornal da terra marquei alguns apartamentos e se você topar iremos vê-los, escolher o melhor e alugá-lo.
- E onde eu vou achar tempo para isso?
- É rapidinho...
- E o dinheiro?
- “Você está com tudo e não esta prosa...”. Dono de Curso... Deixa de ser pão-duro.
- Não é bem assim...
- É capaz até de ficar mais barato que esta pensão e, afinal, teremos a liberdade até para levar umas menininhas para nos fazer companhia. Liberdade, privacidade e conforto para dois pobres estudantes perdidos na “serra”.
- Não custa tentar...
- Pensei também em convidar mais um colega para dividir as despesas. Já falei com o Luiz Carlos e ele topa. Só falta você concordar.
- Por mim, tudo bem. Se você conhece o cara vale a pena tentar...Ah! E os móveis? Teremos que providenciar.
- Deixa comigo que tudo vai se arranjar.
- Mudando de assunto, alguém procurou por mim?
- O Martiniano Lauro. Disse que estão procurando um professor de matemática para o Colégio Werneck. Indicou você.
A semana não terminaria sem que tivéssemos mudado e eu assumisse a cadeira de matemática do Primeiro Científico do Instituto Werneck.
Mais trabalho...
Antes de esquecer! Meu novo endereço: Av. XV de Novembro (atual Avenida do Imperador), 970 apto. 504 – Bloco B, pelo menos ao correr daqueles próximos anos...

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