“Tudo que existe sobre a terra foi Deus quem criou;
Da solidão, fez o homem,
do amor, a mulher.
À imagem da mulher, criou a flor.
A mulher sonhou com a flor,
Nasceu a vaidade.
Da vaidade, brotou a mentira.
O homem acreditou na mentira e,
inventou a saudade...”
Já tinha passado da conta. Estava mais do que na hora de acabar com a “fossa”; parar de rabiscar versos canhotos de mulher, flor, mentira e saudade.
Voltei a trabalhar com o Guido, às minhas aulas particulares, ao convívio da gente do “Sabóia”, e a freqüentar as festas que agora estavam mais incrementadas. O clube havia celebrado um convênio com o Tijuca Tênis Clube o qual permitia o uso de suas instalações em dias previamente programados.
De repente, vi-me envolvido na organização de um show com desfile de modas, no qual fui o locutor oficial: “... agora na passarela nossa rainha desfila um modelo..., reparem no lindo broche que Ana Maria exibe à altura do coração, criado especialmente para ela que representa o charme, a graça e o encantamento da menina-moça tijucana...”.
Imaginaram o cenário?
Um conjunto musical enchendo o ambiente de acordes adocicados, eu de smoking procurando tirar do fundo da garganta a voz mais grave possível e os “brotos” exibindo seu charme, graça e encantamento... E a “menina-moça”?
Positivamente!
Felizmente minha vida voltava ao eixo, se bem que com seqüelas irreparáveis.
Graças a uma velha agenda, consigo recordar alguns vultos femininos que de um, ou de outro modo, fizeram-me pensar nas coisas do amor. Nada muito sério na verdade. Lá vão alguns: Cínthia, Luiza, Sayonara, Núncia, Célia, Fábia...
Lindos nomes, porém nada de um “novo amor”.
O certo era que eu precisava estudar a infortunada “química”, sem o quê, continuaria marcando passo longe da universidade. E a vontade de enfrentá-la?
Essa continuava nula.
Certa noite, na verdade uma sexta-feira, estava ocupado com várias aulas particulares.
Já passava muito das oito, quando:
- Leal, teu smoking esta ok?
- Acho que sim, por quê?
- Então tira o bicho do armário porque eu, você, Beco e Fadini temos que nos mandar para Niterói, e olhe que ainda tenho que apanhar minha namorada na Mariz e Barros, lá no fim da Praia de Icaraí...
- Você “ta” louco ou o quê? Não vê que eu estou trabalhando?...
- Louco, ou não, chega de conversa. Dispensa seus alunos e se veste. Coisa de dez minutos.
- Calma!
- Seu convite está aqui. Toma...
“Clube de Regatas Icaraí – Festa Comemorativa..., animada por Steve Bernard, seu órgão Hammond e a cantora Valéria. Vinte e três horas, traje “a rigor...”
- Ta legal! Mas...
- Em dez minutos estou passando aqui com a picape do papai.
- Mas já são nove! Vamos chegar a Niterói lá pelas tantas! Nessa hora só tem barca de trinta em trinta minutos!
Eram quase onze quando o trólei numero nove nos deixou na porta do clube engalanado, cheiro de perfume francês no ar. Jorge seguiu para apanhar a namorada e suas colegas – seriam nove belezocas. Pelo menos foi o que ele disse...
Já tínhamos reconhecido o ambiente quando Jorge chegou com a sua Ângela e nos surpreendeu sentados em volta de uma mesa na varanda do segundo andar:
- Pessoal, vamos às apresentações: minha namorada Ângela, fulana, beltrana, sicrana,...
- Muito prazer, muito prazer, muito prazer...
Logo-logo, Jorge e seu “mulherio”, como gostava dizer, afastaram-se em busca de mesas dentro do salão.
Ficamos alguns segundos em silêncio, quebrado pela observação do Fadini:
- Feinha a namorada do Jorge, não?
- Aliás, o “mulherio” não era tão maravilhoso como apregoara. Na verdade simpáticas, mas falta algo mais
- Beco, Dona Tininha é que está com a razão, e diz sempre: “quem ama o feio, bonito lhe parece”.
- Mas se vocês repararam bem, há entre elas um “piteuzinho” de “fechar o comércio”.
Concordamos todos com o Carlos Alberto, que sem mais comentários saiu apressado para convidá-la a dançar.
Não demorou muito, nosso “conquistador” voltou com cara de “poucos amigos”.
- Que decepção!...
- A garota não quis dançar?
- Não é isso, dançar ela dançou. Mas a menina é fechada e não deu um mínimo de “papo”.
- Coisas da vida! Vai lá Fadini! Tira a limpo esse negócio...
- O Leal é gozado, fica aqui sentadinho bebericando umas e outras e, eu é que vou “pro sacrifício”...
- Sacrifício? Ai já é exagero.
- Ta bem, eu vou, “Leeeaaalzinho”...
- Beco acho que o “cara” não gostou. Afinal estou dando chances para vocês e o “bicho” se vira contra mim? Essa não!
- Coisas da vida! – respondeu Beco com seu peculiar sarcasmo.
Em menos de cinco minutos nosso herói estava de volta e confirmou o que Beco tinha sentido.
- Mas nem o nome da menina vocês conseguiram saber?
- Sabemos – responderam em uníssono os dois “mal-humorados”. O “problema” agora é seu!
- Vou lá resolver esse “problema”.
Fui, e demorei a voltar... Ou melhor, não voltei..
- Capítulo do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo em 2001.
- Capítulo do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo em 2001.
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