Acordo.
Suo muito e a cabeça dói; uma rotina nos últimos tempos. Neste setembro de 2001 com dias de muito vento e temperaturas amenas nada justifica esse suar exagerado.
Onde estou?
Rio, ou Arraial?
O som familiar, mas um tanto quanto desagradável, atravessou a grossa porta de madeira: “... aqui é bem melhor!...”.
Não há dúvida: estou em Arraial e este é o sinistro carro de som do Supermercado Esperança trombeteando mais uma longa lista de ofertas, como faz todas as manhãs, trouxe-me à realidade.
Respirei fundo. Já quase 10. Coisa de malandro aposentado levantar a essas horas.
Verdade consumada: “malandro profissional”, com aval do Supremo Tribunal Federal que por unanimidade deu ganho de causa à minha pretensão de aposentadoria integral. Muito justo após 42 anos de muitas labutas e de uma férrea obediência às minhas obrigações profissionais.
É Seu Zé, quanto a isso, parabéns.
Mas o fato é que acordei com dor de cabeça e muito suado.
Ao olhar minha cara no espelho do banheiro não fico nada entusiasmado com o que o que vejo. Diante de mim a testemunha do tempo que passou...
Agora lembro com certeza: meu rosto está bem diferente daquele do sonho que me embalara até alguns minutos atrás.
Mão apoiada no vértice do braço dobrado de papai subia a passos largos a Rua Desembargador Izidro. Devia ter oito, no máximo nove anos. A cabeça doía como era costume toda vez que saía para a cidade, talvez conseqüência do cheiro de óleo que exalava das descargas dos ônibus, mais a poeira, o tumulto de muita gente apressada ou algo assim. O certo era: sempre que saía para mais longe voltava com a cabeça quase estourando.
Agora pisávamos as largas pedras capistranas que compunham a calçada defronte à garagem dos ônibus da Light (*).
As grades de ferro embasadas num esmerado muro de cantaria trabalhada, separavam da rua as instalações que abrigavam, reparavam e higienizavam os tradicionais ônibus-cinza.
- Pai! Para que serve aquele grande bacia lá no alto daquela torre?
- É um castelo-d’água, respondeu de pronto Seu César.
- Ah! Sim, respondi – evidentemente sem nada entender.
Agora lembro. Foi nesse exato momento que acordei. A dor de cabeça era de verdade e uma saudade imensa fez com que me demorasse mais alguns instantes diante do espelho.
A minha imagem aos poucos se confundia com a de papai...
O telefone estridente fez-me voltar à realidade.
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(*) – Esta calçada resistiu ao tempo e ainda existe; o que era uma garagem hoje pertence ao Tijuca Tênis Clube.
Ainda outro dia quando andava acelerado na minha luta diária para manter-me vivo em razoáveis condições de temperatura e pressão, pisei firme naquele lajeado resistente e lembrei-me das várias vezes que por ali passei com papai, num andar cuja cadência era marcada por um compasso acelerado.
Meu sonho certamente foi conseqüência das longas meditações que faço durante minhas obrigatórias andanças.
Andar faz pensar, digo sem nenhuma dúvida.
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