por José Carlos Coelho Leal

sábado, 22 de setembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 33 - O NAUFRÁGIO


 

         As travessias pela Baía da Guanabara faziam-me bem; afinal constavam do ritual de um amor que crescia sem cessar.
Estava feliz. Meu namoro ia de vento em popa, como a brisa suave que transformava em doce acalanto o balançar modorrento da embarcação.
         Longe vagavam meus pensamentos, a vida, o amor, o futuro...
De certo havia dias em que a natureza emburrada deixava o vento forte e as ondas descabeladas. Nestas horas apertava meu terço de Nossa Senhora e meu Escapulário que levava com zelo no bolso da calça, hábito adquirido desde o ginásio e que mantenho até hoje com meus 62 já às portas.
         Lembro bem. Era um sábado enferrujado e frio.
         Passava das seis, quando no fim de uma desabalada carreira consegui embarcar numa lancha da Frota Barreto, muito cheia para aquela hora e para aquele dia.
         E lá fomos nós rumo a Niterói, a “Cidade Sorriso”.
         Com muito custo consegui um lugarzinho junto à proa no andar inferior cujo piso ficava abaixo da linha d’água.
         Navegamos com tranqüilidade por cinco minutos, no máximo.     
         Depois, uma agonia só.
         Pesadelo no lugar de acalanto e pensamentos soturnos ao invés de vida, amor e futuro. Não tinha jeito, a “coisa” ia virar...
         Não foi dessa, da próxima não escapa...
         O corpo já doído parecia reclamar de horas de viagem mal passado um mísero quarto de hora. Subitamente, o motor parou.       
         Agora é rezar e esperar o fundo do mar...
         Voltou o motor.
         Agora, a cada  intervalo ritmado dos jatos d’águas a enxaguar as escotilhas dava para ver algo como luzes de uma cidade cada vez mais perto.
         Uma, duas e volta à ré a toda força... Terceira, Quarta... Finalmente na quinta tentativa a valente Barreto conseguiu atracar.
         No píer as mãos fortes dos marinheiros nos ajudavam a abandonar o inferno.
         Em poucos minutos tudo estava esquecido e as delícias do amor fizeram desaparecer as nuvens carregadas e somente as estrelas foram testemunhas do cheiro de terra molhada em cumplicidade explicita... 

        - Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001 na Cidade de Arraial do Cabo

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