As travessias pela Baía da Guanabara faziam-me bem; afinal constavam do ritual de um amor que crescia sem cessar.
Estava feliz. Meu namoro ia de vento em popa, como a brisa suave que transformava em doce acalanto o balançar modorrento da embarcação.
Longe vagavam meus pensamentos, a vida, o amor, o futuro...
De certo havia dias em que a natureza emburrada deixava o vento forte e as ondas descabeladas. Nestas horas apertava meu terço de Nossa Senhora e meu Escapulário que levava com zelo no bolso da calça, hábito adquirido desde o ginásio e que mantenho até hoje com meus 62 já às portas.
Lembro bem. Era um sábado enferrujado e frio.
Passava das seis, quando no fim de uma desabalada carreira consegui embarcar numa lancha da Frota Barreto, muito cheia para aquela hora e para aquele dia.
E lá fomos nós rumo a Niterói, a “Cidade Sorriso”.
Com muito custo consegui um lugarzinho junto à proa no andar inferior cujo piso ficava abaixo da linha d’água.
Navegamos com tranqüilidade por cinco minutos, no máximo.
Depois, uma agonia só.
Depois, uma agonia só.
Pesadelo no lugar de acalanto e pensamentos soturnos ao invés de vida, amor e futuro. Não tinha jeito, a “coisa” ia virar...
Não foi dessa, da próxima não escapa...
O corpo já doído parecia reclamar de horas de viagem mal passado um mísero quarto de hora. Subitamente, o motor parou.
Agora é rezar e esperar o fundo do mar...
Agora é rezar e esperar o fundo do mar...
Voltou o motor.
Agora, a cada intervalo ritmado dos jatos d’águas a enxaguar as escotilhas dava para ver algo como luzes de uma cidade cada vez mais perto.
Agora, a cada intervalo ritmado dos jatos d’águas a enxaguar as escotilhas dava para ver algo como luzes de uma cidade cada vez mais perto.
Uma, duas e volta à ré a toda força... Terceira, Quarta... Finalmente na quinta tentativa a valente Barreto conseguiu atracar.
No píer as mãos fortes dos marinheiros nos ajudavam a abandonar o inferno.
Em poucos minutos tudo estava esquecido e as delícias do amor fizeram desaparecer as nuvens carregadas e somente as estrelas foram testemunhas do cheiro de terra molhada em cumplicidade explicita...
- Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001 na Cidade de Arraial do Cabo
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