por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 31 - COM O PERDÃO DE DEUS

         

“Um cinema morre não tanto pela especulação imobiliária, mas pela deterioração urbana da vizinhança. Ao morrer, promove o aceleramento dessa deterioração. O espaço hoje, vazio e lúgubre, pertence tacitamente aos assaltantes, serenos e absolutos no terreno conquistado, à espreita das vítimas desavisadas que ousem sair às ruas depois das sete da noite.
Cinemas de rua são o termômetro mais preciso para se medir a saúde de um bairro. Isso vale para qualquer cidade do mundo. São os cinemas de rua que servem de centro gravitacional para a população e que indicam onde há vida fora dos casulos de shoppings que ingenuamente construímos para nos proteger...” – Nelson Hoineff – Os cinemas morrem como as cidades. (Jornal do Brasil, 1992)


Foi um espanto!
Era domingo.
Faz poucas semanas, não passava das 9 da noite, fui até a Praça Saens Peña comprar umas revistas na velha banca tradicional que fica em frente às lojas da C&A (antigo Cinema Metro-Tijuca)
Parecia que uma peste mortífera tinha invadido a cidade. Vivalma na rua.
Lembrei-me então de décadas passadas, não muitas na verdade, quando há essas horas os jatos matizados das águas dançantes do lago misturavam-se aos letreiros dos cinemas e os reclames coloridos em neon.
As pessoas que encompridavam as filas, os casais sem pressa, as famílias retornando de um passeio arrastando crianças sonolentas em busca de condução, tudo se confundia num burburinho de vozes e risos somados ao aroma da pipoca quentinha, do cachorro-quente bem temperado e das luzes brilhantes e trêmulas das carrocinhas de churros, pipocas ou de algodão-doce.
Uma festa!
A febre epidêmica dos shoppings ainda não havia contaminado a cidade, a tv era alternativa para poucos e a internet coisa de não se imaginar.
A violência vista apenas nos filmes de bang-bang nem de longe atemorizava as pessoas ficando restrita aos antros da malandragem e, os furtos, obras de artistas refinados, ocupavam mirrados espaços nas páginas internas dos jornais que cobriam o dia-a-dia da cidade. Histórias legendárias dos famosos batedores-de-carteiras.
As confeitarias e os cafés estavam sempre cheios.
Os cinemas ofereciam sessões às 14, 16, 18, 20 e 22 horas, todos os dias e aos sábados vários deles acrescentavam uma sessão à meia-noite, normalmente uma avant-première.
Só para refrescar a memória funcionavam na Praça Saens Peña, na década de sessenta, os seguintes cinemas: América (1.066 lugares), Carioca (1.119 lugares), Tijuca, carinhosamente apelidado de Tijuquinha (679 lugares), Metro-Tijuca (1.785 lugares), Art-Palácio Tijuca (1.569 lugares), Eskye (1.702 lugares), Bruni Saenz Peña (560 lugares), Rio (1.140 lugares), Tijuca-Palace (1.279 lugares), Bruni Tijuca (497 lugares), Santo Afonso (437 lugares), Britânia (290 lugares) e, o maior de todos, maior do Rio de Janeiro, Cinema Olinda com 3.158 lugares.
Quinze mil assentos em cinco sessões diárias, ou seja, 75.000 pessoas poderiam se divertir na Praça Saenz Peña todos os dias da semana.
Tudo isso acabou. Onde era o Olinda, hoje temos o “Shopping 45”, no lugar do Metro a “C&A”, “Magazine Leader ao invés de Art-Palácio e “Casa e Vídeo” abandonou o Eskye.
O América cujo prédio primitivo, inaugurado em junho de 1918 como Cine-Teatro América, obra prima polêmica do arquiteto italiano Antonio Virzi, em forma de um pagode chinês, tornou-se uma prosaica “Drogaria Pacheco”. O Cinema Rio travestiu-se de Caixa Econômica Federal.
O Tijuquinha no nº 346 da Rua Conde de Bonfim deu lugar ao prédio que abriga a Shopping Vitrine da Tijuca,  enquanto o Santo Afonso, apesar de toda influência religiosa, sucumbia ao capitalismo selvagem convertendo-se num vulgar Supermercado Mundial.
Por derradeiro, o mais deprimente: o Carioca que é tombado pelo Patrimônio segue a triste sina de uma enganosa igreja caça-níqueis, a Universal do Reino de Deus.
Que Deus Todo Misericordioso perdoe...

- Excerto do livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo em 2001








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