Não eram “torres gêmeas” caindo por ação terrorista, mas levei um susto daqueles.
Certo dia recebo um recado urgente, daqueles de deixar qualquer mortal com a “pulga atrás da orelha”.
- Tia Nilda precisa muito falar com você. Pediu para marcar data e hora para ir até lá conversar com ela – disse de chofre, com ares zombeteiros, o velhaco Jorge.
- Como é?
- Isso mesmo que lhe falei. Quer conversar com você e, com urgência.
- Que diabos ela quer comigo?
- Isso e problema que não me diz respeito. Assunto sigiloso.
Pela expressão do maroto estava “na cara” que sabia do que se tratava. Pelo menos de alguma coisa, sabia.
- Fala aí! Qual é o assunto da conversa? Fala porra!
- Calma cara. Já disse que não sei.
- Com essa cara de cachorro-que-lambeu-panela, sabe, e muito! – explodi já meio irritado com a cara de cínico do Jorge.
- Não sei! Leal você parece maluco!
- Tudo bem. Só posso no domingo pela manhã, quem sabe às 10? À tarde tenho que estar em Niterói. Vai fazer uma semana que não vejo minha prenda. Estou trabalhando demais inclusive neste sábado...
- Tudo bem! Domingo às dez. Ela vai ficar contente.
- Contente?
- Sei lá! Domingo, às dez.
- Estarei lá.
- À tarde iremos juntos para Niterói. Tenho que ver minha Ângela também...
- Tchau!
Os poucos dias que me separavam do domingo, passei-os conjeturando com meus botões. Tia Nilda? Conversar comigo? Assunto sigiloso? Vai ficar contente?
É não tem jeito. É esperar para ver. Tudo muito estranho.
Finalmente chegou o domingo ensolarado e alegre, cheio de promessas. Estou morto de saudades da minha Sizinha. Mas compromissos são compromissos. Vamos lá ver qual o assunto sigiloso de Tia Nilda.
Coloquei uma roupinha decente, o melhor sapato que Dona Tininha deixava sempre brilhando e, lá fui para Sabóia Lima, 23.
Fui recebido com pompas e circunstâncias com direito a chá com biscoitinhos finos servidos em louça de porcelana.
- Leal! Foi bom você ter vindo.
- Bom dia Tia Nilda. Como vão Tio Avaro e os meninos.
- Todos bem graças ao Bom Deus. Não tenho visto sua mãe. Ela vai bem.
- A senhora sabe... Ela sai pouco, sempre cuidando das coisas de casa mesmo agora que meus irmãos já casaram, e a casa está mais vazia, não encontra tempo para nada.
- Eu entendo...
Essa conversinha para-boi-dormir se prolongou por mais tempo que minha curiosidade permitia. Finalmente...
- Leal! Eu o chamei aqui porque o assunto a tratar é muito importante. Pelo menos para min e para Taninha...
- Para Tânia?
- Isso mesmo.
Ah, meu Deus! Será que vai começar tudo de novo?
- Não estou entendendo?
- É muito simples. A Taninha está gostando muito de você; como conheço sua atual namorada lá de Niterói e vejo que é muito bonita, simpática e educada; estou achando que minha sobrinha corre grade risco de perder esta parada...
- Continuo não entendendo, Tia Nilda?
- Está entendendo sim. A Taninha esta gostando de você e quero ajuda-la de algum modo antes que seja tarde demais.
- Acho que é tarde demais – falei secamente, cheio de empáfia e uma pontinha de espírito vingativo,
- Quem sabe não é. Vocês precisam conversar...
- Mas Tia Nilda por quase dois anos foi isso que eu quis, e a presunçosa da dona Tânia, nada. Agora que estou bem, a senhora diz que ela está gostando de mim? Isso me deixa tonto...
- Quem sabe você ainda gosta dela?
- Estou namorando firme, Tia Nilda.
- Você vai dar essa oportunidade à Taninha. Quem sabe o destino de vocês não será passar a vida juntinhos?
- Mas...
- Não tem mais, nem menos. Esta semana vou me internar na Beneficência Portuguesa para uma pequena intervenção cirúrgica. Coisa pouca. Na quarta-feira já estarei bem. Você irá me visitar.
- Lá no Catete?
- Isso. A Taninha vai estar lá também. Vocês arranjarão um cantinho no jardim, e terão bastante tempo para conversar longe de tudo e de todos.
Só me faltava essa!
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