por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 25 de setembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 36 - SÓ ME FALTAVA ESSA

               


               Não eram “torres gêmeas” caindo por ação terrorista, mas levei um susto daqueles.
Certo dia recebo um recado urgente, daqueles de deixar qualquer mortal com a “pulga atrás da orelha”.
-         Tia Nilda precisa muito falar com você. Pediu para marcar data e hora para ir até lá conversar com ela – disse de chofre, com ares zombeteiros, o velhaco Jorge.
-         Como é?
-         Isso mesmo que lhe falei. Quer conversar com você e, com urgência.
-         Que diabos ela quer comigo?
-         Isso e problema que não me diz respeito. Assunto sigiloso.
Pela expressão do maroto estava “na cara” que sabia do que se tratava. Pelo menos de alguma coisa, sabia.
-         Fala aí! Qual é o assunto da conversa? Fala porra!
-         Calma cara. Já disse que não sei.
-         Com essa cara de cachorro-que-lambeu-panela, sabe, e muito! – explodi já meio irritado com a cara de cínico do Jorge.
-         Não sei! Leal você parece maluco!
-         Tudo bem. Só posso no domingo pela manhã, quem sabe às 10? À tarde tenho que estar em Niterói. Vai fazer uma semana que não vejo minha prenda. Estou trabalhando demais inclusive neste sábado...
-         Tudo bem! Domingo às dez. Ela vai ficar contente.
-         Contente?
-         Sei lá! Domingo, às dez.
-         Estarei lá.
-         À tarde iremos juntos para Niterói. Tenho que ver minha Ângela também...
-         Tchau!
Os poucos dias que me separavam do domingo, passei-os conjeturando com meus botões. Tia Nilda? Conversar comigo? Assunto sigiloso? Vai ficar contente?
É não tem jeito. É esperar para ver. Tudo muito estranho.
Finalmente chegou o domingo ensolarado e alegre, cheio de promessas. Estou morto de saudades da minha Sizinha. Mas compromissos são compromissos. Vamos lá ver qual o assunto sigiloso de Tia Nilda.
Coloquei uma roupinha decente, o melhor sapato que Dona Tininha deixava sempre brilhando e, lá fui para Sabóia Lima, 23.
Fui recebido com pompas e circunstâncias com direito a chá com biscoitinhos finos servidos em louça de porcelana.
-         Leal! Foi bom você ter vindo.
-         Bom dia Tia Nilda. Como vão Tio Avaro e os meninos.
-         Todos bem graças ao Bom Deus. Não tenho visto sua mãe. Ela vai bem.
-         A senhora sabe... Ela sai pouco, sempre cuidando das coisas de casa mesmo agora que meus irmãos já casaram, e a casa está mais vazia, não encontra tempo para nada.
-         Eu entendo...
Essa conversinha para-boi-dormir se prolongou por mais tempo que minha curiosidade permitia. Finalmente...
-         Leal! Eu o chamei aqui porque o assunto a tratar é muito importante. Pelo menos para min e para Taninha...
-         Para Tânia?
-         Isso mesmo.
Ah, meu Deus! Será que vai começar tudo de novo?
-         Não estou entendendo?
-         É muito simples. A Taninha está gostando muito de você; como conheço sua atual namorada lá de Niterói e vejo que é muito bonita, simpática e educada; estou achando que minha sobrinha corre grade risco de perder esta parada...
-         Continuo não entendendo, Tia Nilda?
-         Está entendendo sim. A Taninha esta gostando de você e quero ajuda-la de algum modo antes que seja tarde demais.
-         Acho que é tarde demais – falei secamente, cheio de empáfia e uma pontinha de espírito vingativo,
-         Quem sabe não é. Vocês precisam conversar...
-         Mas Tia Nilda por quase dois anos foi isso que eu quis, e a presunçosa da dona Tânia, nada. Agora que estou bem, a senhora diz que ela está gostando de mim? Isso me deixa tonto...
-         Quem sabe você ainda gosta dela?
-         Estou namorando firme, Tia Nilda.
-         Você vai dar essa oportunidade à Taninha. Quem sabe o destino de vocês não será passar a vida juntinhos?
-         Mas...
-         Não tem mais, nem menos. Esta semana vou me internar na Beneficência Portuguesa para uma pequena intervenção cirúrgica. Coisa pouca. Na quarta-feira já estarei bem. Você irá me visitar.
-         Lá no Catete?
-         Isso. A Taninha vai estar lá também. Vocês arranjarão um cantinho no jardim, e terão bastante tempo para conversar longe de tudo e de todos.
Só me faltava essa!

           - Excerto do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do  ano de 2001







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