por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 30 - A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA


Rápido dezembro chegou.
Parecia que tinha corrigido meu rumo. As coisas voltavam a me empolgar. Os desafios do dia-a-dia, o trabalho, os estudos, os amigos retomavam os seus espaços e com gosto e entusiasmo os acolhia com vontade.
Um amor! Um amor do jeito que eu sempre sonhara invadia a minha vida sem cerimônia, enredos ou recatos. Simples, natural e envolvente, alicerçado pela tranqüilidade da desafetação e pleno sinceridade. Sentia assim.
O encantamento crescia na mesma medida que conhecia Suely. Quanto juntos sentia-me novamente confiante. Seus lindos olhos negros estavam sempre em mim e parecia que o mundo desaparecia em nossa volta.
-         Um convite?
-         Isso. Abra com bastante carinho...
-         Já sei! Sua formatura!
-         Adivinhão!
-         Puxa! Tá bonito mesmo. Mas cai numa quarta-feira; vai ficar complicado, pois trabalho até as seis da tarde e não esqueça que no Rio. As solenidades estão marcadas para quase há mesma hora com um detalhe, em Niterói.
-         Não quero nem saber; estarei esperando por você. Sem você, não haverá graça nenhuma.
Chegou o dia.
Evidentemente, apesar de toda a correria, cheguei atrasado.
Como estava cheio o teatro.
Finalmente consegui um lugarzinho apertado entre duas senhoras com roupas cheirando a naftalina, bem no cantinho do balcão superior.
Por sorte eu era bem mais alto que as matronas e, sem muitas dificuldades, consegui ver minha amada mais linda e sorridente do que nunca.
Um detalhe: minha estatura atingia os exuberantes 1,81, coisa rara naqueles tempos; hoje quando algum médico afere minha altura afirma categoricamente algo em torno de 1,79. Não discuto nem entro em confabulações. Na verdade estou encolhendo...
Melhor acomodado, se é que fora possível estar mais bem acomodado naquela calorenta “lata de sardinhas”, notei que a cabecinha de minha anfitriã não parava de perscrutar todo ambiente, para um lado, para o outro, para cima para baixo.
Finalmente nossos olhares, apesar da distância, se encontraram. Todo o semblante da menina encheu-se de felicidade e meu coração mudou de compasso. Se aquilo não fosse amor o que seria afinal?
Durante toda a festa ficamos juntos e já era tarde quando voltei ao Rio.
Na barca a brisa da noite acariciava meu rosto e, sussurrando no meu ouvido, dizia: a vida vale a pena ser vivida.

 - Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito por mim n Cidade do Arraial do Cabo em 2001



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