por José Carlos Coelho Leal

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

"CHEIROS DE VERÃO" - Nº 37 - NOUVELLE VAGUE

              

         Aos poucos fui perdendo o controle da situação e já na quarta pela manhã não estava tão certo de minhas convicções. Porém uma diretiva achava que teria forças para seguir.
         Essa é a opção mais sensata. Tinha que ser..
         Estava determinado a dar um tempo. Nenhuma decisão tomaria açodadamente. Teria que agir com muita cautela, ouvir o que a “menina” teria a dizer e se possível falar pouco.
         No caminho para o Catete não pude disfarçar que meu “ego” havia sido majestosamente massageado.
         Que perda de controle qual nada.
         Estava bem, muito bem.
         Por um momento pensei no surrealismo do fato: um encontro para tratar das coisas do sentimento num hospital. Parecia roteiro de cinema francês, nouvelle vague talvez...
Afinal são dores do coração... Faz sentido.
         O elevador lento e resfolegante parou e as grades pantográficas, envelhecidas pelo tempo, rangeram ao se abrir. A luz era pouca, mas suficiente para ver que alguém estava ao fundo, Tânia.
Foi inevitável a aproximação e na intimidade exclusiva desfrutada naqueles poucos segundos em que a tralha se deslocava permitiu que nossos olhos se fixassem.
         Logo ela baixou os seus e pude ver na maciez de seu rosto e na palidez dos lábios que tremiam muito, a súbita emoção que a arrebatava. Depois de quanto tempo podia de novo olhar sem pressa aquele rostinho tão querido.
-         Oh! Leal.  Pontualidade britânica. Que bom você ter vindo.
-         A senhora está muito bem, Tia Nilda.
-         Tudo correu bem e ainda mais agora que estou com esta linda enfermeirinha, a minha Taninha. Onde vocês se encontraram?
-         No elevador, apressou-se Tânia. Tinha ido à capela rezar um pouquinho.
-         Foi rezar por sua tia ou por outro motivo? Hein, minha sobrinha?
          Novamente seus olhos baixaram e um rubor tímido tingiu sua pela clara.
-         Vocês têm muito a conversar. Lá embaixo há um belo jardim e uns bancos acolhedores. Não façam cerimônia.
-         Mas, Tia Nilda!
-         Estou bem. Não percam tempo.

          Conversamos muito.
          Mantive minha decisão.
         Tudo ficou na mesma.

          - Trecho de meu livro "Cheiros de Verão" escrito em Arraial do Cabo em 2001.
   










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