Aos poucos fui perdendo o controle da situação e já na quarta pela manhã não estava tão certo de minhas convicções. Porém uma diretiva achava que teria forças para seguir.
Essa é a opção mais sensata. Tinha que ser..
Estava determinado a dar um tempo. Nenhuma decisão tomaria açodadamente. Teria que agir com muita cautela, ouvir o que a “menina” teria a dizer e se possível falar pouco.
No caminho para o Catete não pude disfarçar que meu “ego” havia sido majestosamente massageado.
Que perda de controle qual nada.
Estava bem, muito bem.
Por um momento pensei no surrealismo do fato: um encontro para tratar das coisas do sentimento num hospital. Parecia roteiro de cinema francês, nouvelle vague talvez...
Afinal são dores do coração... Faz sentido.
O elevador lento e resfolegante parou e as grades pantográficas, envelhecidas pelo tempo, rangeram ao se abrir. A luz era pouca, mas suficiente para ver que alguém estava ao fundo, Tânia.
Foi inevitável a aproximação e na intimidade exclusiva desfrutada naqueles poucos segundos em que a tralha se deslocava permitiu que nossos olhos se fixassem.
Logo ela baixou os seus e pude ver na maciez de seu rosto e na palidez dos lábios que tremiam muito, a súbita emoção que a arrebatava. Depois de quanto tempo podia de novo olhar sem pressa aquele rostinho tão querido.
- Oh! Leal. Pontualidade britânica. Que bom você ter vindo.
- A senhora está muito bem, Tia Nilda.
- Tudo correu bem e ainda mais agora que estou com esta linda enfermeirinha, a minha Taninha. Onde vocês se encontraram?
- No elevador, apressou-se Tânia. Tinha ido à capela rezar um pouquinho.
- Foi rezar por sua tia ou por outro motivo? Hein, minha sobrinha?
Novamente seus olhos baixaram e um rubor tímido tingiu sua pela clara.
- Vocês têm muito a conversar. Lá embaixo há um belo jardim e uns bancos acolhedores. Não façam cerimônia.
- Mas, Tia Nilda!
- Estou bem. Não percam tempo.
Conversamos muito.
Mantive minha decisão.
Tudo ficou na mesma.
- Trecho de meu livro "Cheiros de Verão" escrito em Arraial do Cabo em 2001.
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