Chegou pelo correio.
Pelo jeito é coisa séria – pensei. Armas da República e, mais abaixo, Tribunal Regional Eleitoral.
Estava convocado para trabalhar nas eleições presidenciais de 3 de outubro de 1960, que além do presidente e vice-presidente do Brasil elegeria, pela primeira vez, o Governador do Estado da Guanabara.
Aliás, já prestara serviços ao Tribunal por ocasião de minha estréia como eleitor, quando fui mesário em minha própria seção, a de número 41 da 7ª Zona Eleitoral, instalada no Colégio Baptista. Naquela ocasião escolheríamos um senador e os deputados federais que representariam o Distrito Federal de então. Votei respectivamente em Afonso Arinos e Carlos Lacerda.
Com 41% dos votos Arinos derrotaria Lutero Vargas, filho de Getúlio e João Mangabeira, um socialista histórico.
Nesta eleição de 58, os deputados mais votados foram: Fernando Ferrari, um dissidente do P.T.B., no Rio Grande do Sul, Jânio Quadros, em São Paulo e Carlos Lacerda, no Distrito Federal.
A vitória do U.D.N. no Rio de Janeiro, até então tipicamente um partido da elite, deveu-se a uma “guinada populista” com a criação do “Caminhão do Povo” que visitava os subúrbios e subia favelas, muitas vezes sendo alvo de pedradas.
Agora, nova eleição.
Às sete horas em ponto daquele três de outubro de 1960, apresentei-me ao presidente de minha seção que de imediato nomeou-me secretário da mesa receptora.
Dava gosto ver o entusiasmo dos eleitores que mesmo infringindo as posturas eleitorais e em decorrência acarretando nossas advertências, declaravam os seus votos em Jânio e Lacerda numa demonstração explícita de mudanças.
Gastaram-se muitos dias para apuração dos votos, mas desde logo se verificava a estrondosa vitória de Jânio com a maior votação que um homem público recebera no Brasil até então: 5.636.623 votos.
Foi o primeiro presidente a tomar posse na nova capital, Brasília, no dia 31 de janeiro de 1961.
A carreira de Jânio foi uma sucessão de vitórias. Nascido em Campo Grande , Mato Grosso, em 25 de janeiro de 1917, graduou-se bacharel em direito exercendo a advocacia e o magistério até eleger-se, em 1947, vereador por São Paulo sob a legenda do P.D.C. – Partido Democrata Cristão.
Em 1950 elegeu-se Deputado Estadual, em 53, Prefeito de São Paulo e, em 54, Governador do Estado, com forte apoio popular baseado num programa rígido de moralização administrativa e contenção de despesas supérfluas.
Era deputado federal pelo Paraná enquanto preiteava a candidatura à Presidência o que finalmente conseguiu ao ser lançado oficialmente pelo pequeno P.T.N. – Partido Trabalhista Nacional.
Em 25 de agosto de 1961, aconteceu! Jânio renunciou ao mandato, fato até hoje sem uma explicação plausível, que levou o país a uma tremenda crise que, latu sensu, até hoje não foi resolvida.
Todos aqueles eleitores que com tanta fé compareceram às urnas sentiram-se traídos, incluso eu. Havíamos sido enganados, ludibriados, “embrulhados”...
Na época faziam sucesso umas balas cuja propaganda dizia: “Dulcora, embrulhadinhas uma a uma...”.
Passamos a ser chamados de eleitores “dulcora”, “embrulhadinhos um a um...”; pelo Jânio, naturalmente.
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