por José Carlos Coelho Leal

sábado, 22 de setembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 35 - UM SORRISO NO CANTO DA BOCA

                        

-         Pronto!
-         Leal?
-         Diga Heloísa,
-         Menino! Liga correndo na TV Globo. Nova York está sendo destruída!
-         Deixa de brincadeiras. Mal acordei...
-         Liga lá! É ao vivo. Estão bombardeando Nova York e parece que outras cidades também...
-         Não será lançamento de algum novo filme, algum clipe imbecil ou, então, não tem jeito: é a 3ª Guerra Mundial, ou quem sabe o Apocalipse!...
-         Liga lá. Depois a gente se fala. Tchau!
          Um tanto quanto incrédulo desci e liguei a televisão. Seria alguma brincadeira de minha cunhada?
          Logo na primeira imagem um avião completava uma curva e, sem nenhuma correção de rota, espatifa-se contra um prédio. Sem dúvida é Manhatan e o prédio parece um daqueles gêmeos.
Isso! World Trade Center.
-         Tania! Corre! Vem ver que coisa maluca...
-         Meu Deus! Isso é verdade?
-         Pra ser sincero até agora não entendi nada.
         Assim começava meu 11 de setembro se 2001. Um sonho, depois o suor, uma danada dor de cabeça, um espelho cruel e o telefone estridente.
         Agora, estas cenas inusitadas.
         Aos poucos fomos entendendo tudo que acontecia.
         Pavor, medo, incredulidade, apreensão, dúvida foram alguns dos sentimentos que se misturavam e embaralhavam os pensamentos.
         A coisa era para valer e o mundo teria que se acostumar com mais uma barbaridade que só o ser humano seria capaz de engendrar.
         E o futuro? Haveria futuro?...
         Mais algum tempo os dois edifícios, que em certo momento foram os mais altos do mundo, desabaram em meio a nuvens de poeira, fumaça e fogo.
         Não fazia quinze dias assistira um documentário no GNT a respeito do empreendimento empresarial do World Trade Center, do seu fracasso financeiro até ser encampado pelas Docas de Nova York e, finalmente inaugurado em abril de 1973 ao custo de 750 milhões de dólares. Para negócios foi aberto ao público somente em 1975.
         Também, por coincidência, lera na Revista “Isto É” algo sobre o Empire State Building. Tratava-se de uma longa matéria sob o título “Glamour aos 70” discorrendo a respeito dos 70 anos de vida do edifício que durante décadas conservou o charme de ser o maior “arranha-céu” do mundo.
         Ilustrando a matéria uma bela fotografia do aniversariante em primeiro plano e ao fundo a silhueta fatídica das torres.
         No meio do texto que se reportava a este gigante de concreto inaugurado em 1º de maio de 1931, uma surpresa, pelo menos para mim. O Empire State também sofrera, ao longo de sua existência, um drama absurdo e fantástico.
         Na manhã de 28 de julho de 1945, uma densa neblina fez com que o bombardeiro B–25 pilotado pelo tenente-coronel Willian Smith, depois de manobrar com pôde entre uma floresta de altos prédios, finalmente chocou-se contra as janelas 79º andar. Eram exatamente 9h50.
         Um dos motores do avião varou o prédio, de lado a lado, e foi cair na Rua 34. O outro motor despencou pelo poço de um dos elevadores.
         A gasolina derramou-se pelas paredes externas do prédio num incêndio de grandes proporções. Morreram os três tripulantes do avião e 11 ocupantes do andar.
         Cinqüenta e seis anos depois, isso!
         Quatro boeings partem de Boston carregados de passageiros desviados de suas rotas por “fundamentalistas islâmicos”, transformam- se em bombas terroristas.

         O resto do dia foi gasto em indagações, conjecturas cépticas e telefonemas nervosos.
         À noite já bem tarde, sentado sozinho na varanda, acompanhado apenas pelo negror da noite e do leve roçar das folhas atiçadas pela suave brisa que vinha do leste, pensava, pensava...
         Por que tudo isso?
         Depois de muito meditar, minha cabeça delirou: não será tudo obra da extrema-direita americana ou quem sabe, internacional, refém da ganância sem limites? Será só fanatismo muçulmano? E a política imperialista despudorada de Bush?
         Várias explicações, nenhuma completa. Onde estará a verdade? Certamente jamais o mundo a conhecerá em plenitude.
         Quando finalmente levantei-me, um derradeiro pensamento funesto passou-me pela cabeça: e a presunção do povo americano que se reveste de toda pompa de civilização dominadora, xenófoba e, numa arrogância revoltante, ignora o “resto” do mundo sem tomar conhecimento que grande parte da humanidade sofre?
         Os donos do mundo! Os norte-americanos são os donos do mundo? 
         Donos do mundo?...
         É, agora estão sofrendo suas amargas perdas, sentindo o medo corrosivo, a incerteza do amanhã, a falta de segurança e a sensação da morte a cada esquina... Igualzinho como sofre o terceiro e o quarto mundos...
         Pela primeira vez estão sentindo a crueldade de uma possível guerra em seu próprio território.
         Ruiu a “inexpugnável” cidadela!
         Se fosse possível um close no meu rosto acabrunhado não seria difícil constatar um leve sorriso no canto de minha boca.


         - Capítulo de meu livro “Cheiros da Vida” escrito em Arraial do Cabo, exatamente na na madrugada da noite de 11 para 12 de setembro de 2001.





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