A notícia, já era mais ou menos esperada. Há dias os jornais vinham publicando que agravara o estado de saúde do criador da folha-seca, o mestre Didi.
12 de maio de 2001 morre Waldir Pereira no Hospital Pedro Ernesto, em Vila Isabel.
Luto para o futebol mundial.
Em 16 de junho de 1949, jogando pela seleção carioca, Didi faria o primeiro gol da longa história do Estádio do Maracanã, num jogo em que os cariocas acabariam derrotados pela seleção de São Paulo por 3 a 1.
Em 1956 é contratado pelo meu Botafogo que passa a formar o maior time de sua história, onde além dele, brilhavam Nilton Santos, Garrincha, Zagalo, Quarentinha, Amarildo e muita gente boa mais. Valor da transferência: dois milhões de cruzeiros, uma fábula para a época. Daí, campeão em 57 e bicampeão em 61 e 62.
Apelidado por Nelson Rodrigues de “Príncipe Etíope” é dele, Didi, uma das famosas frases do folclore do futebol brasileiro: “treino é treino, jogo é jogo”.
Sua “folha-seca” foi criada num momento crucial para o futebol brasileiro que sofria dificuldades imensas para se classificar para o Mundial de 58. Num Maracanã lotado e perplexo diante do placar de zero a zero que tiraria o Brasil da Copa, o gol de Didi, em cobrança de falta, passou à história devido à trajetória incomum do chute inapelável.
Apesar do sufoco, o Brasil foi à Suécia.
Ainda na Copa de 58, outro momento antológico do mestre Didi. Esta cena vez por outra a televisão mostra, testemunhando a sua personalidade peculiar.
Grande final. A Suécia faz 1 a 0. Todos os fantasmas de 50 descem sobre 62 milhões de brasileiros.
Calmamente o “mestre” caminha até a baliza de Gilmar, levanta a rede para liberar a bola com o bico da chuteira ao mesmo tempo fazendo-a aninhar em seus braços.
Caminha sem pressa até o centro do campo com o “couro” apertado ao coração, espelhando otimismo.
- “Gente, esses gringos não são de nada. Cansei de ganhar deles jogando pelo Botafogo”.
A virada começou ali. Brasil 5 a 2 e finalmente, Campeão Mundial de Futebol.
Sem ele, nada de bi, tri, tetra...
Tempo da “SELEFOGO”, que me levava ao Maracanã com, ou sem “fossa”.
Apesar do timão do Botafogo, os “deuses do futebol” faziam-me sofrer contra o Vasco, mas, em compensação, davam-me alegrias memoráveis contra o Flamengo.
Naqueles tempos mais civilizados, cheguei ao Maracanã, sozinho, e pelo radinho de pilha escutei o apito do juiz dando início ao espetáculo. Aventurei-me na primeira entrada, e com alguma dificuldade consegui sentar entre flamenguistas. Afinal aquela era a área democrática do “meião-do-campo” e do “sol-na-cara”.
Ao meu lado um “negão” forte como um touro, não deixava dúvidas quanto às suas opiniões.
- Esse “Jordão” – assim ele chamava o lateral esquerdo Jordan – é o único, no mundo, que consegue marcar Garrincha... Olha só! Olha só! Já tirou a bola dele outra vez. Você sabe de uma coisa, Garrincha é um palhaço. Ginga, ginga e o Jordão sai com a bola dominada. Como é “bão” de ver...
Eu, quieto.
- “Virge Maria”, o “home” ta acabando com o Garincha. Jordão!
O primeiro tempo terminou zero a zero.
Enquanto sorvia um “chica-bom”, mão espalmada protegendo os olhos procurei em vão um espaço que abrigasse minha fuga do “negão” pouco oportuno.
Segundo tempo, e tudo igual.
- Garrincha! Vai “pra” Pau-Grande! Com Jordão, não dá pé!!!
O jogo já estava no finalzinho.
- Você “ta” vendo, “nosso” Jordão é demais! Não “dá pedal” pro Garrincha. Jordão!!!
Aquele “nosso” Jordão, dito com tanta certeza deixou-me preocupado e pensei: o “cara” está pensando que sou rubro-negro. Preciso tomar cuidado, pois o “bicho” é muito forte e poderá se zangar se eu disser alguma besteira, conforme a convicção dele é claro...
O jogo cada vez mais perto do fim.
Didi lança para Garrincha pela enésima vez.
A definitiva.
Balançou o corpo uma, duas vezes, deixou o Jordão sentado no gramado, esperou a saída do Garcia e tocou de leve para a rede.
- GOOOOOL! GOOOOOL!... – eu gritava e pulava, cheio de felicidade.
Aí, lembrei-me do “negão”.
Senti um friozinho correr na espinha e sentei-me de imediato.
Na verdade, pavor!!!
Olhei para um lado, para o outro...
O “negão” havia sumido.
Graças a Deus...
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo aolongo do primeiro ano do Século Vinte e Um
Nenhum comentário:
Postar um comentário