por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

'CHEIROS DA VIDA" - Nº 26 - ESTOU AMANDO!!! ESTOU AMANDO NOVAMENTE!!!

           

                            De repente, Suely voltou:
-         Não é bom sair agora! Espera um pouco, pois o pessoal do “trampolim” (*) está querendo “pegar” um “carioca” que aprontou na festa. Muito cuidado que esses rapazes não valem grande coisa...
-         Fica tranqüila...
-         Estou preocupada com você.
-         Vou me cuidar.
-         Liga-me amanhã. Às três. 6798. Até amanhã...
-         Até amanhã.
          No último gesto de adeus, não esquecera de levar, antes, os dedos unidos junto aos seus lábios.
Por alguns instantes, senti o descompasso de meu coração.
Sem pressa fui até a mesa de meus amigos. Dava-me prazer àquelas feições interrogativas e invejosas.
Calmamente, sorvi o resto de uma detestável “cuba-libre” que Fadini abandonara.
Silêncio...
Mais um gole, cheio de soberba.
-         Leleco se deu bem!
-         Lealzinho, conta pra gente!
-        Pouco há a contar. Simplesmente a menina é linda, simpática, educada e está caidinha pelo “papai-aqui”. Até já me apresentou à suas amigas. Aliás, ela tem duas irmãs e dois irmãos, um ainda pequeno e outro que está ou vai para o seminário. Há uma irmã mais velha que está noiva; essa não estava aqui na festa e a outra é igualmente uma simpatia. Seus nomes...
-         Chega de história! Vamos embora que estou cansado e no domingo tenho CPOR – interrompeu Fadini.
-         Puxa vida! Vocês não acreditam em amor à primeira vista?
-         Essa festa foi um “saco”, arrematou o Beco.
-         É, mas você foi o primeiro a dizer que a garota era um piteuzinho. Agora, fica ai querendo “bagunçar o meu coreto”.
-         Contanto que você não “quebre a cara” e se afunda na fossa outra vez, tudo bem...
-         Que é isso Beco! Não estraga a felicidade do “menino”.
-         Vocês estão é com uma baita inveja, isto sim.
Na porta do Clube ainda tivemos tempo de ver os últimos lances da agressão covarde ao “carioca” que, caído no chão, levava uma saraivada de pontapés. Com a chegada da polícia, tudo serenou.
-         Espero que o Jorge não demore, preciso descansar, pois amanhã estarei aqui de novo para namorar a Suely...
-         Detalhes?
-         Isso não interessa para vocês.
A barca Terceira (*) nos trouxe lentamente ao Rio. Quase deitado no convés. Em sua proa, ouvia sonolento e seguramente feliz, a ronronar da grande roda. A forte maresia não incomodava nem um pouco. Longe iam ficando meus pensamentos junto com as luzes da velha Niterói.
6798 esses eram os números que não podia esquecer...
Eram lindos os primeiros raios do alvorecer.
E pensar que quase não aceitei o convite do Jorge.
Quando a barca começava as operações de atracação, aí então reparei os olhares de reprovação dos trabalhadores, alguns descalços, outros semi-esfarrapados que se deparavam com aqueles quatro “filhinhos-de-papai” de smoking.
Vida injusta!
Minha vontade era abraçar a todos eles, pedir-lhes desculpas por aquela injustiça social e arrematar bem alto: Estou amando! Estou amando!...
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(*) – Trampolim: construído entre 1936 e 1937 era uma grande estrutura em concreto armado ocupando o meio da praia. Projetado pelo Arquiteto Luis Fossati, foi dinamitado em 1964 por oferecer perigo aos banhistas.
            (*) – A barca “Terceira” foi a última do estilo Ferry a desaparecer do cenário da Guanabara, em outubro de 1967. Essas barcas, a “Primeira”, a “Segunda” e a “Terceira” tinham duas proas e eram tracionadas por meio de rodas centrais, levando 300 passageiros, mais cargas e até veículos.
Sua desativação seria decorrência do desaparecimento do dilema túnel ou ponte para fazer a ligação entre Rio e Niterói. Em 29 de dezembro de 1965 era criada a comissão executiva para o estudo do projeto definitivo para a construção de uma ponte.
A ponte Rio - Niterói foi inaugurada em 4 de março de 1974.


                - Trecho do me livro "Cheiros  da Vida" escrito em 2001 em Arraial do Cabo

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