Já passava do meio-dia quando acordei.
A primeira coisa que pensei foi num telefone. Precisava urgentemente de um telefone e mais, para fazer uma ligação interurbana.
Por que as coisas têm que ser sempre complicadas?
E as palavras do Carlos Alberto?
Esqueça! Ninguém vai “quebrar a cara” e nada de “fossa”...
Antes das cinco já estava atravessando a Baia novamente, agora numa Frota Barreto. A pequenina balançava que era um horror, mas logo chegaria à Praça do Araribóia.
- Não via a hora de te ver de novo.
- Eu também.
- Ontem quando conversamos na varando do clube. Você foi tão natural, tão espontânea que parecia até já me conhecer.
- E já conhecia mesmo. Sou muito amiga da Ângela. As vezes batemos longos papos com o Jorge que sempre falou de você, do clube que fundaram, de seus alunos, do seu trabalho.
Passeamos pela calçada quase deserta de sua rua. Depois sentamos numas cadeiras de ferro com almofadas bem macias no avarandado da casa. Quase instintivamente olhei para cima. Que bom! As coisas estavam mudando, pois não havia lustre para cair sobre nossas cabeças...
- E você?
- Estou terminando o curso científico no Colégio São Vicente. Meu tempo é preenchido com um monte de atividades e ainda cuido de uma velhinha. Toda semana dou atenção a ela, compro remédios, essas coisas.
Enquanto falava, apreciava sua pele clara, seus traços suaves, seu porte altivo. Seus cabelos eram fartos e negros, como escuros e brilhantes eram seus olhos.
Estava irremediavelmente apaixonado e tinha certeza que ela também. Nunca senti algo com tanta certeza e com tal intensidade.
A brisa até então agradável, virou vento, virou vento-forte, virou chuva, muita chuva.
Impossível continuar ali. Entramos.
Conheci, logo de uma vez, grande parte da família. Sentia os olhares sobre mim e deu-me uma vontade imensa de sair correndo.
Agora, a rua estava cheia d’água e desse jeito não podia ir embora.
Lanchamos ou fizemos algo parecido, não lembro tal a preocupação que estava sentindo.
As horas passavam e eu preso na intimidade da casa da minha namorada que havia conhecido há pouco mais de 24 horas.
Eram quase duas da manhã quando alguém disse que as águas haviam baixado.
- Tchau! Vou aproveitar a estiagem. No meio da semana te ligo...
- Liga amanhã!
Mal virei a esquina, aproximei-me dum poste de luz e na rua deserta procurei contar quanto tinha em dinheiro. Certamente dava para um táxi.
Cheguei a casa, já passava muito das três.
Dona Tininha cantou toda sua ladainha, enchendo meus ouvidos. Mas a voz que ouvia era outra: doce, meiga e cheia de promessas.
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