por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 38 - OS REFUGIADOS

                        
          Em 2001 já vivem em nosso planeta mais de 6,1 bilhões de pessoas.
          Em 1961 éramos a metade.
          O incremento da população mundial tem sofrido significativas alterações, causadas pela queda das taxas de natalidade, pelo aumento da expectativa de vida e pelas correntes migratórias em busca de melhores condições de sobrevivência e segurança pessoal.
          Em alguns países do primeiro mundo tem ocorrido o risco de diminuição da população. A União Européia acaba de lançar campanha incentivando as mulheres dos 14 países do bloco a terem mais filhos.
Mas o importante é que após o término da Guerra Fria a situação mundial começou a mudar, principalmente agora com os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono.
          Pela primeira vez na história a mais poderosa nação do mundo viu-se diante de um oponente sem bandeira, território definido nem forças armadas organizadas. O terrorismo internacional marca o início de uma nova era. Diplomacia, conceitos de defesa e alianças internacionais terão que ser revistos.
         O cenário do pós- Guerra Fria se caracteriza pela redução dos conflitos entre estados soberanos. Em contrapartida ampliam-se as guerras internas principalmente nos países do Leste Europeu e na África.
A conseqüência mais visível deste estado de coisas é o crescimento do número de refugiados que chega a 21,1 milhões no início deste 2001 e tende a crescer vertiginosamente nos próximos anos.
         O mundo atônito vê a proliferação das guerrilhas sempre buscando financiamento para a luta armada no tráfico de drogas e pedras preciosas, só para citar dois exemplos.
         Aqui mesmo na nossa América do Sul a Farc - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e o ELN - Exército de Libertação Nacional mantém um conflito financiado com recursos provenientes do tráfico de cocaína e de seqüestro de civis.
         No Afeganistão, o governo do Talibã lança mão de um imposto de guerra cobrado dos plantadores e comerciantes de ópio e heroína.
         Em Angola, Serra Leoa e República Democrática do Congo os diversos grupos rebeldes tem sua receita apoiada na venda de diamantes extraídos das minas que mantêm sob controle.
        As armas sofisticadas são abandonadas são substituídas em larga escala pelas minas terrestres muito mais baratas – cada unidade custa entre 3 e 30 dólares. Sua larga disseminação pelo mundo criou nas zonas de guerra um pesadelo para as populações civis.
        Estima-se que mais de 110 milhões dessas minas estejam espalhadas pelo solo do planeta principalmente na África (Angola, Egito, Moçambique, Somália, Sudão), na Europa (Bósnia-Herzegóvina, Croácia, Ucrânia) e Ásia (Irã, Iraque, Afeganistão, China, Camboja, Vietnã). Esses artefatos já mataram ou mutilaram mais de 1 milhão de pessoas.
        Apesar do fim dos conflitos em muitas destas localidades estas minas ainda farão muitas vítimas por causa do alto custo de suas desativações algo próximo de mil dólares por unidade.
Mas por que todas essas coisas vêm à minha cabeça?
        Recordo de minha vila, de minha infância. Vou ao encontro de meus amigos refugiados que em bom número dividiam conosco aquele convívio saudável. Todos muito bem recebidos em nossa terra. Recordo-me dos meus companheiros Arne, Birgitt, Tatiana, Christel.
        Crescemos juntos e juntos, sem querer, mostramos ao mundo que o ser humano é uma obra mágica da criação. Como crianças pouco importavam nossas origens diversas, valíamos pelo companheirismo e amizade que cultivávamos no dia a dia.

        - Trecho do livro "Cheiros da Vida" escit  em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001.





quarta-feira, 26 de setembro de 2012

"CHEIROS DE VERÃO" - Nº 37 - NOUVELLE VAGUE

              

         Aos poucos fui perdendo o controle da situação e já na quarta pela manhã não estava tão certo de minhas convicções. Porém uma diretiva achava que teria forças para seguir.
         Essa é a opção mais sensata. Tinha que ser..
         Estava determinado a dar um tempo. Nenhuma decisão tomaria açodadamente. Teria que agir com muita cautela, ouvir o que a “menina” teria a dizer e se possível falar pouco.
         No caminho para o Catete não pude disfarçar que meu “ego” havia sido majestosamente massageado.
         Que perda de controle qual nada.
         Estava bem, muito bem.
         Por um momento pensei no surrealismo do fato: um encontro para tratar das coisas do sentimento num hospital. Parecia roteiro de cinema francês, nouvelle vague talvez...
Afinal são dores do coração... Faz sentido.
         O elevador lento e resfolegante parou e as grades pantográficas, envelhecidas pelo tempo, rangeram ao se abrir. A luz era pouca, mas suficiente para ver que alguém estava ao fundo, Tânia.
Foi inevitável a aproximação e na intimidade exclusiva desfrutada naqueles poucos segundos em que a tralha se deslocava permitiu que nossos olhos se fixassem.
         Logo ela baixou os seus e pude ver na maciez de seu rosto e na palidez dos lábios que tremiam muito, a súbita emoção que a arrebatava. Depois de quanto tempo podia de novo olhar sem pressa aquele rostinho tão querido.
-         Oh! Leal.  Pontualidade britânica. Que bom você ter vindo.
-         A senhora está muito bem, Tia Nilda.
-         Tudo correu bem e ainda mais agora que estou com esta linda enfermeirinha, a minha Taninha. Onde vocês se encontraram?
-         No elevador, apressou-se Tânia. Tinha ido à capela rezar um pouquinho.
-         Foi rezar por sua tia ou por outro motivo? Hein, minha sobrinha?
          Novamente seus olhos baixaram e um rubor tímido tingiu sua pela clara.
-         Vocês têm muito a conversar. Lá embaixo há um belo jardim e uns bancos acolhedores. Não façam cerimônia.
-         Mas, Tia Nilda!
-         Estou bem. Não percam tempo.

          Conversamos muito.
          Mantive minha decisão.
         Tudo ficou na mesma.

          - Trecho de meu livro "Cheiros de Verão" escrito em Arraial do Cabo em 2001.
   










terça-feira, 25 de setembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 36 - SÓ ME FALTAVA ESSA

               


               Não eram “torres gêmeas” caindo por ação terrorista, mas levei um susto daqueles.
Certo dia recebo um recado urgente, daqueles de deixar qualquer mortal com a “pulga atrás da orelha”.
-         Tia Nilda precisa muito falar com você. Pediu para marcar data e hora para ir até lá conversar com ela – disse de chofre, com ares zombeteiros, o velhaco Jorge.
-         Como é?
-         Isso mesmo que lhe falei. Quer conversar com você e, com urgência.
-         Que diabos ela quer comigo?
-         Isso e problema que não me diz respeito. Assunto sigiloso.
Pela expressão do maroto estava “na cara” que sabia do que se tratava. Pelo menos de alguma coisa, sabia.
-         Fala aí! Qual é o assunto da conversa? Fala porra!
-         Calma cara. Já disse que não sei.
-         Com essa cara de cachorro-que-lambeu-panela, sabe, e muito! – explodi já meio irritado com a cara de cínico do Jorge.
-         Não sei! Leal você parece maluco!
-         Tudo bem. Só posso no domingo pela manhã, quem sabe às 10? À tarde tenho que estar em Niterói. Vai fazer uma semana que não vejo minha prenda. Estou trabalhando demais inclusive neste sábado...
-         Tudo bem! Domingo às dez. Ela vai ficar contente.
-         Contente?
-         Sei lá! Domingo, às dez.
-         Estarei lá.
-         À tarde iremos juntos para Niterói. Tenho que ver minha Ângela também...
-         Tchau!
Os poucos dias que me separavam do domingo, passei-os conjeturando com meus botões. Tia Nilda? Conversar comigo? Assunto sigiloso? Vai ficar contente?
É não tem jeito. É esperar para ver. Tudo muito estranho.
Finalmente chegou o domingo ensolarado e alegre, cheio de promessas. Estou morto de saudades da minha Sizinha. Mas compromissos são compromissos. Vamos lá ver qual o assunto sigiloso de Tia Nilda.
Coloquei uma roupinha decente, o melhor sapato que Dona Tininha deixava sempre brilhando e, lá fui para Sabóia Lima, 23.
Fui recebido com pompas e circunstâncias com direito a chá com biscoitinhos finos servidos em louça de porcelana.
-         Leal! Foi bom você ter vindo.
-         Bom dia Tia Nilda. Como vão Tio Avaro e os meninos.
-         Todos bem graças ao Bom Deus. Não tenho visto sua mãe. Ela vai bem.
-         A senhora sabe... Ela sai pouco, sempre cuidando das coisas de casa mesmo agora que meus irmãos já casaram, e a casa está mais vazia, não encontra tempo para nada.
-         Eu entendo...
Essa conversinha para-boi-dormir se prolongou por mais tempo que minha curiosidade permitia. Finalmente...
-         Leal! Eu o chamei aqui porque o assunto a tratar é muito importante. Pelo menos para min e para Taninha...
-         Para Tânia?
-         Isso mesmo.
Ah, meu Deus! Será que vai começar tudo de novo?
-         Não estou entendendo?
-         É muito simples. A Taninha está gostando muito de você; como conheço sua atual namorada lá de Niterói e vejo que é muito bonita, simpática e educada; estou achando que minha sobrinha corre grade risco de perder esta parada...
-         Continuo não entendendo, Tia Nilda?
-         Está entendendo sim. A Taninha esta gostando de você e quero ajuda-la de algum modo antes que seja tarde demais.
-         Acho que é tarde demais – falei secamente, cheio de empáfia e uma pontinha de espírito vingativo,
-         Quem sabe não é. Vocês precisam conversar...
-         Mas Tia Nilda por quase dois anos foi isso que eu quis, e a presunçosa da dona Tânia, nada. Agora que estou bem, a senhora diz que ela está gostando de mim? Isso me deixa tonto...
-         Quem sabe você ainda gosta dela?
-         Estou namorando firme, Tia Nilda.
-         Você vai dar essa oportunidade à Taninha. Quem sabe o destino de vocês não será passar a vida juntinhos?
-         Mas...
-         Não tem mais, nem menos. Esta semana vou me internar na Beneficência Portuguesa para uma pequena intervenção cirúrgica. Coisa pouca. Na quarta-feira já estarei bem. Você irá me visitar.
-         Lá no Catete?
-         Isso. A Taninha vai estar lá também. Vocês arranjarão um cantinho no jardim, e terão bastante tempo para conversar longe de tudo e de todos.
Só me faltava essa!

           - Excerto do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo ao longo do  ano de 2001







sábado, 22 de setembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 35 - UM SORRISO NO CANTO DA BOCA

                        

-         Pronto!
-         Leal?
-         Diga Heloísa,
-         Menino! Liga correndo na TV Globo. Nova York está sendo destruída!
-         Deixa de brincadeiras. Mal acordei...
-         Liga lá! É ao vivo. Estão bombardeando Nova York e parece que outras cidades também...
-         Não será lançamento de algum novo filme, algum clipe imbecil ou, então, não tem jeito: é a 3ª Guerra Mundial, ou quem sabe o Apocalipse!...
-         Liga lá. Depois a gente se fala. Tchau!
          Um tanto quanto incrédulo desci e liguei a televisão. Seria alguma brincadeira de minha cunhada?
          Logo na primeira imagem um avião completava uma curva e, sem nenhuma correção de rota, espatifa-se contra um prédio. Sem dúvida é Manhatan e o prédio parece um daqueles gêmeos.
Isso! World Trade Center.
-         Tania! Corre! Vem ver que coisa maluca...
-         Meu Deus! Isso é verdade?
-         Pra ser sincero até agora não entendi nada.
         Assim começava meu 11 de setembro se 2001. Um sonho, depois o suor, uma danada dor de cabeça, um espelho cruel e o telefone estridente.
         Agora, estas cenas inusitadas.
         Aos poucos fomos entendendo tudo que acontecia.
         Pavor, medo, incredulidade, apreensão, dúvida foram alguns dos sentimentos que se misturavam e embaralhavam os pensamentos.
         A coisa era para valer e o mundo teria que se acostumar com mais uma barbaridade que só o ser humano seria capaz de engendrar.
         E o futuro? Haveria futuro?...
         Mais algum tempo os dois edifícios, que em certo momento foram os mais altos do mundo, desabaram em meio a nuvens de poeira, fumaça e fogo.
         Não fazia quinze dias assistira um documentário no GNT a respeito do empreendimento empresarial do World Trade Center, do seu fracasso financeiro até ser encampado pelas Docas de Nova York e, finalmente inaugurado em abril de 1973 ao custo de 750 milhões de dólares. Para negócios foi aberto ao público somente em 1975.
         Também, por coincidência, lera na Revista “Isto É” algo sobre o Empire State Building. Tratava-se de uma longa matéria sob o título “Glamour aos 70” discorrendo a respeito dos 70 anos de vida do edifício que durante décadas conservou o charme de ser o maior “arranha-céu” do mundo.
         Ilustrando a matéria uma bela fotografia do aniversariante em primeiro plano e ao fundo a silhueta fatídica das torres.
         No meio do texto que se reportava a este gigante de concreto inaugurado em 1º de maio de 1931, uma surpresa, pelo menos para mim. O Empire State também sofrera, ao longo de sua existência, um drama absurdo e fantástico.
         Na manhã de 28 de julho de 1945, uma densa neblina fez com que o bombardeiro B–25 pilotado pelo tenente-coronel Willian Smith, depois de manobrar com pôde entre uma floresta de altos prédios, finalmente chocou-se contra as janelas 79º andar. Eram exatamente 9h50.
         Um dos motores do avião varou o prédio, de lado a lado, e foi cair na Rua 34. O outro motor despencou pelo poço de um dos elevadores.
         A gasolina derramou-se pelas paredes externas do prédio num incêndio de grandes proporções. Morreram os três tripulantes do avião e 11 ocupantes do andar.
         Cinqüenta e seis anos depois, isso!
         Quatro boeings partem de Boston carregados de passageiros desviados de suas rotas por “fundamentalistas islâmicos”, transformam- se em bombas terroristas.

         O resto do dia foi gasto em indagações, conjecturas cépticas e telefonemas nervosos.
         À noite já bem tarde, sentado sozinho na varanda, acompanhado apenas pelo negror da noite e do leve roçar das folhas atiçadas pela suave brisa que vinha do leste, pensava, pensava...
         Por que tudo isso?
         Depois de muito meditar, minha cabeça delirou: não será tudo obra da extrema-direita americana ou quem sabe, internacional, refém da ganância sem limites? Será só fanatismo muçulmano? E a política imperialista despudorada de Bush?
         Várias explicações, nenhuma completa. Onde estará a verdade? Certamente jamais o mundo a conhecerá em plenitude.
         Quando finalmente levantei-me, um derradeiro pensamento funesto passou-me pela cabeça: e a presunção do povo americano que se reveste de toda pompa de civilização dominadora, xenófoba e, numa arrogância revoltante, ignora o “resto” do mundo sem tomar conhecimento que grande parte da humanidade sofre?
         Os donos do mundo! Os norte-americanos são os donos do mundo? 
         Donos do mundo?...
         É, agora estão sofrendo suas amargas perdas, sentindo o medo corrosivo, a incerteza do amanhã, a falta de segurança e a sensação da morte a cada esquina... Igualzinho como sofre o terceiro e o quarto mundos...
         Pela primeira vez estão sentindo a crueldade de uma possível guerra em seu próprio território.
         Ruiu a “inexpugnável” cidadela!
         Se fosse possível um close no meu rosto acabrunhado não seria difícil constatar um leve sorriso no canto de minha boca.


         - Capítulo de meu livro “Cheiros da Vida” escrito em Arraial do Cabo, exatamente na na madrugada da noite de 11 para 12 de setembro de 2001.





"CHEIROS DA VIDA"" - Nº 34 - A DOR DE CABEÇA

                  

          Acordo.
          Suo muito e a cabeça dói; uma rotina nos últimos tempos. Neste setembro de 2001 com dias de muito vento e temperaturas amenas nada justifica esse suar exagerado.
          Onde estou?
          Rio, ou Arraial?
          O som familiar, mas um tanto quanto desagradável, atravessou a grossa porta de madeira: “... aqui é bem melhor!...”.
          Não há dúvida: estou em Arraial e este é o sinistro carro de som do Supermercado Esperança trombeteando mais uma longa lista de ofertas, como faz todas as manhãs, trouxe-me à realidade.
Respirei fundo. Já quase 10. Coisa de malandro aposentado levantar a essas horas.
          Verdade consumada: “malandro profissional”, com aval do Supremo Tribunal Federal que por unanimidade deu ganho de causa à minha pretensão de aposentadoria integral. Muito justo após 42 anos de muitas labutas e de uma férrea obediência às minhas obrigações profissionais.
          É Seu Zé, quanto a isso, parabéns.
          Mas o fato é que acordei com dor de cabeça e muito suado.
          Ao olhar minha cara no espelho do banheiro não fico nada entusiasmado com o que o que vejo.             Diante de mim a testemunha do tempo que passou...
         Agora lembro com certeza: meu rosto está bem diferente daquele do sonho que me embalara até alguns minutos atrás.
         Mão apoiada no vértice do braço dobrado de papai subia a passos largos a Rua Desembargador Izidro. Devia ter oito, no máximo nove anos. A cabeça doía como era costume toda vez que saía para a cidade, talvez conseqüência do cheiro de óleo que exalava das descargas dos ônibus, mais a poeira, o tumulto de muita gente apressada ou algo assim. O certo era: sempre que saía para mais longe voltava com a cabeça quase estourando.
         Agora pisávamos as largas pedras capistranas que compunham a calçada defronte à garagem dos ônibus da Light (*).
         As grades de ferro embasadas num esmerado muro de cantaria trabalhada, separavam da rua as instalações que abrigavam, reparavam e higienizavam os tradicionais ônibus-cinza.
-         Pai! Para que serve aquele grande bacia lá no alto daquela torre?
-         É um castelo-d’água, respondeu de pronto Seu César.
-         Ah! Sim, respondi – evidentemente sem nada entender.
          Agora lembro. Foi nesse exato momento que acordei. A dor de cabeça era de verdade e uma saudade imensa fez com que me demorasse mais alguns instantes diante do espelho.
          A minha imagem aos poucos se confundia com a de papai...
          O telefone estridente fez-me voltar à realidade.




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(*) – Esta calçada resistiu ao tempo e ainda existe; o que era uma garagem hoje pertence ao Tijuca Tênis Clube.
Ainda outro dia quando andava acelerado na minha luta diária para manter-me vivo em razoáveis condições de temperatura e pressão, pisei firme naquele lajeado resistente e lembrei-me das várias vezes que por ali passei com papai, num andar cuja cadência era marcada por um compasso acelerado.
Meu sonho certamente foi conseqüência das longas meditações que faço durante minhas obrigatórias andanças.
Andar faz pensar, digo sem nenhuma dúvida. 


           - Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001 na Cidade de Arraial do Cabo


"CHEIROS DA VIDA" - Nº 33 - O NAUFRÁGIO


 

         As travessias pela Baía da Guanabara faziam-me bem; afinal constavam do ritual de um amor que crescia sem cessar.
Estava feliz. Meu namoro ia de vento em popa, como a brisa suave que transformava em doce acalanto o balançar modorrento da embarcação.
         Longe vagavam meus pensamentos, a vida, o amor, o futuro...
De certo havia dias em que a natureza emburrada deixava o vento forte e as ondas descabeladas. Nestas horas apertava meu terço de Nossa Senhora e meu Escapulário que levava com zelo no bolso da calça, hábito adquirido desde o ginásio e que mantenho até hoje com meus 62 já às portas.
         Lembro bem. Era um sábado enferrujado e frio.
         Passava das seis, quando no fim de uma desabalada carreira consegui embarcar numa lancha da Frota Barreto, muito cheia para aquela hora e para aquele dia.
         E lá fomos nós rumo a Niterói, a “Cidade Sorriso”.
         Com muito custo consegui um lugarzinho junto à proa no andar inferior cujo piso ficava abaixo da linha d’água.
         Navegamos com tranqüilidade por cinco minutos, no máximo.     
         Depois, uma agonia só.
         Pesadelo no lugar de acalanto e pensamentos soturnos ao invés de vida, amor e futuro. Não tinha jeito, a “coisa” ia virar...
         Não foi dessa, da próxima não escapa...
         O corpo já doído parecia reclamar de horas de viagem mal passado um mísero quarto de hora. Subitamente, o motor parou.       
         Agora é rezar e esperar o fundo do mar...
         Voltou o motor.
         Agora, a cada  intervalo ritmado dos jatos d’águas a enxaguar as escotilhas dava para ver algo como luzes de uma cidade cada vez mais perto.
         Uma, duas e volta à ré a toda força... Terceira, Quarta... Finalmente na quinta tentativa a valente Barreto conseguiu atracar.
         No píer as mãos fortes dos marinheiros nos ajudavam a abandonar o inferno.
         Em poucos minutos tudo estava esquecido e as delícias do amor fizeram desaparecer as nuvens carregadas e somente as estrelas foram testemunhas do cheiro de terra molhada em cumplicidade explicita... 

        - Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001 na Cidade de Arraial do Cabo

'CHEIROS DA VIDA" - Nº 32 - A CORRIDA ESPACIAL

               

         O mundo vê com certa angústia e perplexidade a supremacia cada vez maior dos Estados Unidos sobre as demais nações do mundo.
         A vitória discutível, para não dizer imoral, de George W. Bush nas últimas eleições presidenciais deu à direita americana um poder jamais imaginado. Seu domínio político e econômico não deixa a salvo nenhuma soberania.
         No entanto, as coisas nem sempre foram assim, pelo menos naqueles primeiros anos da década de sessenta.
         A Guerra Fria envolvia num duelo surdo pela supremacia econômica e política do mundo, Estados Unidos e União Soviética que, a bem da verdade, levava confortável vantagem na disputa.
O Muro de Berlim, a aproximação de Cuba à órbita comunista e, sobretudo a imensa desvantagem na corrida espacial deixava a América do Norte numa posição desfavorável onde todo esforço nacional deveria ser concentrado em superar obstáculos de monta.
          “Eu vejo a Terra. Ela é azul”. Depois de 108 minutos a nave Vostok I completava uma volta de 40 mil quilômetros a uma velocidade de 28.800 km/h ao redor do globo e pousava tranqüilamente. “Eu vejo a Terra. Ela é azul” disse emocionado Yuri Gagarin, o herói da humanidade naqueles dias de abril de 1961.
           Finalmente fora colocada na órbita circunterrestre a primeira nave-satélite pilotada e o astronauta, palavra que começava a tomar forma nos dicionários de todo o mundo, era um cidadão soviético.
Meu pai ficou seriamente preocupado, afinal era uma vitória do regime da “cortina de ferro” e para ele, assim como para a maioria da classe média brasileira isso não era bom. Eu também pensava assim.
           O Presidente Kennedy convocou a nação e toda comunidade científica do país para tarefa de recuperar o terreno perdido e alcançar a lua antes do final da década. Um sonho!
Interessante. Em 1870 após publicar o livro “Da Terra à Lua”, o famoso escritor francês Júlio Verne afirmou que não passaria um século antes que o homem de carne e osso repetisse a formidável façanha conseguida por seus personagens: a conquista da lua.
            Nosso mago errou por apenas um ano: em 20 de julho de 1969 o Módulo Lunar Águia, da nave Apollo 11, pousava suavemente no mar da Tranqüilidade. Neil Armstrong deu fim à corrida espacial entrando solenemente para a história do Século XX.
           “Um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a Humanidade”, exclamou Armstrong. Um passo que até o hoje os Estados Unidos não completou...
            Acabou-se a Guerra Fria, a União Soviética desintegrou-se até a história foi dita como finda.
            A Humanidade entre preocupada, humilhada e até certo ponto inerte rende, desde então, vassalagem aos novos donos de seus destinos.
            Até quando?


            -  Trecho do livro Cheiros da Vida escrito em Arraial do Cabo em 2001





quinta-feira, 20 de setembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 31 - COM O PERDÃO DE DEUS

         

“Um cinema morre não tanto pela especulação imobiliária, mas pela deterioração urbana da vizinhança. Ao morrer, promove o aceleramento dessa deterioração. O espaço hoje, vazio e lúgubre, pertence tacitamente aos assaltantes, serenos e absolutos no terreno conquistado, à espreita das vítimas desavisadas que ousem sair às ruas depois das sete da noite.
Cinemas de rua são o termômetro mais preciso para se medir a saúde de um bairro. Isso vale para qualquer cidade do mundo. São os cinemas de rua que servem de centro gravitacional para a população e que indicam onde há vida fora dos casulos de shoppings que ingenuamente construímos para nos proteger...” – Nelson Hoineff – Os cinemas morrem como as cidades. (Jornal do Brasil, 1992)


Foi um espanto!
Era domingo.
Faz poucas semanas, não passava das 9 da noite, fui até a Praça Saens Peña comprar umas revistas na velha banca tradicional que fica em frente às lojas da C&A (antigo Cinema Metro-Tijuca)
Parecia que uma peste mortífera tinha invadido a cidade. Vivalma na rua.
Lembrei-me então de décadas passadas, não muitas na verdade, quando há essas horas os jatos matizados das águas dançantes do lago misturavam-se aos letreiros dos cinemas e os reclames coloridos em neon.
As pessoas que encompridavam as filas, os casais sem pressa, as famílias retornando de um passeio arrastando crianças sonolentas em busca de condução, tudo se confundia num burburinho de vozes e risos somados ao aroma da pipoca quentinha, do cachorro-quente bem temperado e das luzes brilhantes e trêmulas das carrocinhas de churros, pipocas ou de algodão-doce.
Uma festa!
A febre epidêmica dos shoppings ainda não havia contaminado a cidade, a tv era alternativa para poucos e a internet coisa de não se imaginar.
A violência vista apenas nos filmes de bang-bang nem de longe atemorizava as pessoas ficando restrita aos antros da malandragem e, os furtos, obras de artistas refinados, ocupavam mirrados espaços nas páginas internas dos jornais que cobriam o dia-a-dia da cidade. Histórias legendárias dos famosos batedores-de-carteiras.
As confeitarias e os cafés estavam sempre cheios.
Os cinemas ofereciam sessões às 14, 16, 18, 20 e 22 horas, todos os dias e aos sábados vários deles acrescentavam uma sessão à meia-noite, normalmente uma avant-première.
Só para refrescar a memória funcionavam na Praça Saens Peña, na década de sessenta, os seguintes cinemas: América (1.066 lugares), Carioca (1.119 lugares), Tijuca, carinhosamente apelidado de Tijuquinha (679 lugares), Metro-Tijuca (1.785 lugares), Art-Palácio Tijuca (1.569 lugares), Eskye (1.702 lugares), Bruni Saenz Peña (560 lugares), Rio (1.140 lugares), Tijuca-Palace (1.279 lugares), Bruni Tijuca (497 lugares), Santo Afonso (437 lugares), Britânia (290 lugares) e, o maior de todos, maior do Rio de Janeiro, Cinema Olinda com 3.158 lugares.
Quinze mil assentos em cinco sessões diárias, ou seja, 75.000 pessoas poderiam se divertir na Praça Saenz Peña todos os dias da semana.
Tudo isso acabou. Onde era o Olinda, hoje temos o “Shopping 45”, no lugar do Metro a “C&A”, “Magazine Leader ao invés de Art-Palácio e “Casa e Vídeo” abandonou o Eskye.
O América cujo prédio primitivo, inaugurado em junho de 1918 como Cine-Teatro América, obra prima polêmica do arquiteto italiano Antonio Virzi, em forma de um pagode chinês, tornou-se uma prosaica “Drogaria Pacheco”. O Cinema Rio travestiu-se de Caixa Econômica Federal.
O Tijuquinha no nº 346 da Rua Conde de Bonfim deu lugar ao prédio que abriga a Shopping Vitrine da Tijuca,  enquanto o Santo Afonso, apesar de toda influência religiosa, sucumbia ao capitalismo selvagem convertendo-se num vulgar Supermercado Mundial.
Por derradeiro, o mais deprimente: o Carioca que é tombado pelo Patrimônio segue a triste sina de uma enganosa igreja caça-níqueis, a Universal do Reino de Deus.
Que Deus Todo Misericordioso perdoe...

- Excerto do livro "Cheiros da Vida" escrito em Arraial do Cabo em 2001








quarta-feira, 19 de setembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 30 - A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA


Rápido dezembro chegou.
Parecia que tinha corrigido meu rumo. As coisas voltavam a me empolgar. Os desafios do dia-a-dia, o trabalho, os estudos, os amigos retomavam os seus espaços e com gosto e entusiasmo os acolhia com vontade.
Um amor! Um amor do jeito que eu sempre sonhara invadia a minha vida sem cerimônia, enredos ou recatos. Simples, natural e envolvente, alicerçado pela tranqüilidade da desafetação e pleno sinceridade. Sentia assim.
O encantamento crescia na mesma medida que conhecia Suely. Quanto juntos sentia-me novamente confiante. Seus lindos olhos negros estavam sempre em mim e parecia que o mundo desaparecia em nossa volta.
-         Um convite?
-         Isso. Abra com bastante carinho...
-         Já sei! Sua formatura!
-         Adivinhão!
-         Puxa! Tá bonito mesmo. Mas cai numa quarta-feira; vai ficar complicado, pois trabalho até as seis da tarde e não esqueça que no Rio. As solenidades estão marcadas para quase há mesma hora com um detalhe, em Niterói.
-         Não quero nem saber; estarei esperando por você. Sem você, não haverá graça nenhuma.
Chegou o dia.
Evidentemente, apesar de toda a correria, cheguei atrasado.
Como estava cheio o teatro.
Finalmente consegui um lugarzinho apertado entre duas senhoras com roupas cheirando a naftalina, bem no cantinho do balcão superior.
Por sorte eu era bem mais alto que as matronas e, sem muitas dificuldades, consegui ver minha amada mais linda e sorridente do que nunca.
Um detalhe: minha estatura atingia os exuberantes 1,81, coisa rara naqueles tempos; hoje quando algum médico afere minha altura afirma categoricamente algo em torno de 1,79. Não discuto nem entro em confabulações. Na verdade estou encolhendo...
Melhor acomodado, se é que fora possível estar mais bem acomodado naquela calorenta “lata de sardinhas”, notei que a cabecinha de minha anfitriã não parava de perscrutar todo ambiente, para um lado, para o outro, para cima para baixo.
Finalmente nossos olhares, apesar da distância, se encontraram. Todo o semblante da menina encheu-se de felicidade e meu coração mudou de compasso. Se aquilo não fosse amor o que seria afinal?
Durante toda a festa ficamos juntos e já era tarde quando voltei ao Rio.
Na barca a brisa da noite acariciava meu rosto e, sussurrando no meu ouvido, dizia: a vida vale a pena ser vivida.

 - Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito por mim n Cidade do Arraial do Cabo em 2001



domingo, 16 de setembro de 2012

'CHEEIROS DA VIDA" - Nº 28 ~ “EMBRULHADINHOS, UM A UM...”

         
              Chegou pelo correio.
Pelo jeito é coisa séria – pensei. Armas da República e, mais abaixo, Tribunal Regional Eleitoral.
Estava convocado para trabalhar nas eleições presidenciais de 3 de outubro de 1960, que além do presidente e vice-presidente do Brasil elegeria, pela primeira vez, o Governador do Estado da Guanabara.
              Aliás, já prestara serviços ao Tribunal por ocasião de minha estréia como eleitor, quando fui mesário em minha própria seção, a de número 41 da 7ª Zona Eleitoral, instalada no Colégio Baptista. Naquela ocasião escolheríamos um senador e os deputados federais que representariam o Distrito Federal de então. Votei respectivamente em Afonso Arinos e Carlos Lacerda.
Com 41% dos votos Arinos derrotaria Lutero Vargas, filho de Getúlio e João Mangabeira, um socialista histórico.
              Nesta eleição de 58, os deputados mais votados foram: Fernando Ferrari, um dissidente do P.T.B., no Rio Grande do Sul, Jânio Quadros, em São Paulo e Carlos Lacerda, no Distrito Federal.
A vitória do U.D.N. no Rio de Janeiro, até então tipicamente um partido da elite, deveu-se a uma “guinada populista” com a criação do “Caminhão do Povo” que visitava os subúrbios e subia favelas, muitas vezes sendo alvo de pedradas.
              Agora, nova eleição.
              Às sete horas em ponto daquele três de outubro de 1960, apresentei-me ao presidente de minha seção que de imediato nomeou-me secretário da mesa receptora.
Dava gosto ver o entusiasmo dos eleitores que mesmo infringindo as posturas eleitorais e em decorrência acarretando nossas advertências, declaravam os seus votos em Jânio e Lacerda numa demonstração explícita de mudanças.
              Gastaram-se muitos dias para apuração dos votos, mas desde logo se verificava a estrondosa vitória de Jânio com a maior votação que um homem público recebera no Brasil até então: 5.636.623 votos.
              Foi o primeiro presidente a tomar posse na nova capital, Brasília, no dia 31 de janeiro de 1961.
A carreira de Jânio foi uma sucessão de vitórias. Nascido em Campo Grande, Mato Grosso, em 25 de janeiro de 1917, graduou-se bacharel em direito exercendo a advocacia e o magistério até eleger-se, em 1947, vereador por São Paulo sob a legenda do P.D.C. – Partido Democrata Cristão.
Em 1950 elegeu-se Deputado Estadual, em 53, Prefeito de São Paulo e, em 54, Governador do Estado, com forte apoio popular baseado num programa rígido de moralização administrativa e contenção de despesas supérfluas.
              Era deputado federal pelo Paraná enquanto preiteava a candidatura à Presidência o que finalmente conseguiu ao ser lançado oficialmente pelo pequeno P.T.N. – Partido Trabalhista Nacional.
Em 25 de agosto de 1961, aconteceu! Jânio renunciou ao mandato, fato até hoje sem uma explicação plausível, que levou o país a uma tremenda crise que, latu sensu, até hoje não foi resolvida.
              Todos aqueles eleitores que com tanta fé compareceram às urnas sentiram-se traídos, incluso eu. Havíamos sido enganados, ludibriados, “embrulhados”...
              Na época faziam sucesso umas balas cuja propaganda dizia: “Dulcora, embrulhadinhas uma a uma...”.
              Passamos a ser chamados de eleitores “dulcora”, “embrulhadinhos um a um...”; pelo Jânio, naturalmente.

             - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida", escito em 2001





sábado, 15 de setembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - Nº 27 - MEIGA E DOCE


Já passava do meio-dia quando acordei.
A primeira coisa que pensei foi num telefone. Precisava urgentemente de um telefone e mais, para fazer uma ligação interurbana.
Por que as coisas têm que ser sempre complicadas?
E as palavras do Carlos Alberto?
Esqueça! Ninguém vai “quebrar a cara” e nada de “fossa”...
Antes das cinco já estava atravessando a Baia novamente, agora numa Frota Barreto. A pequenina balançava que era um horror, mas logo chegaria à Praça do Araribóia.
-         Não via a hora de te ver de novo.
-         Eu também.
-         Ontem quando conversamos na varando do clube. Você foi tão natural, tão espontânea que parecia até já me conhecer.
-         E já conhecia mesmo. Sou muito amiga da Ângela. As vezes batemos longos papos com o Jorge que sempre falou de você, do clube que fundaram, de seus alunos, do seu trabalho.
Passeamos pela calçada quase deserta de sua rua. Depois sentamos numas cadeiras de ferro com almofadas bem macias no avarandado da casa. Quase instintivamente olhei para cima. Que bom! As coisas estavam mudando, pois não havia lustre para cair sobre nossas cabeças...
-         E você?
-         Estou terminando o curso científico no Colégio São Vicente. Meu tempo é preenchido com um monte de atividades e ainda cuido de uma velhinha. Toda semana dou atenção a ela, compro remédios, essas coisas.
Enquanto falava, apreciava sua pele clara, seus traços suaves, seu porte altivo. Seus cabelos eram fartos e negros, como escuros e brilhantes eram seus olhos.
Estava irremediavelmente apaixonado e tinha certeza que ela também. Nunca senti algo com tanta certeza e com tal intensidade.
A brisa até então agradável, virou vento, virou vento-forte, virou chuva, muita chuva.
Impossível continuar ali. Entramos.
Conheci, logo de uma vez, grande parte da família. Sentia os olhares sobre mim e deu-me uma vontade imensa de sair correndo.
Agora, a rua estava cheia d’água e desse jeito não podia ir embora.
Lanchamos ou fizemos algo parecido, não lembro tal a preocupação que estava sentindo.
As horas passavam e eu preso na intimidade da casa da minha namorada que havia conhecido há pouco mais de 24 horas.
Eram quase duas da manhã quando alguém disse que as águas haviam baixado.
-         Tchau! Vou aproveitar a estiagem. No meio da semana te ligo...
-         Liga amanhã!
Mal virei a esquina, aproximei-me dum poste de luz e na rua deserta procurei contar quanto tinha em dinheiro. Certamente dava para um táxi.
Cheguei a casa, já passava muito das três.
Dona Tininha cantou toda sua ladainha, enchendo meus ouvidos. Mas a voz que ouvia era outra: doce, meiga e cheia de promessas.

               - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" - escrito ao longo de 2001 na Cidade de Arraial do Cabo ´"Onde o sol passa o inverno"