Acho que está na hora de uma pausa...
Neste inventário de saudades muito ainda há a reviver. Vontade não falta. Mas acho que está na hora de uma pausa.
Antes, algumas reflexões.
Nunca é demais afirmar que Bobbio estava com a razão: “... na rememoração reencontramos a nós mesmos...”, “... cada vulto, gesto, palavra ou canção, que parecia perdido para sempre, uma vez reencontrado, nos ajuda a sobreviver”.
Verdade!
Ao escrever estes capítulos, consegui trazer para perto de mim todos aqueles que de alguma forma interferiram na minha infância e adolescência.
Em alguns momentos sofri de novo, em outros senti raiva e em muitos gargalhei à solta.
Catarse pura!
Alí, uma decepção, acolá a alegria de uma pequena vitória ou de um suave momento de prazer, sempre, a saudade, a presença novamente junto a mim de pessoas muito caras que já se foram.
Em não poucas vezes, sentei-me diante do teclado e nenhuma lembrança, nenhum fato, um embotamento total invadia meu ser como se estivessse a fugir de algo.
Ficava muito peocupado!
Felizmente restaram, de mais importante, as emoções...
Certa noite, desenvolvendo o capítulo “O primeiro de muitos outros”, mas precisamente ao escrever “...sinto ainda o hálito de mamãe, rosto junto ao meu, a passar, lenta e levemente, o pente nos meus cabelos ainda úmidos...”, exatamente neste momento, senti o milagre de sua presença junto a mim e o hálito de que falei não foi simples literatura.
Nesta noite, chorei, coisa que há muito não passava de um simples umedecer de olhos.
Chorei, como em alguns natais de minha infância, sofridos em solidão profunda ou, nos quantos “31de dezembro” passados à janela de meu quarto, só eu e Deus, a apreciar os fogos de artifício vindos do alegre reveillon do Tijuca Tenis Clube.
Depois o silêncio amargo, só cortado pelo tênue sonido de música e risos prazenteiros vindos de uma festa bem longe.
Acho que esta na hora de uma pausa...
Foram muitos momentos de livre sentimento.
Preciso refazer-me, ainda mais que a partir de agora a história ficará cada vez mais complexa; fim da meninice, fim da adolescência, início da vida sem retoques.
Amor, sexo, dinheiro, religião, política, trabalho, casamento, filhos...
De agora em diante, parece que o tempo passará mais rápido e os desafios, mais definitivos, possivelmente perderão a poesia inocente que me acompanhou até aqui.
Tenho medo!
O futuro dirá se terei coragem para continuar a contar minha história, de minha cidade e de meu mundo. Dando-me força estarão as palavras de Leon Tolstoi “fale de sua aldeia e estará falando do mundo...”
Acho que está na hora de uma pausa...
Mas, quanta coisa há ainda a rememorar destes meus primeiros dezoito anos...
Pouco recordei da brigas em casa, na família e com os vizinhos. Dos achaques da mamãe, das fugas de papai, das batalhas pioneiras, quase diárias, de meus irmãos em busca de mais liberdade.
Da minha visão real do mundo, das pessoas, das coisas, da nossa sociedade...
Muita coisa falta ser garimpada.
Por exemplo, é importante constatar que até então, nem no colégio, nem em casa, em momento algum me avisaram, com todo o rigor que o caso merecia, que o país em que vivia, pertencia ao “Terceiro Mundo” (*).
O quê aprendi?
Um imenso país, rico por natureza, o “país do futuro”...
Cresci na santa ignorância de nossa posição, até certo ponto humilhante, em relação a um mundo desenvolvido muitas vezes à custa de nossas privações.
Do mesmo modo, não sentia com toda a dramaticidade a existência de um mundo marginal, um “Quarto Mundo”, sofrido, esfomeado, escravizado, muito pior que o meu.
Não, pelo menos, com toda a intensidade de seu drama.
Agora, aos 18, começava entender melhor as coisas e de certo modo revoltava-me a sonegação de informações, que principalmente no colégio deveria ter recebido.
Justiça seja feita, houve um mestre, o professor Tarlé que tocou de leve nestes assuntos, mas talvez com medo de ser tachado de “subversivo”, continha seus comentários. Só dispensava os melindres para falar do Getúlio; aí ele se soltava, e soltava também o “porrete” para valer...
Acho que está na hora de uma pausa...
Mas como não reviver, por derradeiro, a personalidade singular de minha mamãe, “sangue calabrês” nas veias, capaz de alternar gestos de ternura e de extrema rispidez no lapso de um momento.
A mesma que abraçava com carinho e beijava nossa testa suada com leveza de uma pluma, era capaz de, num transe irado, bradar, apontando em riste a porta da rua, “... não está contente? A porta da rua é a serventia da casa!...”.
Mamãe e suas frases feitas, que diziam tudo, seu humor, seus sentimentos enfim seu estado de espírito no momento. Poder de síntese a economizar palavras ou longos discursos.
E vinham então: “menino! Pare de ficar aí ‘cozinhando o galo! ’...”, “... eu falo, falo, e você fica fazendo ‘ouvido de mercador´...”, “...o dinheiro é pouco, e este ´pingo de gente´ quer viver ´`a la gordaça...´”, “...vá lavar a cabeça e pentear este cabelo, está parecendo um ´ouriço-cacheiro´”, “... este rapaz está muito esquisito, muito calado, cheio de ´macaquinhos no sótão´”, “ vá com calma, ´não estenda a mão adiante do chapéu´”, “...não deu certo meu filho? É a vida ´quem não tem competência, não se estabeleça´”.
Mamãe, certamente o personagem mais importante desta história.
E papai...
Papai, sua miopia de confudir Guido com Zé Carlos, de passar a mão por baixo da farinheira para confirmar que o farelo estava caindo na sopa, de nos levar, aos domingos, aos célebres passeios à Praça Mauá para ver navios (sem nenhum trocadilho)...
O pior, para nós de “calças-curtas”, eram os ônibus da Ligth, muito bonitos, mas com uma forração de casemira inglesa felpuda nos bancos (imagine tal requinte em nossos dias?), que deixavam nossas coxas em “farrapos”.
Todo esse sofrimento, para ver navios...
Preferia as viagens nos trens da Central do Brasil até o subúrbio de Maria da Graça, para visitar as obras das duas casas que papai estava construindo na Rua Antonio de Freitas (estas casas foram demolidas por ocasião das obras do Metrô).
Papai também criava nomes esclarecedores tais como: ensopado, dizia que era “engasga-gato”, gelatina, “água-em-pé”, baunilha, infelizmente não fica bem reproduzir o que ele dizia...
Quando algum de nós, seus filhos, estávamos com “cara de cachorro que lambeu panela”, papai nos chamava de “lambisgóia” e, como gostava de comprar coisas de boa qualidade e duráveis; aplicava a “máxima”: “a economia é a base da porcaria...”.
Os livros de Júlio Verne, o “velho” me induzia a lê-los assim com o “Homem que Calculava” de Malba Taham; e me fez muito feliz quando me deu seu relógio “Tissot”, tirando-o do seu pulso e colocando no meu “para sempre”...
Seu Cesar, o “provedor de goloseimas”: os caramelos “D´Ângelo”, as linguas de gato, os cubinhos de frutas cristalizadas, os chocolates amargo, meio-amargo e ao leite, os pêssegos, as uvas, as peras, as maçãs, o queijo-cavalo, o “Palmira”, o “Avenida”, os cazadinhos, as mães-bentas e os biscoitos sortidos , os caramelos “Busi” e as “balinhas de boneco”, as “balinhas de boneco”, as “balinhas de boneco”...
Acho que está na hora de uma pausa.
Quem sabe, um dia, um novo encontro...
(*) Terceiro Mundo – expressão criada pelo demógrafo francês Alfred Sauvy em 1952. Estabelecia a existência de dois mundos, o dos países “ocidentais” e dos países “comunistas”, entre os quais se comprimia um “terceiro”, o das nações subdesenvolvidas, o Brasil, inclusive.
- Último capítulo salvo (como destaquei ao inicio destas postagens) que consegui recuperar de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1998.
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