por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 26 de julho de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 10 - O NOTÁRIO



           Como o Brasil chegou ao Século XXI?
           Há no país mais de 21 milhões de crianças cujas famílias têm renda inferior a meio salário-mínimo, ou seja, 35% da população nesta faixa etária.
           A cada 1000 nascimentos, 36 bebês morrem antes de completar um ano e, 40% dos mais pobres da população ganham o equivalente a 8% da renda nacional enquanto os 20% mais ricos ficam com 64%.
           No ensino fundamental estão matriculados 93% das crianças entre 7 e 14 anos e apenas 50% da população entre 15 e 18 anos estão matriculados no ensino médio. Neste item ocupamos o 94º lugar no ranking mundial abrangendo 165 países. Estamos um pouco pior que o Equador.
           Naquele final de 1958, prestes a terminar meu 2º grau, nem de longe estava consciente de que o futuro poderia levar o meu país a esta situação.
           Também não imaginava até onde poderia chegar a humanidade, invadida pelo “capitalismo selvagem”: “O que se deve fazer quando um concorrente está se afogando? Pegar uma mangueira e jogar água em sua boca”, frase maldita de Ray Kroc, fundador da rede de lanchonetes McDonald´s.
           Sem dar muita importância, lia nos jornais que o presidente Juscelino iria levar o Brasil a romper com o Fundo Monetário Internacional, o que realmente aconteceu, mais tarde, em 28 de junho de 1959 em discurso proferido no Clube Militar.
           Dezembro chegara, e no dia de minha formatura, ardia em febre. Pensava até que estava com a “gripe asiática” que fizera muitas vítimas por aqueles tempos. Mesmo assim compareci a todas as solenidades; missa pela manhã e colação de grau à noite, na capela e no salão de festas do colégio.
           Foram onze anos de São José. 
           Adeus!
           Sem tempo para curtir as saudades que apertavam o coração,  era pensar somente no vestibular, que começaria tão logo janeiro chegasse.
           O importante: naquela época passar no vestibular e ingressar numa escola de engenharia, significava definir seu futuro com absoluta certeza.
           Bastava seguir o ritual dos dois primeiros anos básicos, seguidos dos três anos na especialização escolhida, provavelmente um estágio no 5º ano e depois de formado a garantia de um emprego.
            Evidentemente, situação bem diversa dos dias atuais em que um diploma de curso superior nem de longe garante um emprego digno.
           Os últimos dias de dezembro foram consumidos na corrida aos papeis: diploma do 2º grau, fichas 18 e 19, atestados de idoneidade moral, de saúde, de regularidade com o serviço militar, mais isso e mais aquilo, tudo devidamente autenticado com firmas reconhecidas em cartórios diversos.
           E eram várias vias, pois tentaria o vestibular na Nacional, na PUC e na Fluminense.
           Um primeiro impacto: tomar conhecimento da burocracia inútil e rendosa, para alguns parasitas, que até hoje maltrata o cidadão comum.
           Caso insólito era do tabelião Roussoulieres, estabelecido numa pequena loja de um só ambiente na Rua da Conceição, no centro de Niterói.
           Já bem castigado pelo tempo, cabelos quase totalmente brancos em desalinho, barba cansada de esperar navalha, físico mirrado escondido pelas roupas surradas sustentadas por largo suspensório, nosso personagem permanecia alguns momentos escondido atrás de uma velha escrivaninha.
           Ao fundo alguns arquivos empoeirados que pareciam de há muito não ter serventia. Separando-os dos clientes, um largo balcão enchendo toda a largura do salão.
           Bastavam seis a sete pessoas para que mais ninguém pudesse entrar na loja.
           Nesse momento, o respeitável notário levantava-se e começava o discurso ensaiado.
           - Estão todos acomodados? Pois bem, vou ensinar como fazer: abram todos os documentos em forma de leque. Deixem um espaço em cada um que permita ser carimbado – mostrava o rançoso timbre -, e os segure com a mão direita. Contem quantos documentos cada um tem para autenticação. Na mão esquerda, coloquem o dinheiro, vinte centavos para um documento, quarenta para dois, assim por diante.
             Após esta instrução, entrava em ação carimbando, assinando e recolhendo o dinheiro com espantosa velocidade. Não verificava assinatura, finalidade do papel, sua origem, nada.
           Acabada a faina, dispensava todos os clientes e voltava para sua escrivaninha à espera de nova leva de otários.
           No Rio, havia o Tabelião Hugo Ramos que também ficou bastante conhecido, à época, pela fama conquistada em reconhecer firma até de quem ainda iria nascer...
           Uma triste piada! Era o desenho do país que começava a se esboçar para mim.
           Nacional, PUC e Fluminense: “Levei pau” nas três.
  
         - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001

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