Arraial do Cabo, janeiro do novo século.
Já não sinto tão forte o Cheiro de Verão.
Muito tempo passou desde a última lembrança lançada em meu “Inventário de Saudades”.
Em verdade, lá se vão mais de dois anos!
A chave do enigma “Desalento”, da página primeira, continua carente de procura. Acho agora, que pouco importa encontrá-la...
Ufa! Chega de indagações e do áspero caminho em busca de soluções. A vida é mais que isso. A catarse despejada naquelas cento e poucas páginas foi de muita valia, caso contrário o espectro do enigma sinistro estaria ainda a me sombrear.
Agora é deixar vir livremente as lembranças.
Que venha a liberdade, doce, profunda, sem compromissos ou constrangimentos. Liberdade que persegui ao longo destes mais de sessenta anos de vida.
Sex, sexagenário, sem pudor...
É a realidade.
Vamos lá! Há muito a lembrar, curtir, chorar, emocionar e por que não, também, rir, sorrir, gargalhar, sorvendo toda felicidade de que ainda, certa e mui justamente, sou credor.
Este é meu propósito...
Arraial do Cabo, recém findo o Século Vinte.
Arraial do Cabo despojada e radiosa, nem de longe se preocupa com a precisão de onde finda o velho século e se inicia o novo. Às favas Dionísio, o pequeno, e suas contas mal explicadas.
O certo é que damos os primeiros passos no Século XXI, neste janeiro de 2001 de muito sol e poucas águas.
Nas sossegadas noites deste arrabalde displicente premido entre mares, aqui quente, acolá gélido, mais aguçados tem estado meus pensamentos, certamente coisa de “velho”, querendo reviver, reviver, viver... Afinal, livre de tantos horários, sou, teoricamente, dono do tempo, pelo menos na conta certa do possível.
Que ninguém nos ouça (ou seria, nos leia), tempo escasso para tudo que gostaria de rememorar e, quem sabe Deus permita, vivenciar ainda.
Minha mulher, os filhos, minha neta “luminosa”, meus parentes, meus amigos, velhos e novos, agora mais próximos, quando não, no sentimento, tudo isto emociona.
Não raro sinto úmidos meus olhos, doído meu peito e quando sou um pouco racional, alegre minha alma, pois me foi dada a grande chance de sonhar, lutar, criar, cultivar e colher tudo isto que tenho certamente na medida maior do que mereci.
Minha mãe, meu pai, minha avó, meus tios, amigos e companheiros que já se foram, sentidos agora, parecem-me quase perfeitos, como se assim o fossem nos tempos que com eles convivi.
O correr-dos-anos encarregou-se de fazer-nos um pouco mais sábios e, com ele, aprendemos a olhar o passado com mais benevolência.
O correr-dos-anos encarregou-se de fazer-nos um pouco mais sábios e, com ele, aprendemos a olhar o passado com mais benevolência.
O “jogo-duro” de mamãe, o “ranzinzar” de papai, qualquer impertinência seja de quem fora, me parecem hoje ensinamentos que deveriam ser apreendidos no tempo certo, conselhos a serem preservados, desvelos a serem agasalhados sem parcimônia.
Só o passar do tempo nos fez ver assim; sábia e oportuna benevolência.
Tudo foi superado e as experiências do bem viveres foram, quase sempre, assimiladas em maus momentos.
Naquelas horas, do tudo descobrir e do mais gozar, a essência da vida, não raramente, parecia escorregar por entre os dedos. Os prazeres seriam quimeras inatingíveis? E a tal felicidade, quanto alcançada, quanto tempo duraria?
Que horas, aquelas! Vistas de hoje, só um comentário é oportuno: “Santa ignorância!”.
A avidez de tudo conquistar, o shangrilá inatingível, as conquistas obrigatórias e cada vez mais ambiciosas, tudo isto nos fez perder tanto tempo.
Só hoje nos damos conta...
Nossa grande mestra, a vida vivida, veio ensinar que a felicidade acontece em lampejos bem-queridos e que devemos estar atentos para não desperdiçá-la.
Foi bom partilhar nosso existir com todas aquelas criaturas.
Agora, quero sentir todos os olores da vida, não apenas o cheiro de verão.
Que estas linhas amadureçam, como o passar da existência fez com minha alma, com meus sentimentos.
Hora de retomar o caminho, sentir os cheiros da vida novamente, com deleite, com calma, sem a ânsia e a sofreguidão dos tempos de jovem.
O que vem à nossa memória, as boas coisas que vivemos, misturadas no enxovalhar dos anos, precisam ser garimpadas com todo cuidado.
Aqui, o oxigênio invadindo os pulmões na clara manhã, ali, a fragrância da roupa impecavelmente limpa recém tirada do armário, ou o odor nostálgico da “dama da noite” na rua deserta.
Agora, a lembrança do excitante perfume entranhado na mão suada depois de uma contradança, ou ainda o simples aroma do refogado carinhoso que vem da cozinha enfumaçada.
Com a alma plena de felicidades, o cheiro dos lençóis depois do amor e, o mais doce cheirinho que vem do “cangote” inocente da netinha Gabriela...
Voltemos a sentir a plenos pulmões os “Cheiros da Vida” !
OBS - Nas fotos abaixo aparecem minha casa em Arraial do Cabo e um "Por do Sol" no "Pontal do Atalaia" em janeiro de 2005 às 19,35 hs.
- Trecho inicial de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001

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