por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 16 de julho de 2012

'CHEIROS DA VIDA" - 7 - A CONSTRUÇÃO


           Estava animado.
           De há muito precisava de um namoro “firme”. Estava realmente animado e ao mesmo tempo intrigado...
           Animado!
           Fazia bem ter uma namorada; era um novo estímulo para continuar batalhando aquele resto de ano, tentando ordenar um pouco mais minha cabeça, selecionando com algum critério prático as atividades que realmente influenciariam meu futuro.
           Isso... Agora, pensava muito no futuro, que se Deus quisesse não seria só meu.
           Intrigado!
           Minha namorada era, fato sabido, irmãzinha de meu amigo Carlos Alberto. Por conseqüência, eu já freqüentava a casa fazia tempo, conhecia a todos com certa intimidade. Como ficaria nosso relacionamento, meu e da família Giffoni daqui para frente?
           A meninada de hoje não pode, nem de longe, imaginar o que significava um “namoro firme” naqueles tempos. Dizem hoje: tempos aqueles de uma sociedade muito chegada a uma hipocrisia, plenos de convenções arcaicas que não levavam a lugar algum, de hábitos conservadores impregnados de falsos pudores.
           Tal raciocínio pode até acolher uma alta dose de verdade, por outro lado, não é menos verdade que havia mais respeito aos que nos antecederam, reconhecendo suas lutas, dando-lhes valor por tudo que tinham construído e, sobretudo, vendo neles um grau de experiência alcançado ao longo de toda uma vida, como a nossa, também feita de desejos, sonhos e quimeras.
           Deixada minha intriga de lado e, considerando a evidência da nova situação, até que as coisas se ajustaram com certa facilidade. Evidentemente eu queria muito mais liberdade, possibilidade de ficar mais tempo com minha “garota” sem presença de “terceiros”.
           Mas estávamos em 1958!
           As regras: namorar, só aos sábados e domingos; se a tarde, não à noite. Depois das 10, nem pensar. Feriados: talvez... Véspera de provas, nunca. Festinhas, só muito bem acompanhados, por irmão, tia ou alguma mãe de muita confiança. Cinema: inconcebível sozinhos...
           O namoro consolidava-se numa série de pequenas conquistas.
           Essa, a palavra chave: “conquista”.
           Hoje me parece que os relacionamentos são como “pratos-feitos”; alguns já vêm até um tanto “frios”. Rapidamente esvaziam-se pratos e mais pratos. Tudo sem a construção, tijolo a tijolo, conquista a conquista...
           Acho que a minha “construção” foi muito “sólida”, às vezes sofrida, quase sempre gostosa...

           - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001



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