por José Carlos Coelho Leal

segunda-feira, 9 de julho de 2012

CHEIROS DA VIDA - 3 - "MEUS “OLHOS VERDES”

          


           Chegou na hora certa!
           Julho mês de férias e de festas quase todos os dias. Este era o programa certo de uma jovem classe média tijucana com menos de vinte, naqueles estertores dos anos cinqüenta.
           Depois das festas, madrugada já adiantada, um programa mais ousado, um pileque bissexto, ou “pra caminha” que a “italiana” é brava.
           Um amor! Um amor consolidado no meu íntimo, fazia tempo. E começava a doer...
           Estava na hora de extravasá-lo!
           E aconteceu...
           Dia 20, sábado, eram quase 10. Noite novinha de estrelas no céu ainda despreocupado com a “camada de ozônio” e de outros componentes de reputação não recomendável. Dez da noite; todos à casa dos “natalenses arretados” Edson, Zé Murilo e Néocles com bom sotaque e donos de uma amizade afiançada.
           No gigante “Edifício Genarino”, dominando o panorama da pacata Tijuca, começava um “arrasta” de boa cepa, com discos novos, alguns “estéreos”, outros “mono”, mas todos “33”.
           Muita “cuba-libre”, aliás, difícil de engolir. Melhor um “hi-fi” garantia de rápida animação e, para as meninas, “ponche”, esta sim bebida de “maricas” ou de “viado”, assim se escrevia, com “i”; sinal evidente de respeito ao pobre bichinho de galhos largos que não merecia ser responsabilizado pelos modos não muito convencionais de alguns meninos, digamos assim, “delicados”. Isso, evidentemente, naquela época.
           A festa estava armada para ir até duas da “matina” ou mais um pouco, dependendo do comportamento da moçada e do humor ou do sono dos donos da casa. 
           De repente, na “vitrola”, um disco da “parada”: “Uma noite no Arpége” com Waldyr Calmon (*) e seu conjunto. Eram vinte minutos de música contínua. Tempo certo para um “flerte” ou, no meu caso, o que interessava: uma conquista.
           A meia-luz, a mescla de perfumes suaves envolvendo os casais enlaçados, a mansa brisa a movimentar levemente as cortinas qual tremular do véu de uma noiva nervosa, o doce rumor dos sussurros enamorados, tudo isto favorecia a criação do clima que imaginava ser o ideal.
           Finda a dança, estava de namorada nova; a prenda longamente sonhada e, para mim, a definitiva.
           Meus “olhos verdes” finalmente conquistados.
           Estávamos “amarrados”, nós, eu e Tania, a irmãzinha do meu amigo...

                                                        

           - Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito por mim em 2001


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           (*) – Na contra-capa do LP “Uma noite no Arpége”, Sérgio Porto, jornalista, escritor, autor de teatro, humorista e compositor do “Samba do Crioulo Doido” e também chamado se Stanislaw Ponte Preta, comenta: Em Waldir Calmon, a par de sua impressionante técnica e do seu inevitável virtuosismo, o que mais impressiona é a versatilidade, a capacidade que tem de se adaptar a todos ao ritmos dançantes – nacionais ou estrangeiros... É, portanto, o pianista ideal para conjuntos dançantes de boates, onde é preciso contentar o gosto variado de centenas de bailarinos”.
           Por ocasião de sua morte em abril de 1982, Artur da Távola escreveu. “... Possivelmente, o jovem de hoje nem saiba quem era aquele musico de que tanto se falou no Domingo passado – dia em que morreu. Mas, as gerações que dançaram ao som de seu piano, rostinho colado, sentiram a morte do músico, poi ele estava ligado a vivências românticas de sua juventude... O som de se ´solovox´e do seu piano nítido e ritmado ainda perdura nos ouvidos desta geração...”  

ATENÇÃO:  não deixem de ver em  http://www.youtube.com/watch?v=5uCPo6p97Pw&feature=related

Também não deixem de ver: http://www.youtube.com/watch?v=mX3oFBnRXQ4&feature=related

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