O “Digital Audio System NSX-V8000” espalha pela casa acordes arrebatadores, gerando emoções duradouras.
Trata-se de uma gravação em “Compact Disc” da Nona Sinfonia de Schubert, também chamada “A Grande”.
Esta sinfonia está entre as minhas preferidas, talvez por ser assim, grande. Os quatro movimentos clássicos são percorridos em cerca de cinqüenta e seis minutos. E lembrar que Schubert à época quase foi crucificado exatamente por esse motivo: composição longa em demasia.
Na vida tudo é cativo de seu tempo certo e por conseqüência, duração adequada; ainda mais neste engatinhar do novo milênio, quando a excessiva agitação do mundo exterior nos faz necessitar de certa preparação do espírito para poder absorver toda a emoção escondida numa obra de arte.
Talvez a calmaria com que, imagino, transcorria a vida nos idos do Século XIX desprezasse tais requintes. Mas, hoje, esta intermitência é imprescindível. Isso, exatamente isso, acontece nessa sinfonia: toda uma elaborada preparação para a degustação solene do “allegro vivace” final.
“Digital Audio System”, “Compact Disc”: será que na Viena de 1828 os cidadãos ousariam imaginar que num futuro não tão longínquo poderiam ouvir estes sons orquestrais de total maturidade, no momento e onde quisessem, com a orquestra preferida comandada pelo maestro predileto. E mais, sem distinção de classe ou categoria social.
Ouso afirmar que não.
Estes sons eram privativos de uma elite, que talvez nem estivesse preparada, ou, o que é mais provável, interessada em tais sabores. Certamente, ocupavam prioritariamente suas preocupações mais imediatas, o poder, o dinheiro e a sedução.
Visto sob esse ângulo somos uma sociedade privilegiada. A tecnologia nos permitiu tais prazeres. Pelo menos sob esse ângulo...
Por outro lado, Franz Schubert viveu entre 1797 e 1828; parcos trinta e um anos para desenvolver tão grande obra. A sífilis devastou-o prematuramente.
Passados duzentos anos, sua obra ainda sensibiliza multidões. O milagre de sua emoção ainda vive...
Isso. Ultimamente tenho pensado: o tempo, a emoção, a vida...
Seria 1952, 1951, 1950? Não lembro mais. Meu irmão Guido apareceu em casa com um toca-discos de segunda mão, comprado de seu colega Paulo Sergio. E alguns discos também.
O amplificador de pouca potência fazia chegar, junto com a precariedade que era peculiar às gravações da época, os parcos sons emitidos pelas famosas “bolachas” de 78 rotações por minuto.
Grande discoteca tinha meu irmão! Dois discos...
Lembro ainda da primeira música que ouvi fabricada por aquele “moderno” aparelho que “espontaneamente” tocava música, foi Y have only eyes for you.
Completavam a “bela” discoteca, dois boleros na voz do cartaz da época: Gregório Barrios .
E Schubert? Que tem há ver com tudo isso?
Penso que toda minha vida foi um preparar para o “allegro vivace”. Chegou a hora. É possível. Vale à pena tentar.
Finalmente o “allegro vivace”. Quero degustá-lo com todo o vagar possível...
Em tempo: deixa-me chocado saber que os cada vez mais perfeitos aparelhos de som além de propagar os acordes de um Schubert, um Mozart, um Vivaldi e porque não incluir nesta lista, um Tom Jobim, um Cole Porter, por outro lado, e o que é assustador, cada vez mais são obrigados a “berrar” um “Claudinho e Bochecha” ou levantar loas às “popozudas”, às “preparadas” e às “tchutchucas”.
É duro, mas tenho que aceitar. Com veementes protestos e intenso mau humor, evidentemente.
ATENÇÃO - Ouça e veja o Allegro Vivace com a Sinfônica de Viena
http://www.youtube.com/watch?v=Uk0n4OgqnZw&feature=related
ATENÇÃO - Ouça e veja o Allegro Vivace com a Sinfônica de Viena
http://www.youtube.com/watch?v=Uk0n4OgqnZw&feature=related
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001
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