por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 8 - CARIOCAS



           Zona Sul, Zona Norte, Subúrbio, Zona Rural...
           Não havia o Túnel Santa Bárbara, muito menos o Rebouças e nada de linhas Vermelhas, Lilases, Amarelas ou lá que cor fosse.
           Os telefones eram poucos, “coisa de rico”, assim como a televisão. Os automóveis, no embalo dos “cinqüenta em cinco” (1), começavam timidamente a se multiplicar.
           O que integrava a cidade era o bonde, este sim o transporte democrático “pra valer”, confiável, a menos que o blecaute viesse a interromper sua missão. Os 600 bondes da Light percorriam diariamente 84 mil quilômetros e transportavam uma média de 600 mil passageiros.
           O certo era que havia uma dicotomia, senão física, certamente social na cidade. No colégio ficava fácil identificar a origem de cada um, se bem que a maioria expressiva vinha mesmo da Zona Norte: Tijuca, Grajaú, Andaraí, Vila Isabel e com boa vontade, Lins de Vasconcelos.
           Para o resto, havia uma velada e mútua discriminação. Uma verdade que nem de longe percebíamos  envolver algo mais sério, perigoso, abominável: o “preconceito”...
           A turma da Zona Sul era a que mais extravasava esta má-formação que em maior ou menor intensidade todos abrigavam. Algumas discussões e até brigas aconteceram. Afinal, vinha o argumento decisivo, irretorquível, e humilhante, quase em forma de veredicto: “vocês tijucanos não têm praia!”. E fim de “papo”.
           Dizem alguns filósofos-espiritualistas que uma chamada “Lei do Progresso” preside um movimento de geral evolução progressista e construtivo que estaria de acordo com a Providência de Deus.
           Segundo tal lei o ser humano, a natureza, a sociedade, estariam em constante estado de evolução, inclusive envolvendo a estrutura psíquica do homem.
           Assim, “haveria um progresso espantoso quanto ao que se classifica como pré-conceito” – que significa a capacidade humana normal, necessária e construtiva de formar uma idéia prévia a respeito de um assunto, possibilitando a elaboração final de um conceito racional -, em contraposição ao preconceito, que se manifesta num comportamento deletério, uma verdadeira patologia destrutiva muitas vezes aceita sem restrições pela sociedade.
           Parece que tal “Lei do Progresso” ainda não vingou por aqui.
Afinal todos, em maior ou menor grau, temos inatas parcelas de preconceito difíceis de serem transpostas.
           Ainda há pouco tempo transformou-se em best seller um livro cujo título era excludente e preconceituoso por excelência:  “Ela é carioca – uma enciclopédia de Ipanema”.
           Ao lê-lo tem-se a nítida impressão que durante longo tempo, tudo de bom nas artes, hábitos, costumes, etc. aconteceu apenas em Ipanema em detrimento do resto da cidade. Fora daquela área não existiam vidas inteligentes, muitos menos cariocas...
           E como nos orgulha ser carioca!...

         - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001




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           (1) – Juscelino Kubitschek de Oliveira, eleito em 1955, lançou o famoso Plano de Metas, cujo slogan era “50 anos em 5”; foram incentivadas a indústria naval, a industria automobilística, a siderurgia, as grandes usinas hidrelétricas de Furnas e Três Marias e, a polêmica construção da nova capital, Brasília.


Um comentário:

  1. Em compensação mudou o foco dos transportes de ferroviário para rodoviário e as ferrovias ...

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