Aquela noite passei-a em claro. O perfume colado ao meu rosto, a sensação morna daqueles cabelos fininhos acarinhando meus braços, os olhos verdes, ora no infinito ora embaraçando-se aos meus, as palavras ditas quase silentes, a respiração momento após móomento mais ofegante, o “sim”...
Todas estas cenas repetiam-se na minha memória, sem cansaço. E sentia,sentia, assentia... Parecia que a noite, a festa, os amigos, a música, nada havia terminado; eu continuava nas nuvens. Enamorado, apaixonado, bobo...
De repente, o “agora José!”.
Está tudo muito bom, tudo muito bem, mas e a tua vida “cara”? O vestibular, os desafios a enfrentar te esperam! Como vai ser?
Acho que sempre fui assim.
A cada conquista, a cada nova vitória, a cada passo à frente, após o deslumbre do primeiro momento vêm-me de assalto as responsabilidades, os riscos. Sempre o “agora é contigo”, “se vira rapaz”, não decepcione, não decepcione, não decepcione...
Mas o momento era “prá lá de bom”.
Às favas tudo mais!
Na verdade aquele 1958 vinha sendo um ano muito especial, e agora, mais. Afinal, minha grande conquista acontecera.
Inesquecível aquele ano.
Por exemplo: naquele ano, alguma coisa inestimável e perene iria surgir com o disco “Canção do Amor Demais” em que Elizeth Cardoso cantava composições de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
O importante: desse disco participou um quase desconhecido João Gilberto, com seu violão contido e intimista, ousando uma batida delicada e diferente que mereceu de imediato a atenção dos entendidos, o coração dos namorados, e sem demora conquistaria o mundo.
Estava estabelecido em definitivo o estilo que veio a chamar-se “bossa-nova”
Naquele ano o Brasil ganharia pela primeira vez a tão sonhada Copa do Mundo e, pasmem, era instalada entre as cidades de São Paulo e Santos a grande novidade em telefonia, a Discagem Direta à Distância, o DDD, primeiro sistema a ser implantado em toda a América Latina.
Naquele ano eu terminaria o curso científico, com festa solene de formatura, como de praxe, e daria adeus ao “São José”.
Enquanto isso era composto um poema de cordel, considerado obra literária de pouco ou nenhum valor. Pelo menos é o que pensavam o dicionário e os intelectuais. Seria mesmo?
“A esperança do pobre,
Quase toda é vice-versa,
O peixe cai pela isca,
O velho pela conversa,
A galinha pelo milho,
O pobre pela promessa.
A humanidade campeia
Nutrida por um consolo,
A mulher não quer ser feia
Nem o homem quer ser tolo.
Não se engane com o mundo
Que o mundo não tem que dar;
Quem com ele se iludirem
“Iludido há de ficar.”
Esta pérola “obra literária sem nenhum valor” foi escrita pelo poeta popular João Martins de Athayde que viveu entre 1877 e 1959.
No poema, nenhuma literatura, algum valor estético e muita sabedoria. Tudo vida e aprendizado resumido em poucas linhas.
Certamente, experimentados filósofos levariam anos para explanar em volumosos tomos, rebuscados de elucubrações mil, toda a filosofia primitiva escondida nesses toscos versos.
Assim sentia-me naquele julho de 1958, um poeta de cordel, achando tudo simples e bom de viver. Muita coisa mudara em minha vida.
Algumas seriam definitivas.
- Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001
Nenhum comentário:
Postar um comentário