por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 31 de julho de 2012

'CHEIROS DA VIDA - 12 - POR QUE NÃO JORNALISTA?

                   
          
           Apesar do pouco tempo que sobrava, não descuidava em tomar conhecimento das coisas que aconteciam pelo Brasil e pelo mundo. Afinal, meu estágio como jornalista estudantil deu-me certo faro para reconhecer os fatos importantes.
           Em vista disto, cheguei muito a questionar a profissão a seguir.
           Seria mesmo engenharia? Não seria influência de meu irmão? Do meu avô?
           Pensando bem, não me lembro quando criança de me imaginar engenheiro. Muito brinquei de médico e professor, também dentista, oficial de marinha, motorista de ônibus, jornalista e jornaleiro, motorneiro e até arquiteto, rabiscando com régua e compasso  plantas de casas, escolas e cinemas...
           Mas engenheiro?
           Nunca!
           Por que não jornalista?...
           Achava a profissão meio “quixotesca”, possivelmente mal remunerada. E mais, provavelmente meu temperamento sabidamente passional, não contribuiria para a imparcialidade que imaginava ser fundamental para um jornalista de valor.
           De todo modo, refleti muito sobre o assunto, chegando mesmo a conversar com papai a respeito, que não viu esta possível opção com entusiasmo dizendo, no entanto, que apoiaria minha decisão.
           Agora, nova dúvida.
           Com o sucesso inicial, passei a cogitar que talvez o magistério fosse minha vocação.
           Afinal seriam menos anos de faculdade, sem a detestável “química”, e havia ainda a possibilidade imediata de ir ganhando meu dinheirinho com minhas aulas particulares.
           Meu sonho, então, era ser professor de curso vestibular, onde estavam os mais bem remunerados profissionais da área.
           Pensei muito, mas, provisoriamente, passei uma borracha em tudo e continuei meu curso vestibular para engenharia. Até “segunda- ordem”, serei engenheiro.
           Mas, como estava o mundo naquele final de década?
           O ano de 1959 começou com os rebeldes comandados por Fidel Castro apeando do poder, em Cuba, o ditador Fulgencio Batista. Os integrantes do exército regular que tentaram deter o avanço dos insurgentes foram fuzilados em massa.
           Em abril Fidel faz visita oficial aos Estados Unidos não sendo recebido pelo presidente Eisenhower e sim pelo vice Richard Nixon. Apesar dos protestos do governo quanto às execuções políticas em massa, os liberais norte-americanos simpatizam com Fidel.
           Em maio, Castro visita o Brasil e em 10 de junho, Cuba e Estados Unidos rompem relações diplomáticas. Começava um drama que até hoje não tem hora prevista para acabar...
           No Brasil, o sorriso otimista de Juscelino rendia dividendos para o povo. Além de campeão mundial de futebol, sonho frustado desde 1930, o Brasil torna-se também campeão mundial de basquete, vencendo inclusive os inventores do esporte, os norte-americanos. A tenista Maria Ester Bueno sagra-se campeã em Wimbledon e Forest Hills; no atletismo Ademar Ferreira da Silva continuava recordista mundial no salto-triplo.
           Na música, as coisas andaram tristes. No Brasil, morre Villa-Lobos e nos Estados Unidos, Billie Holiday.
           Na política, os paulistas sufragam nas eleições municipais de 3 de outubro, o rinoceronte Cacareco, com mais de 100 mil votos para vereador...

          
            - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito ao longo de 2001 em Arraial do Cabo..







segunda-feira, 30 de julho de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 11 - O PROFESSOR

          
           E agora! Um ano perdido!
           - Levanta cabeça, “coloca o rabinho entre as pernas” e toca para frente – dizia, repetidamente, mamãe.
           O que me deixava louco é que me dava bem em álgebra e analítica, em trigonometria e geometria, em desenho, respectivamente primeira, segunda e terceira provas em cada uma das faculdades.
           Daí para frente, vinha a catástrofe: ou física, ou química, principalmente esta, a grande vilã de minha história. Quando não era uma era a outra a complicar minha vida.
           Nova matrícula no C.O.S. (curso vestibular), mais despesa para papai...
           Precisava dar uma virada na minha vida e, sobretudo começar a ganhar algum dinheiro.
           Comecei a dar aulas particulares de matemática.
           Em pouco tempo já tinha uma pequena coleção de alunos.
            Recebia elogios, principalmente vindos dos pais, que felizmente, talvez pelo agrado do serviço recebido, pagavam religiosamente em dia.
           Isso bastou para convencer-me; eu era um bom professor, e meio que “metido a besta” comecei paulatinamente a aumentar o custo dos serviços, alegando petulantemente que não tinha mais horários, o que não era de todo mentira...
           Procurando tirar-me da “fossa” inicial, tão logo recebera os resultados das provas, Guido me convidara, para em tempo parcial, trabalhar como auxiliar dele nas obras que conduzia para sua firma a Severo e Vilares.
           Primeiro serviço, obra na Rua Campos Sales, 166.
           Realmente não havia grande disponibilidade de horários. Pela manhã a Severo, à tarde o “cursinho” e, à noite, aulas particulares.
           Pouco tempo sobrava para estudar e praticamente nenhum para diversão. Mas era isso que eu queria, pois tinha de recuperar o tempo perdido e fazer um “pé de meia”, afinal estava namorando “firme” e em breve iria querer casar...

           - Excerto de meu livro "Cheiros da Vida" escrito ao lonngo do ano de 2001



quinta-feira, 26 de julho de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 10 - O NOTÁRIO



           Como o Brasil chegou ao Século XXI?
           Há no país mais de 21 milhões de crianças cujas famílias têm renda inferior a meio salário-mínimo, ou seja, 35% da população nesta faixa etária.
           A cada 1000 nascimentos, 36 bebês morrem antes de completar um ano e, 40% dos mais pobres da população ganham o equivalente a 8% da renda nacional enquanto os 20% mais ricos ficam com 64%.
           No ensino fundamental estão matriculados 93% das crianças entre 7 e 14 anos e apenas 50% da população entre 15 e 18 anos estão matriculados no ensino médio. Neste item ocupamos o 94º lugar no ranking mundial abrangendo 165 países. Estamos um pouco pior que o Equador.
           Naquele final de 1958, prestes a terminar meu 2º grau, nem de longe estava consciente de que o futuro poderia levar o meu país a esta situação.
           Também não imaginava até onde poderia chegar a humanidade, invadida pelo “capitalismo selvagem”: “O que se deve fazer quando um concorrente está se afogando? Pegar uma mangueira e jogar água em sua boca”, frase maldita de Ray Kroc, fundador da rede de lanchonetes McDonald´s.
           Sem dar muita importância, lia nos jornais que o presidente Juscelino iria levar o Brasil a romper com o Fundo Monetário Internacional, o que realmente aconteceu, mais tarde, em 28 de junho de 1959 em discurso proferido no Clube Militar.
           Dezembro chegara, e no dia de minha formatura, ardia em febre. Pensava até que estava com a “gripe asiática” que fizera muitas vítimas por aqueles tempos. Mesmo assim compareci a todas as solenidades; missa pela manhã e colação de grau à noite, na capela e no salão de festas do colégio.
           Foram onze anos de São José. 
           Adeus!
           Sem tempo para curtir as saudades que apertavam o coração,  era pensar somente no vestibular, que começaria tão logo janeiro chegasse.
           O importante: naquela época passar no vestibular e ingressar numa escola de engenharia, significava definir seu futuro com absoluta certeza.
           Bastava seguir o ritual dos dois primeiros anos básicos, seguidos dos três anos na especialização escolhida, provavelmente um estágio no 5º ano e depois de formado a garantia de um emprego.
            Evidentemente, situação bem diversa dos dias atuais em que um diploma de curso superior nem de longe garante um emprego digno.
           Os últimos dias de dezembro foram consumidos na corrida aos papeis: diploma do 2º grau, fichas 18 e 19, atestados de idoneidade moral, de saúde, de regularidade com o serviço militar, mais isso e mais aquilo, tudo devidamente autenticado com firmas reconhecidas em cartórios diversos.
           E eram várias vias, pois tentaria o vestibular na Nacional, na PUC e na Fluminense.
           Um primeiro impacto: tomar conhecimento da burocracia inútil e rendosa, para alguns parasitas, que até hoje maltrata o cidadão comum.
           Caso insólito era do tabelião Roussoulieres, estabelecido numa pequena loja de um só ambiente na Rua da Conceição, no centro de Niterói.
           Já bem castigado pelo tempo, cabelos quase totalmente brancos em desalinho, barba cansada de esperar navalha, físico mirrado escondido pelas roupas surradas sustentadas por largo suspensório, nosso personagem permanecia alguns momentos escondido atrás de uma velha escrivaninha.
           Ao fundo alguns arquivos empoeirados que pareciam de há muito não ter serventia. Separando-os dos clientes, um largo balcão enchendo toda a largura do salão.
           Bastavam seis a sete pessoas para que mais ninguém pudesse entrar na loja.
           Nesse momento, o respeitável notário levantava-se e começava o discurso ensaiado.
           - Estão todos acomodados? Pois bem, vou ensinar como fazer: abram todos os documentos em forma de leque. Deixem um espaço em cada um que permita ser carimbado – mostrava o rançoso timbre -, e os segure com a mão direita. Contem quantos documentos cada um tem para autenticação. Na mão esquerda, coloquem o dinheiro, vinte centavos para um documento, quarenta para dois, assim por diante.
             Após esta instrução, entrava em ação carimbando, assinando e recolhendo o dinheiro com espantosa velocidade. Não verificava assinatura, finalidade do papel, sua origem, nada.
           Acabada a faina, dispensava todos os clientes e voltava para sua escrivaninha à espera de nova leva de otários.
           No Rio, havia o Tabelião Hugo Ramos que também ficou bastante conhecido, à época, pela fama conquistada em reconhecer firma até de quem ainda iria nascer...
           Uma triste piada! Era o desenho do país que começava a se esboçar para mim.
           Nacional, PUC e Fluminense: “Levei pau” nas três.
  
         - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001

domingo, 22 de julho de 2012

CHEIROS DA VIDA - 9 - O "SOGRINHO"


 

           As coisas estavam indo bem. Vez por outra enfrentava as gozações dos amigos: “criando a ‘menina’, hem? Dá-lhe ‘maroto’! É bom comprar um bom estoque de fraldinhas...”.
           Ou então: “toma juízo, a garota não tem nem quinze aninhos...”.
           De certo se referiam ao tipo físico da Tânia que aparentava ter menos idade que a real. Mas eu, que convivia com ela, sabia de sua maturidade, se bem que às vezes muito tímida outras, meio que desconfiada e quase sempre com um entusiasmo menor do que eu esperava, me deixava bastante confuso, e para que não dizer, nos maus dias, decepcionado...
           Nada, no entanto alterava meus sentimentos. Seria amor aquilo que dia-a-dia crescia no meu íntimo?
           Finalmente minha namorada fez 15 anos. Abriram-se os portões da Morais e Silva 19 para uma grande festa e eu, orgulhosamente, dancei a valsa dos seus quinze anos – Valsa do Imperador – diante dos olhos indagativos de familiares e convidados, e quentes de amizade de meus escolhidos colegas de colégio e amigos, principalmente a “turma” do Saboialima Clube.
           Depois da festa, as gozações mudaram.
-         Estás criando a “menina” para dar o “golpe do baú”!
-         Vai ser “dono” de laboratório? “Garoto cara-de-pau”, não
respeita nem o colega de turma!
           - Com um “sogrinho” assim, até eu... - diziam os mais “folgadinhos”.
           Realmente, o Dr. Mário, pai da Tânia, era dono do Laboratório Giffoni, o que, já naquela época, não significava tanta coisa assim, tal a invasão das multinacionais no mercado farmacêutico.
           Na verdade, com a convivência que mantinha com a família há algum tempo, era testemunha das dificuldades que enfrentava o Dr. Mário para levar a bom termo seus empreendimentos, sobretudo considerando a seriedade com que conduzia seus negócios.
           Com o transcorrer dos anos aprendi a respeitar a figura singular cheia de humanismo, Dr. Mário, ou melhor, o “sogrinho” como diziam meus amigos apressados.

           Abaixo foto de Tania na festa dos seus "Quinze Anos"




          - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - 8 - CARIOCAS



           Zona Sul, Zona Norte, Subúrbio, Zona Rural...
           Não havia o Túnel Santa Bárbara, muito menos o Rebouças e nada de linhas Vermelhas, Lilases, Amarelas ou lá que cor fosse.
           Os telefones eram poucos, “coisa de rico”, assim como a televisão. Os automóveis, no embalo dos “cinqüenta em cinco” (1), começavam timidamente a se multiplicar.
           O que integrava a cidade era o bonde, este sim o transporte democrático “pra valer”, confiável, a menos que o blecaute viesse a interromper sua missão. Os 600 bondes da Light percorriam diariamente 84 mil quilômetros e transportavam uma média de 600 mil passageiros.
           O certo era que havia uma dicotomia, senão física, certamente social na cidade. No colégio ficava fácil identificar a origem de cada um, se bem que a maioria expressiva vinha mesmo da Zona Norte: Tijuca, Grajaú, Andaraí, Vila Isabel e com boa vontade, Lins de Vasconcelos.
           Para o resto, havia uma velada e mútua discriminação. Uma verdade que nem de longe percebíamos  envolver algo mais sério, perigoso, abominável: o “preconceito”...
           A turma da Zona Sul era a que mais extravasava esta má-formação que em maior ou menor intensidade todos abrigavam. Algumas discussões e até brigas aconteceram. Afinal, vinha o argumento decisivo, irretorquível, e humilhante, quase em forma de veredicto: “vocês tijucanos não têm praia!”. E fim de “papo”.
           Dizem alguns filósofos-espiritualistas que uma chamada “Lei do Progresso” preside um movimento de geral evolução progressista e construtivo que estaria de acordo com a Providência de Deus.
           Segundo tal lei o ser humano, a natureza, a sociedade, estariam em constante estado de evolução, inclusive envolvendo a estrutura psíquica do homem.
           Assim, “haveria um progresso espantoso quanto ao que se classifica como pré-conceito” – que significa a capacidade humana normal, necessária e construtiva de formar uma idéia prévia a respeito de um assunto, possibilitando a elaboração final de um conceito racional -, em contraposição ao preconceito, que se manifesta num comportamento deletério, uma verdadeira patologia destrutiva muitas vezes aceita sem restrições pela sociedade.
           Parece que tal “Lei do Progresso” ainda não vingou por aqui.
Afinal todos, em maior ou menor grau, temos inatas parcelas de preconceito difíceis de serem transpostas.
           Ainda há pouco tempo transformou-se em best seller um livro cujo título era excludente e preconceituoso por excelência:  “Ela é carioca – uma enciclopédia de Ipanema”.
           Ao lê-lo tem-se a nítida impressão que durante longo tempo, tudo de bom nas artes, hábitos, costumes, etc. aconteceu apenas em Ipanema em detrimento do resto da cidade. Fora daquela área não existiam vidas inteligentes, muitos menos cariocas...
           E como nos orgulha ser carioca!...

         - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001




_________________                     
           

           (1) – Juscelino Kubitschek de Oliveira, eleito em 1955, lançou o famoso Plano de Metas, cujo slogan era “50 anos em 5”; foram incentivadas a indústria naval, a industria automobilística, a siderurgia, as grandes usinas hidrelétricas de Furnas e Três Marias e, a polêmica construção da nova capital, Brasília.


segunda-feira, 16 de julho de 2012

'CHEIROS DA VIDA" - 7 - A CONSTRUÇÃO


           Estava animado.
           De há muito precisava de um namoro “firme”. Estava realmente animado e ao mesmo tempo intrigado...
           Animado!
           Fazia bem ter uma namorada; era um novo estímulo para continuar batalhando aquele resto de ano, tentando ordenar um pouco mais minha cabeça, selecionando com algum critério prático as atividades que realmente influenciariam meu futuro.
           Isso... Agora, pensava muito no futuro, que se Deus quisesse não seria só meu.
           Intrigado!
           Minha namorada era, fato sabido, irmãzinha de meu amigo Carlos Alberto. Por conseqüência, eu já freqüentava a casa fazia tempo, conhecia a todos com certa intimidade. Como ficaria nosso relacionamento, meu e da família Giffoni daqui para frente?
           A meninada de hoje não pode, nem de longe, imaginar o que significava um “namoro firme” naqueles tempos. Dizem hoje: tempos aqueles de uma sociedade muito chegada a uma hipocrisia, plenos de convenções arcaicas que não levavam a lugar algum, de hábitos conservadores impregnados de falsos pudores.
           Tal raciocínio pode até acolher uma alta dose de verdade, por outro lado, não é menos verdade que havia mais respeito aos que nos antecederam, reconhecendo suas lutas, dando-lhes valor por tudo que tinham construído e, sobretudo, vendo neles um grau de experiência alcançado ao longo de toda uma vida, como a nossa, também feita de desejos, sonhos e quimeras.
           Deixada minha intriga de lado e, considerando a evidência da nova situação, até que as coisas se ajustaram com certa facilidade. Evidentemente eu queria muito mais liberdade, possibilidade de ficar mais tempo com minha “garota” sem presença de “terceiros”.
           Mas estávamos em 1958!
           As regras: namorar, só aos sábados e domingos; se a tarde, não à noite. Depois das 10, nem pensar. Feriados: talvez... Véspera de provas, nunca. Festinhas, só muito bem acompanhados, por irmão, tia ou alguma mãe de muita confiança. Cinema: inconcebível sozinhos...
           O namoro consolidava-se numa série de pequenas conquistas.
           Essa, a palavra chave: “conquista”.
           Hoje me parece que os relacionamentos são como “pratos-feitos”; alguns já vêm até um tanto “frios”. Rapidamente esvaziam-se pratos e mais pratos. Tudo sem a construção, tijolo a tijolo, conquista a conquista...
           Acho que a minha “construção” foi muito “sólida”, às vezes sofrida, quase sempre gostosa...

           - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001



"CHEIROS DA VIDA" - 6 - A SUPERPOTÊNCIA



           Li em algum lugar que o mundo experimentaria nos cinco primeiros anos de Século XXI, progresso tecnológico equivalente aquele acontecido ao longo das três últimas décadas do século passado.
           A nota nada falava sobre o progresso social da humanidade nesse novo período.
           Por coincidência, dias depois, devido a essa mania muito minha de guardar revistas e periódicos antigos, caiu-me às mãos uma revista “Seleções” do Reader’s Digest de fevereiro de 1962, onde em artigo assinado por tal de Robert O’Brien constavam algumas ponderações de como será “Daqui a Quarenta Anos”, este era o nome do artigo.
           Humildemente, começava o seu relato afirmando: “Nin guém poderá responder com certeza. Mas certos atributos da vida no ano 2002 – bem como muitos problemas que nos desafiarão – já começam a despontar no horizonte. Outros podemos apenas adivinhar: eles serão moldados por decisões ainda não tomadas, pelas lutas que ainda não aconteceram”.
           E como aconteceram... Um ano antes da publicação desse artigo, em dezembro de 1960, no Vietnã do Norte, era constituída a FNL, Frente Nacional de Libertação que junto com o Exército Vieticongue, ambos comunistas, preparavam uma reação contra a intervenção norte-americana no Vietnã do Sul que apoiava Ngo Dinh Diem.
           Eram os primeiros passos para a Guerra do Vietnã que só terminaria em 30 de abril de 1975 com o rendimento incondicional do general Duong Van Minh ao vietcongue. Em síntese, a derrota norte-americana custaria à vida de 45.941 de seus soldados, mais de 300.000 feridos e uma imensa legião de neuróticos e psicopatas.
           Depois e paralelamente, viriam as guerras do Camboja, do Líbano, do Irã, do Iraque, e muitas outras. Nunca mais se experimentou a paz, o que confirma o conflito Árabe-Israelense, sem fim previsível.
           Mas voltemos ao artigo supracitado que entre outras coisas previa:
           “O operário trabalhará em média 28 horas por semana e terá fins-de-semana de três dias;
           Por volta de 2002 teremos controlado a fusão termonuclear, a força cataclísmica da bomba de hidrogênio. Se assim for, poderemos “queimar o mar”, uma fonte de energia para muitos e muitos milhares de anos;
           A congestão do tráfego urbano será aliviada por monocarris de alta velocidade, passando a 30 metros acima das ruas;
           Os caminhões serão objetos de museu; é provável que os abastecimentos e as cargas atravessem o país em tubos pneumáticos, com controles eletrônicos que guiem os diversos embarques através do sistema para seus destinos.
           O transporte pessoal?  Prevêem-se carros silenciosos, sem descarga, impulsionados por pilhas de combustível elétrico. Para viagens curtas na cidade, poderemos amarrar no corpo um cinturão-foguete... e pular;
           Na área central das cidades será eliminado o tráfego de veículos. Esteiras transportadoras subterrâneas abastecerão a cidade e farão todos seus transportes de cargas;
           Satélites artificiais servirão de estações de relê, permitindo sistemas globais de televisão e telefonia;
           Por volta de 2002, dizem os pesquisadores, as vitórias sobre o resfriado comum e outras infecções da região superior do aparelho respiratório farão parte da história da medicina;
           Daqui a cinco breves anos três norte-americanos circundarão a lua e voltarão a terra e, antes de 1970 homens irão desembarcar lá e andarão na superfície lunar;
           O homem terá conquistado o especo exterior. “O uso que fará dessa grande oportunidade – para o bem ou para o mal – só a passagem dos anos poderá revelar”.
           No caso do Brasil, o autor era coadjuvado pelo professor Pimentel Gomes, livre-docente do Colégio Pedro II engenheiro-agrônomo, e articulista do finado jornal “Correio da Manhã”.
           Lamentavelmente os acertos do nosso professor não foram assim, infelizmente, expressivos. Escrevia então o nosso estimado lente:
           “No fim do Século XX o Brasil terá aproximadamente 125 milhões de habitantes;
           Será uma das cinco superpotências mundiais. As outras serão os Estados Unidos, a União Soviética, a China e possivelmente a Índia, se conseguir vencer uma tantas dificuldades;
           A Amazônia com seus problemas solucionados pela técnica estará em pleno desenvolvimento;
           As terras irrigadas pelo São Francisco terão criado um novo Egito em glebas de Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe. Haverá uma grande produção de uvas de mesa, passas, figos e vinhos, além de gigantescos centros industriais;
           As bacias dos grandes rios estarão interligadas pelas águas internas; navios saídos de São Paulo atingirão Porto Alegre, Cuiabá e Manaus;
           O Brasil será de fato uma superpotência”.
           Acho que não há necessidade de comentários. Cada leitor fará sua análise avaliando tudo que foi previsto.
           Ia me esquecendo: a população do Brasil ao final do Século XX era de 166 milhões de habitantes.

           - Excerto do luvro "Cheiros da Vida" escrito ao longo do ano
 de 2001.


sábado, 14 de julho de 2012

CHEIROS DA VIDA - 5 - "O CONFETE SOLITÁRIO"


                  “Chorar, como eu chorei
                            Ninguém deve chorar
                             Amar, como eu amei
                            Ninguém deve amar.

                            Chorava que dava pena
                            Por amor à Madalena;
                            E ela, me abandonou,
                            Diminuindo no jardim
                            Uma linda flor”.

           Nem parece. Esta, no entanto, é a letra de um samba dos carnavais da minha adolescência. Carnavais onde o lança-perfume, por exemplo, nem de longe era proibido. Apenas deslizava no ar o rasto de seu aroma de conquista e felicidade.
           De quando em quando, irremediavelmente atingida pelo jato gélido de nosso “lança”, a menina dos nossos sonhos declamava, aos arrepios, um “ai”, tão poético e avassalador, que enchendo-nos de paixão, deixava-nos enamorados pelo menos à espera do footing seguinte, do próximo baile ou até, quem sabe, do vindouro carnaval.
           Confetes e serpentinas eram testemunhas emudecidas da nossa “brincadeira”. Com elas brincávamos o carnaval e com elas dividíamos nossos fracassos ou sucessos.
           Muitas vezes dormitando descuidado nos fundos de uma gaveta pouco usada, um solitário confete, azul, amarelo, verde ou rosa, não importa nos surpreendia com sua solidão irremediável arrancando de nossos olhos uma lágrima de gostosa saudade.

           - ^Crônica extraida de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001




quarta-feira, 11 de julho de 2012

CHEIROS DA VIDA - 4 - "O POETA DE CORDEL"

    
           Aquela noite passei-a em claro. O perfume colado ao meu rosto, a sensação morna daqueles cabelos fininhos acarinhando meus braços, os olhos verdes, ora no infinito ora embaraçando-se aos meus, as palavras ditas quase silentes, a respiração momento após móomento mais ofegante, o “sim”...
           Todas estas cenas repetiam-se na minha memória, sem cansaço. E sentia,sentia, assentia... Parecia que a noite, a festa, os amigos, a música, nada havia terminado; eu continuava nas nuvens. Enamorado, apaixonado, bobo...
           De repente, o “agora José!”.
           Está tudo muito bom, tudo muito bem, mas e a tua vida “cara”? O vestibular, os desafios a enfrentar te esperam! Como vai ser?
           Acho que sempre fui assim.
           A cada conquista, a cada nova vitória, a cada passo à frente, após o deslumbre do primeiro momento vêm-me de assalto as responsabilidades, os riscos. Sempre o “agora é contigo”, “se vira rapaz”, não decepcione, não decepcione, não decepcione...
           Mas o momento era “prá lá de bom”.
           Às favas tudo mais!
           Na verdade aquele 1958 vinha sendo um ano muito especial, e agora, mais. Afinal, minha grande conquista acontecera.
           Inesquecível aquele ano.
           Por exemplo: naquele ano, alguma coisa inestimável e perene iria surgir com o disco “Canção do Amor Demais” em que Elizeth Cardoso cantava composições de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
           O importante: desse disco participou um quase desconhecido João Gilberto, com seu violão contido e intimista, ousando uma batida delicada e diferente que mereceu de imediato a atenção dos entendidos, o coração dos namorados, e sem demora conquistaria o mundo.
           Estava estabelecido em definitivo o estilo que veio a chamar-se “bossa-nova”
           Naquele ano o Brasil ganharia pela primeira vez a tão sonhada Copa do Mundo e, pasmem, era instalada entre as cidades de  São Paulo e Santos a grande novidade em telefonia, a Discagem Direta à Distância, o DDD, primeiro sistema a ser implantado em toda a América Latina.
           Naquele ano eu terminaria o curso científico, com festa solene de formatura, como de praxe, e daria adeus ao “São José”.
           Enquanto isso era composto um poema de cordel, considerado obra literária de pouco ou nenhum valor. Pelo menos é o que pensavam o dicionário e os intelectuais. Seria mesmo?

           A esperança do pobre,
           Quase toda é vice-versa,
           O peixe cai pela isca,
           O velho pela conversa,
           A galinha pelo milho,
           O pobre pela promessa.

           A humanidade campeia
           Nutrida por um consolo,
           A mulher não quer ser feia
           Nem o homem quer ser tolo.

           Não se engane com o mundo
           Que o mundo não tem que dar;
           Quem com ele se iludirem
           “Iludido há de ficar.”

           Esta pérola “obra literária sem nenhum valor” foi escrita pelo poeta popular João Martins de Athayde que viveu entre 1877 e 1959.
           No poema, nenhuma literatura, algum valor estético e muita sabedoria. Tudo vida e aprendizado resumido em poucas linhas.
           Certamente, experimentados filósofos levariam anos para explanar em volumosos tomos, rebuscados de elucubrações mil, toda a filosofia primitiva escondida nesses toscos versos.
           Assim sentia-me naquele julho de 1958, um poeta de cordel, achando tudo simples e bom de viver. Muita coisa mudara em minha vida.
           Algumas seriam definitivas.
          
        - Trecho do meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001                   
                                 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

CHEIROS DA VIDA - 3 - "MEUS “OLHOS VERDES”

          


           Chegou na hora certa!
           Julho mês de férias e de festas quase todos os dias. Este era o programa certo de uma jovem classe média tijucana com menos de vinte, naqueles estertores dos anos cinqüenta.
           Depois das festas, madrugada já adiantada, um programa mais ousado, um pileque bissexto, ou “pra caminha” que a “italiana” é brava.
           Um amor! Um amor consolidado no meu íntimo, fazia tempo. E começava a doer...
           Estava na hora de extravasá-lo!
           E aconteceu...
           Dia 20, sábado, eram quase 10. Noite novinha de estrelas no céu ainda despreocupado com a “camada de ozônio” e de outros componentes de reputação não recomendável. Dez da noite; todos à casa dos “natalenses arretados” Edson, Zé Murilo e Néocles com bom sotaque e donos de uma amizade afiançada.
           No gigante “Edifício Genarino”, dominando o panorama da pacata Tijuca, começava um “arrasta” de boa cepa, com discos novos, alguns “estéreos”, outros “mono”, mas todos “33”.
           Muita “cuba-libre”, aliás, difícil de engolir. Melhor um “hi-fi” garantia de rápida animação e, para as meninas, “ponche”, esta sim bebida de “maricas” ou de “viado”, assim se escrevia, com “i”; sinal evidente de respeito ao pobre bichinho de galhos largos que não merecia ser responsabilizado pelos modos não muito convencionais de alguns meninos, digamos assim, “delicados”. Isso, evidentemente, naquela época.
           A festa estava armada para ir até duas da “matina” ou mais um pouco, dependendo do comportamento da moçada e do humor ou do sono dos donos da casa. 
           De repente, na “vitrola”, um disco da “parada”: “Uma noite no Arpége” com Waldyr Calmon (*) e seu conjunto. Eram vinte minutos de música contínua. Tempo certo para um “flerte” ou, no meu caso, o que interessava: uma conquista.
           A meia-luz, a mescla de perfumes suaves envolvendo os casais enlaçados, a mansa brisa a movimentar levemente as cortinas qual tremular do véu de uma noiva nervosa, o doce rumor dos sussurros enamorados, tudo isto favorecia a criação do clima que imaginava ser o ideal.
           Finda a dança, estava de namorada nova; a prenda longamente sonhada e, para mim, a definitiva.
           Meus “olhos verdes” finalmente conquistados.
           Estávamos “amarrados”, nós, eu e Tania, a irmãzinha do meu amigo...

                                                        

           - Trecho do livro "Cheiros da Vida" escrito por mim em 2001


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           (*) – Na contra-capa do LP “Uma noite no Arpége”, Sérgio Porto, jornalista, escritor, autor de teatro, humorista e compositor do “Samba do Crioulo Doido” e também chamado se Stanislaw Ponte Preta, comenta: Em Waldir Calmon, a par de sua impressionante técnica e do seu inevitável virtuosismo, o que mais impressiona é a versatilidade, a capacidade que tem de se adaptar a todos ao ritmos dançantes – nacionais ou estrangeiros... É, portanto, o pianista ideal para conjuntos dançantes de boates, onde é preciso contentar o gosto variado de centenas de bailarinos”.
           Por ocasião de sua morte em abril de 1982, Artur da Távola escreveu. “... Possivelmente, o jovem de hoje nem saiba quem era aquele musico de que tanto se falou no Domingo passado – dia em que morreu. Mas, as gerações que dançaram ao som de seu piano, rostinho colado, sentiram a morte do músico, poi ele estava ligado a vivências românticas de sua juventude... O som de se ´solovox´e do seu piano nítido e ritmado ainda perdura nos ouvidos desta geração...”  

ATENÇÃO:  não deixem de ver em  http://www.youtube.com/watch?v=5uCPo6p97Pw&feature=related

Também não deixem de ver: http://www.youtube.com/watch?v=mX3oFBnRXQ4&feature=related

sábado, 7 de julho de 2012

CHEIROS DA VIDA - 2 - "ALLEGRO VIVACE"



           O “Digital Audio System NSX-V8000” espalha pela casa acordes arrebatadores, gerando emoções duradouras.
           Trata-se de uma gravação em “Compact Disc” da Nona Sinfonia de Schubert, também chamada “A Grande”.
           Esta sinfonia está entre as minhas preferidas, talvez por ser assim, grande. Os quatro movimentos clássicos são percorridos em cerca de cinqüenta e seis minutos. E lembrar que Schubert à época quase foi crucificado exatamente por esse motivo: composição longa em demasia.
           Na vida tudo é cativo de seu tempo certo e por conseqüência, duração adequada; ainda mais neste engatinhar do novo milênio, quando a excessiva agitação do mundo exterior nos faz necessitar de certa preparação do espírito para poder absorver toda a emoção escondida numa obra de arte.
           Talvez a calmaria com que, imagino, transcorria a vida nos idos do Século XIX desprezasse tais requintes. Mas, hoje, esta intermitência é imprescindível. Isso, exatamente isso, acontece nessa sinfonia: toda uma elaborada preparação para a degustação solene do “allegro vivace” final.
           “Digital Audio System”, “Compact Disc”: será que na Viena de 1828 os cidadãos ousariam imaginar que num futuro não tão longínquo poderiam ouvir estes sons orquestrais de total maturidade, no momento e onde quisessem, com a orquestra preferida comandada pelo maestro predileto. E mais, sem distinção de classe ou categoria social.
           Ouso afirmar que não.
           Estes sons eram privativos de uma elite, que talvez nem estivesse preparada, ou, o que é mais provável, interessada em tais sabores. Certamente, ocupavam prioritariamente suas preocupações mais imediatas, o poder, o dinheiro e a sedução.
           Visto sob esse ângulo somos uma sociedade privilegiada. A tecnologia nos permitiu tais prazeres. Pelo menos sob esse ângulo...
           Por outro lado, Franz Schubert viveu entre 1797 e 1828; parcos trinta e um anos para desenvolver tão grande obra. A sífilis devastou-o prematuramente.
           Passados duzentos anos, sua obra ainda sensibiliza multidões. O milagre de sua emoção ainda vive...
           Isso. Ultimamente tenho pensado: o tempo, a emoção, a vida...
           Seria 1952, 1951, 1950? Não lembro mais. Meu irmão Guido apareceu em casa com um toca-discos de segunda mão, comprado de seu colega Paulo Sergio. E alguns discos também.
           O amplificador de pouca potência fazia chegar, junto com a precariedade que era peculiar às gravações da época, os parcos sons emitidos pelas famosas “bolachas” de 78 rotações por minuto.
           Grande discoteca tinha meu irmão! Dois discos...
           Lembro ainda da primeira música que ouvi fabricada por aquele “moderno” aparelho que “espontaneamente” tocava música, foi Y have only eyes for you.
           Completavam a “bela” discoteca, dois boleros na voz do cartaz da época: Gregório Barrios .
           E Schubert? Que tem há ver com tudo isso?
           Penso que toda minha vida foi um preparar para o “allegro vivace”. Chegou a hora. É possível. Vale à pena tentar.
           Finalmente o “allegro vivace”.  Quero degustá-lo com todo o vagar possível...
                      
           Em tempo: deixa-me chocado saber que os cada vez mais perfeitos aparelhos de som além de propagar os acordes de um Schubert, um Mozart, um Vivaldi e porque não incluir nesta lista, um Tom Jobim, um Cole Porter, por outro lado, e o que é assustador, cada vez mais são obrigados a “berrar” um “Claudinho e Bochecha” ou levantar loas às “popozudas”, às “preparadas” e às “tchutchucas”.
           É duro, mas tenho que aceitar. Com veementes protestos e intenso mau humor, evidentemente.


          ATENÇÃO - Ouça e veja o Allegro Vivace com a Sinfônica de Viena

                                 http://www.youtube.com/watch?v=Uk0n4OgqnZw&feature=related

          - Trecho de  meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2001