Ainda uma vez, anos mais tarde, eu iria perturbar o descanso hebdomadário do Sr. Cesar, meu pai, e mais uma vez o futebol seria o motivo da discórdia.
Numa época civilizada em que se jogava apenas nos fins de semana, tínhamos no Maracanã o clássico Flamengo e Botafogo.
Uma vitória do nosso time do coração significava uma semana de euforia. Hoje, o time ganha no domingo e já perde na terça. Onde está a graça?
Mas voltemos à nossa história. Maracanã: Flamengo e Botafogo, aliás, por que não Botafogo e Flamengo? Assim fica bem melhor: Botafogo e Flamengo.
Como de hábito, rádio ligado na Nacional com a transmissão de Jorge Cury e Antônio Cordeiro, o “speaker-cronista” como era chamado.
No quarto calorento de um início de tarde, na cama, deitado, eu.
No chão, por ser mais fresco – o chão, naturalmente - também deitado, meu irmão Luiz Cesar, portador de um tremendo mal-gosto, torcedor do Flamengo.
Entre nós, sobre a mesinha de cabeceira, um inocente e comportado rádio, envernizadinho como novo, naqueles tempos chamado de “rabo quente”. Ele seria o motivo de todo o desaguisado.
Jogo em andamento: Botafogo 1 x 0 ; euforia, minha é claro.
Mais um pouco: Botafogo 2 x 0 ; o céu.
E lá se foi o primeiro tempo, irretorquível.
Segundo tempo e tudo indo muito bem, até que lá pelas tantas o Flamengo faz o seu primeiro gol.
Coisa normal, tudo sob controle.
Mais alguns minutos e o preocupante empate aconteceu devido à falha de um goleirinho “chinfrim” chamado Joselias.
Inesquecível este nome: Joselias. Um pouco mais, e um clamoroso “frango” do “competente” Joselias daria o resultado final ao jogo e o pior, o natural revide de gozações por parte de meu “querido” irmão.
A reação foi imediata: joguei o rádio na cabeça do “rubro negro” debochado.
Logo, barulhada infernal, meu pai acordando e procurando apurar o que teria acontecido.
Foi fácil descobrir o culpado. Era oportuno puni-lo.
Ato contínuo saí numa desabalada carreira escada abaixo e meu pai atrás. Sala, cozinha, copa, novamente cozinha e o “gaúcho” na perseguição. Quintal, cozinha, sala, escada acima e a perseguição continuava.
Estava difícil fugir da merecida sova.
Finalmente fiquei sem saída no canto do quarto.
Estou perdido! Espero pelo pior.
Quando mais nada havia a fazer, olhos fechados sinto as mãos de meu pai no meu braço, e a surpresa. Ao invés de um aperto dolorido, a sensação era até agradável.
Abro os olhos e antes de não conseguir reprimir uma sonora gargalhada, vejo meu pai de dedo em riste dizer, sem muita convicção: “Da próxima vez tu não me escapas!”.
Nem uma palmadinha de leve, de leve. E o mais importante: nunca aconteceu “uma próxima vez”.
Qual! Definitivamente meu pai não era chegado a estas violências.
Graças a Deus, sempre foi assim.
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(*) – Este jogo inditoso foi realizado no dia 12 de dezembro de 1954. Os gols do Botafogo foram marcados por Dino e Carlyle.
Os do Flamengo não interessam...
O Botafogo jogou com um goleiro, de nome esquecido, Gerson e Nilton Santos; Ruarinho, Bob e Danilo; Garrincha, Dino, Carlyle, Paulo Valentim e Vinícius. Era assim que os times eram escalados: um goleiro, dois beques, três médios e cinco atacantes.
Obs: trecho de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997
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