por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 27 de março de 2012

6 - CHEIRO DE VERÃO


         Ainda hoje, passados tantos anos, ao aproximar-se o verão, chega pelo ar certo cheiro que lembra a minha infância. Não sei explicar este aroma que nem a poluição conseguiu destruir.
Agora, quando a necessidade de envelhecer com um pouquinho mais de saúde e dignidade nos obriga a longas caminhadas na tentativa de enganar os triglicerídios e aplacar a ira da pressão arterial, as ruas da Tijuca tem sido um campo fértil para avivar as lembranças.
Acho mesmo que estas jornadas, mais do que resolver um problema físico, tem colaborado para que ressurjam sentimentos, muitas vezes nostálgicos, motivando um inventário destas saudades.
         Quando passo pela entrada da vila de eu criança, agora irrevogavelmente barrada a estranhos por um horrendo portão de ferro - para a vila de hoje, sou “apenas” um estranho -, ai, neste momento, sinto o cheiro de verão.
Acho, até, tratar-se de algo mais chegado ao psicológico do que ao real, pois nosso Trapicheiros ultimamente não tem primado pelo bom comportamento.
         O rio Trapicheiros, bem comportado, tinha águas límpidas onde a pesca de “douradinhos” era ofício de “entendidos”, habilidosos no lançamento do vidro transparente de boca larga, no extremo da linha bem apertada, levando no seu interior a isca: miolo de pão.
Suprema fortuna era a captura daqueles seres maravilhosos que enfeitariam nossos aquários, num efêmero festival de cores e movimentos, com duração de alguns poucos dias.
Cruéis e preconceituosos rejeitávamos os “barrigudinhos”, seres indignos de companhia tão abastada.
         Humilhante, era deixar escapar a isca, devorada debochadamente pela caça que devolvia ao pescador um vidro vazio de peixes.
Também digno de imensa chacota era a pesca dos horrendos e inúteis, para nós, girinos - sapinhos -, ou a quebra do frasco de vidro em alguma pedra saliente devido a uma mirada e lançamento desastrosos.
Tudo isto era cheiro de verão.
         Verão das cigarras escandalosas no alvorecer e no sol poente, do tumulto dos pardais no entardecer das mangueiras carregadas, das noites suadas em serões de brincadeiras, dos banhos de ducha, sempre que algum adulto descuidado deixasse o registro  d’água sem proteção.
         A terra molhada, mexia com nossa alma e, as janelas, sempre bem abertas, deixavam entrar casa adentro o cheiro de verão.
Infelizmente, vez por outra, enormes e repugnantes baratas cascudas aproveitavam a liberdade das janelas escancaradas assustando, principalmente, as meninas e as mulheres. Eram saudadas por imensa gritaria e por um festival de chineladas, até o “massacre” final. Surgia, então, o “herói” da noite...
Houve um ano, que inventaram um tal “horário de verão”(*).
Mais uma hora de festa intensa com nosso amigo sol, que parecia entender nossa folia, e como amigo de fé insistia em ficar, todos os dias, um pouco mais nas brincadeiras.
E os olhos tristes da linda Wanda? Ficavam ainda mais azuis ao sol de verão...
         Após o Natal, as emissoras de rádio, assim eram chamadas, começavam a divulgar as músicas que animariam o carnaval por vir.
Curioso, naqueles verões ainda não existiam as modernas FMs, e as  transmissões em “ondas médias”, hoje AM, eram captadas com tal clareza, impossível de ouvir-se , hoje, nos mais modernos e sofisticados aparelhos de rádio.
E lá vinham: “É com esse que eu vou”, “General da Banda”, “Pirata da perna de pau”, “Tomara que chova”, “Lata d’água na cabeça”.
         O cheiro de verão começava a esmaecer lá pelos meados de março, quando os dias mais rápidos fazia as janelas fecharem-se mais cedo.
As cigarras começavam a dar lugar ao melancólico cantar dos sapos,
que certamente, lá do rio, lamentavam  a ausência da bulha da garotada, preparando-se para a chegada das longas noites, naquela época, frias de verdade.
Aquele triste cantochão inundava a natureza com as “águas de março”. Eram as derradeiras lágrimas; saudades do cheiro de verão...



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(*) – As primeiras idéias sobre o Horário de Verão foram desenvolvidas por Benjamin Franklin no final do Século 18.
Em 1907, William Willett, na Inglaterra, promoveu uma campanha para adiantar os relógios em 20 minutos a cada um dos quatro domingos do mês de abril. Somente em 1916 o Parlamento Inglês aprovou a medida.
No Brasil as primeiras iniciativas são de 1931 e 1932. Depois, o horário só iria ser implantado entre os anos de 1949 e 1953, atingindo plenamente os verões de 50, 51, 52 e 53. Abrangia o período de 1º de dezembro a 31 de março. É a esta época que me refiro neste livro.



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