Na casa de número dois, numa bucólica vila da Tijuca (*) de então, junto ao rio Trapicheiros, onde vivi ate casar, irá desenrolar-se grande parte de minha história.
Destes dias distantes remanesce a emoção do retorno dos pracinhas brasileiros (*). Nosso vizinho da casa três, Seu Walter, marido de Dona Zita, voltava da guerra naquele dia. Acho que era suboficial, não sei.
O dia da chegada foi inesquecível. Grande festa na vila e a maior bandeira do Brasil, outra tão bela e majestosa não veria por muitos anos e, ainda para completar a gala, iluminada por um gigantesco holofote.
Se isto não foi, eu juro que assim vi. E mais, música, comidas, fogos, gritos, abraços... Tudo, até que eu apagasse num sono profundo no colo de alguém.
A vila, que não tinha nome, foi o grande cenário da minha infância e de relance único, aparecem na memória vários personagens que me acompanharam por muito tempo.
Comparados aos atuais, como pareciam longos aqueles dias, repletos de acontecimentos e personagens: Dona Glória, Seu Arnaldo, seus filhos Joel, o mais próximo de mim, Lair e Ivo; Dona Zita em cujo colo várias vezes dormi quando estava doente, à custa de um incomparável cafuné.
Por questão de justiça é importante salientar que o cafuné feito por Dona Zita era o verdadeiro, o legítimo, tal como faziam os escravos vindos de Angola, com direito àqueles estalidos suaves, ritimados, entorpecentes...
Seu Walter, nosso heroi e o filho Caubí, já rapaz, cuja fama, segundo minha mãe, não era das melhores.
Seu Coelho, solteirão convicto e sua mãe Dona Júlia com seus muitos gatos. Seu Babo da casa “seis” sempre a bordo de sua possante motocicleta “Harley Davidson”.
Dona Aidê e seu marido, o enigmático Dr. Siqueira, nunca juntos; também o sobrinho Dilermano, muito chegado à tia, estes sim, juntos, até demais...
O Doutor Rui que teria muita importância na vida de meu irmão Guido, anos mais tarde. Dona Celina, tia da Wanda, menina linda com seus olhos azuis tão distantes, protegida por uma fera mal sei de qual raça, chamada Dolí, cachorrão que me fez bater vários recordes em corridas desesperadas, coração a mil.
Distante e misteriosa Wanda...
Seu Álvaro Caneco e seu irreprimível charuto, sol ou chuva, impecavelmente vestido, carregando um cinematográfico bigode grisalho combinando com um elegante chapéu, ligeiramente inclinado para o lado esquerdo.
O “velho” Caneco vinha sempre com uma palavra de carinho ou um gesto de aconchego, bem diferente de sua mulher Dona Tereza, cuja feiura resistia a mais moderna maquiagem e, completando o trio, seu filho Vicente muito esquisito, diria “patético-taciturno”. Acho que exagerei, enfim...
A colônia alemã liderada pela Dona Leonor, autoritária, como bem cabe a uma prussiana legítima; seu marido Karl apesar das neuroses de guerra criava lindas pinturas e entregava-se, com certa assiduidade, a majestosos porres, como majestosas eram suas netas, companheiras dos meus nove e poucos anos, Birggit e Tatiana.
Vejo Tatiana, ou Tanucha, na tela de um computador imaginário, com muita nitidez.
Também os alemães da casa nove que chegaram como refugiados, sem nada, nada mesmo e depois de alguns poucos anos estavam muito bem de vida. E “Viva o Brasil”!
Filha dos imigrados emergentes, a linda e suave Kristel mais tarde se tornaria aeromoça da VARIG, e morreria barbaramente assassinada por um marido ciumento lá pelo início dos anos setenta. Na ocasião, após uma sucessão de crimes semelhantes, surgiu na mídia - era assim que se falava? - uma campanha: “Quem ama, não mata!”.
De alemães temos ainda os Henze, um dos quais foi durante alguns anos meu companheiro nas férias em Friburgo, isto sim, sempre um grande acontecimento nos anos cinqüenta; dias de liberdade, independência total, coisa muito rara naqueles tempos, principalmente para um filho de Dona Tininha.
Aliás, Dona Albertina Mazzei Leal, Dona Tininha, minha mãe, cuja severidade aliada a uma incrível bondade e capacidade de amar, à moda dela, é claro, será certamente motivo de muitas linhas mais adiante.
Dona Aura Setubal da casa quatorze, minha primeira professora. Com ela aprendi a ler, escrever e contar. Dona Aura, ex-noviça, foi para mim uma contínua aula de dignidade, disciplina, bondade e carinho. Certamente mereceria de minha parte, ao longo dos anos, mais reconhecimento e gratidão, coisas que não lembrei de dar. Agora, muito triste, me penitencio por isso.
A visão está cada vez mais clara... Na casa cinco Dona Aline, muito bonita, perfeita mistura de raças, ela que era gaúcha, filha de mãe inglesa e pai pernambucano, casada com Seu Guenter, alemão, mais um da nossa vasta colônia. Seus filhos: Fredy e muito afetivamente para mim, Yara, com quem várias vezes iríamos brincar de professor e “médico”.
Inolvidável!
Casa quinze Dona Zilah e sua filha. Filha? Até hoje o enredo: filha, sobrinha, enteada? Nenhuma resposta.
Coisa importante, a intrigante criatura chamava-se, por muito tempo, Maria de Lourdes. Chamava-se, porque depois de adulta, mudou: Anaiá.
E aí? Os namorados da Anaiá - nome estranho! -, se multiplicavam. Pelo menos, para nossa visão infantil, eram namorados. Seriam mesmo?
Casa dezesseis, depois dela o rio e, mais nada.
Para mim ali era o fim do mundo.
Tudo muito triste além do dezesseis; casa de Dona Luzia e seus inúmeros filhos. Lembro-me do mais moço, Rafael, o único que ainda morava com a mãe viúva.
Aí, ficava tão triste como a cada vez que mamãe mostrava uma revistinha de propaganda do Creme Dental Eucalol, virando figura a figura, lendo as letrinhas da “História do Menino que Virou Tamanduá”, só porque não gostava de escovar os dentes.
Depois do dezesseis, nada, tudo muito triste, pelo menos para mim antes dos oito anos.
São muitas as lembranças da minha primeira infância na vila.
A vila; havia muita vida na vila.
Ah, vila...
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(*) - Tijuca: palavra de origem tupi. Ty-iuc, que significa líquido podre, lama.
(*) - Os pracinhas da FEB - Força Expedicionária Brasileira desembarcaram no Rio de Janeiro, de volta da Itália, em 18 de julho de 1945, desfilando pela Praça Mauá, Avenida Rio Branco e Praça Paris, na Glória. Foram calorosamente aplaudidos pela multidão que se formou ao longo do trajeto.
Os aviões da FAB fizeram acrobacias e vôos rasantes sobre o desfile.
O Brasil havia enviado para a guerra 25.334 compatriotas sendo quatro generais e 1535 oficiais, todos sob o comando do Marechal Mascarenhas de Moraes.
Não retornaram à Pátria 430 pracinhas, 13 oficiais e, ainda, oito oficiais aviadores da FAB.
Abaixo: foto de minha vila e, em primeiro plano, minha casa, a de número dois. Ela está lá até hoje testemunha que foi de grande parte de minha história...
Abaixo: foto de minha vila e, em primeiro plano, minha casa, a de número dois. Ela está lá até hoje testemunha que foi de grande parte de minha história...
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