Um dia, em abril de 1946, chegou-se à conclusão que era época de aprender a ler.
Mas, filho de Dona Tininha não vai para uma escola qualquer. Será alfabetizado por uma professora particular. Aí, casa quatorze, Dona Aura Setubal, muito religiosa, muito mansa. Felizmente ela: minha primeira professora.
Ainda tenho meus primeiros cadernos.
As aulas eram quase sempre lá pelas duas horas da tarde, depois de um bom banho tomado. Lá ia eu com minha motocicleta de imaginação: a parte superior de um velho cabide fazendo a vez de guidom, e uma medida metálica de “Leite Ninho” emitindo luz como um farol.
Minha “moto” ficava estacionada à porta, em segurança, aguardando docilmente o término das aulas: linguagem, aritmética e religião.
Colégio, mesmo, só em setembro do ano seguinte, Instituto Petersen, na Rua Conde de Bonfim quase na esquina da Rua José Higino.
Pânico, muito medo, isolamento total. Sou um estranho para o grupo que já é camarada desde o início do ano.
Mais pânico, mais medo e uma imensa aflição.
Até hoje me lembro: “Os alunos com portador, esperem na sala ao lado; os demais podem sair!”, disse o bedel desconhecido.
O que fazer? O que é portador? Será que eu tenho portador? Todas estas indagações rondavam alucinadamente pela minha cabeça que doía, doía...
Portador! Portador! Todos olham para mim.
Choro convulsivo misturado com raiva e vergonha. Será que tenho portador?
Finalmente, depois de um longo “século”, chega minha mãe.
Estou salvo, pois minha mãe, além de mãe é o “meu portador”. Eu também tenho um portador. Viva!
E lá se foi o meu primeiro e memoroso dia de aula.
Acho que a pedagogia, a mim aplicada, não foi das mais saudáveis. Meus filhos foram para o colégio bem cedinho.
No final do ano, apesar de tudo, fui aprovado em sétimo lugar; ou foi terceiro? Qualquer dia vou verificar nos meus arquivos.
1948! Externato São José. Seria meu novo cenário por onze anos. Mas esta é uma história para mais tarde.
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