por José Carlos Coelho Leal

quinta-feira, 29 de março de 2012

9 - A ERA DO RÁDIO


         O rádio, naqueles dias, era o companheiro da família. Provavelmente, por não haver o forte apelo comercial da atualidade, o rádio elevava o nível cultural dos ouvintes.         
         Ao contrário da televisão que leva as pessoas a uma postura passiva, “ouvir rádio” não impedia o desenvolvimento de atividades paralelas.
         A Rádio Nacional era a maior de todas e quando ouço umas antigas gravações de programas levados ao ar, principalmente nas décadas de 40 e 50, constato a sua importância e louvo o esforço daquelas pessoas que certamente ajudaram muito nosso país.
         Em 1940, constatando o sucesso e a penetração da Radio Nacional em todas as classes sociais, o Governo Vargas, em mais um ato ditatorial, decretou a encampação da empresa “A Noite”, à qual pertencia a emissora aproveitando para transformá-la “em um instrumento de afirmação do regime”.
Apesar desse passageiro transtorno de percurso, seria muito bom que a televisão pudesse desenvolver trabalho semelhante neste final de século, com menos “apelação” e um pouquinho mais de cultura.
         Os programas de rádio ofereciam ao público desde radionovelas até programas de música clássica. Inclusive, constato nas gravações a qualidade das orquestras sinfônicas, no plural, da Rádio Nacional, sempre atuando em programas ao vivo. Vários maestros comandavam os programas em diversos dias da semana, como Radamés Gnatalli, Lyrio Panicali, Léo Perachi, Ercole Vareto e outros mais.
         As rádios transmitiam óperas e concertos levados a efeito no Teatro Municipal do Rio, e o público mais exigente contava com a programação das rádios Ministério da Educação, Roquette Pinto e Jornal do Brasil.
         Até o Festival de Salzburgo, na Áustria era transmitido diretamente...
         A primeira rádio-novela de sucesso foi “Em busca da felicidade” de 1942, ficou dois anos e meio sendo ouvida todas as manhãs.
“Em busca de felicidade” foi escrita por Leandro Blanco e adaptada por Gilberto Martins. Era interpretada por Brandão Filho, Floriano Faissal, Zezé Fonseca, Isis de Oliveira, Saint-Clair Lopes e Rodolfo Maier.
Em 1945, já utilizando recursos de estúdio atualíssimos, surgiram para deleite dos contra-regras os chamados “efeitos especiais”. Um  “acontecimento” o ciclone em “O Direito de Nascer” .
Até 1955 a Radio Nacional havia apresentado 861 novelas, ou seja, 11.756 horas de transmissão.
         As equipes de rádio-jornalismo mantinham o Brasil atualizado pelas ondas médias, longas e curtas. Eram muitos os noticiários; o mais famoso e respeitado era o Repórter Esso. 
Variedades, rádio teatro, entrevistas, programas humorísticos e muito mais, eram apresentados por um vasto elenco de atores, locutores, escritores, cantores líricos e populares, músicos, e quem mais tivesse talento para transmitir algo aos rádio-ouvintes.
         Mas, voltemos a nossa história.
         Muitas emoções vivi ouvindo rádio. Uma delas foi durante as Olimpíadas de Londres, em 1948.
Apesar da precariedade da transmissão internacional - não tenho a menor idéia da técnica então usada -, acompanhei lance por lance, na medida do possível, é claro, a conquista da medalha de bronze pela equipe de basquete brasileira. “Five” brasileiro, assim se dizia.
         Também pelo rádio, ouvi o Botafogo ser Campeão Carioca de 1948, num domingo cinzento, após sensacional “passeio” sobre o  Vasco da Gama no antigo estádio de General Severiano, totalmente lotado. 
Os seriados, radiofonizados, liberavam nossa imaginação. Os personagens tomavam a forma do nosso desejo.
Alguns destes seriados acompanhei com alguma assiduidade: “O homem pássaro”, “O vingador”, e o famoso - “ninguém sabe o mal que se esconde nos corações humanos, o Sombra, sabe!”-, “O Sombra”.
         Os programas humorísticos, bastante ingênuos até, a menos das críticas políticas, estas, bem ácidas, não podem ser comparados com as  baixezas divulgadas hoje. Nem por causa disto eram pouco divertidos: “Piadas do Manduca”, “P.R.K. 30”, “Tranquedo e Trancado”... Quanta saudade!
         O Brasil despertava com a “Hora da Ginástica” programa apresentado por Oswaldo Diniz Magalhães; apologia à eugenia da raça através das “ondas hertzianas”.
         Na memória de radio brasileiro jamais poderá se olvidada a disputa entre as orquestras de Tommy Dorsey, sucesso mundial do momento e, a nossa brasileiríssima Tabajara do maestro Severino Araujo, “levada ao ar” diretamente do auditório da Rádio Tupi, PRG-3 - “O Cacique do Ar”.
         Por aquele auditório moderno e imenso, para a época, desfilaram grandes astros internanionais do hit-parade como: Pedro Vargas, Carlos Ramires, Augustin Lara, Josephine Baker, Harry James, Maurice Chevalier, Amália Rodrigues, Nat King Cole, José Mojica, Bing Crosby, Beniamino Gigli, Tito Schipa e muitos outros.
         E os “reclames” : “Ela é linda! Aaaah..., está noiva! Ooooh..., usa PONDS ! Aaaan...”, ou, “Na sua casa tem barata? Não vou lá... Na sua casa tem mosquito? Não vou lá... Na sua casa tem pulga? Não vou lá... Peço licença para mandar DETEFON em meu lugar...”, ou ainda, “Dores? GUARAÍNA, corta a dor e não ataca o coração”.
O rádio, efetivamente, fazia parte daquela minha vida novinha.
         Muito pequeno, à noite, quando o sono teimava em chegar bem devagarinho, acompanhava, sem nada entender, programas que eram ouvidos por papai e mamãe.
Era muito provável ser, ainda, época da ditadura do Estado Novo e os programas da “Pimpinela”, também humorísticos e produzidos por Silvino Neto, arrancavam de papai comentários como este: “esse cara vai ser preso novamente!...”. Eram certamente piadas políticas, envolvendo Getulio Vargas e sua turma. Evidentemente estes programas não eram ouvidos na casa de nossos vizinhos “petebistas”.
Os programas de Paulo Silvino Neto eram transmitidos pela Rádio Mayrink Veiga, onde o “Pimpinela Escarlate” parodiava figuras políticas como Getúlio Vargas, Ademar de Barros, Jânio Quadros e Carlos Lacerda.
A popularidade de Silvino tornou-se tão grande que saindo candidato a vereador pelo PTB, imitando a voz de Getúlio nos comícios, foi eleito com 25.000 votos.
“Trabalhadores do Brasil! (...) Votem em mim porque eu quero entrar nessa boca. Quero entrar na Gaiola de Ouro!”.
Essa era a propaganda de Silvino e Gaiola de Ouro, assim era chamada a Câmara dos Vereadores do entâo Distrito Federal, o Rio de Janeiro. Quanto a isso, pouca coisa mudou...
O sono teimava em não vir, fato comum durante toda minha vida. Continuava ouvindo programas de rádio no colo de mamãe, sendo embalado pelo vai e vem da cadeira de balanço e na cadência dos estalos da madeira do assento de palinha.
         Quase sempre dormia durante um programa de debates, muito elogiado e produzido por um certo Álvaro Moreyra (*) que mais tarde vim saber ser um radialista importante.


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(*)  -  Álvaro Maria da Soledade Pinto da Fonseca Velhinho Rodrigues Moreyra da Silva (Porto Alegre RS 1888-1964) - poeta, cronista e jornalista. Dedicou-se ao jornalismo, tendo sido diretor das revistas literárias Para Todos e Dom Casmurro. Colaborou na Revista da Semana, A Noite, A Hora, Jornal de Letras. Participou de um movimento de renovação do teatro brasileiro. Eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupou a cadeira 21.

Obs - Segmento do livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997

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