Muitas histórias já contei, porém pouco falei de minha família. Gostaria de mostrá-la segundo minha visão infantil.
Nasci não é novidade, no primeiro dia do mês de agosto de l939.
Fui batizado com seis dias de vida, na Matriz de Nossa Senhora da Glória, ali no Largo do Machado. Meus padrinhos: tia Isa, irmã de papai e tio Belinho, primo de minha vó Alice.
Não conheci meus avôs maternos, e hoje, quando vejo minha neta conviver com todos os seus, penso muito, e com uma ponta de inveja, acho que teria sido muito bom ter estado perto deles.
Os pais de mamãe eram italianos: Vicenzo Mazzei nascido em Fuscaldo, Cosenza, Calábria em 7 de setembro de 1870 falecendo no Rio de Janeiro em 2 de maio de 1933, e Adelaide Del Caro Mazzei nascida em Veneza no dia 7 de julho de 1876 e faleceu em 22 de março de 1929 no Rio de Janeiro. Adelaide morreu quando mamãe tinha dezesseis anos e Vicente, mais tarde, um pouco depois dois anos após do casamento de mamãe e papai.
Meus avôs maternos casaram-se em 30 de setembro de 1893, um sábado, às 8,30 horas da manhã na Igreja de São José, no centro, sendo celebrante o Padre Pedro Stamile.
Detalhe interessante: vovô era viúvo de Rosina Skvineli e, vovó viúva de Antonio Alves.
Papai contou-me que vovô morreu andando pela rua, e com mamãe esperando o Guido. Como não podia ser diferente participou intensamente daquele sofrimento de mamãe.
De vovô Nelson tenho poucas lembranças, algo muito vago, como o balançar da longa corrente de um daqueles antigos relógios de bolso. Talvez uma cadeira de vime e o suave som da vida tranquila de sua casa em Botafogo, na Rua Real Grandeza, para ser mais preciso.
Já da vovó Alice as imagens são bem mais nítidas; estivemos perto até meus quinze anos.
Gostava de minha vó sempre de óculos. Sem óculos, ficava com uma fisionomia muito severa; assim, não gostava.
Tínhamos um segredo.
Quando dormia em seu quarto, na cama da tia Isa, sempre que acordava de madrugada era premiado com umas deliciosas balas de jujuba, igualzinhas a pedaços de frutas cristalizadas. Ela as guardava numa caixinha decorada bem escondida na mesinha de cabeceira e sempre dizia: “não contes nada para Nelsinda e Heloísa”.
Moravam juntas Vovô, Nelsinda, tia Nenê e Heloísa, tia Isa, minha madrinha. Junto com elas, morava tia Maria, prima de vovó, um pouco mais moça que ela e sempre com a aparência de uma suave tranqüilidade. Todos gaúchos como também o era meu avô Nelson.
Uma coisa não gostava: criança na casa da vovó nunca comia junto com os adultos. Havia sempre uma mesinha do lado e positivamente eu não aceitava tamanha discriminação. Como lá eram todos gaúchos possivelmente tal rigidez tenham trazido lá dos “pampas”.
Voltemos a 1939.
Nasci caçula, e não gostei.
Meus irmãos também não devem ter gostado do intruso. Tudo muito natural, afinal era o mesmo espaço para ser, dividido por três: Guido Nelson, Luiz Cesar e agora José Carlos.
Ser caçula nas minhas condições era realmente um caso sério.
Pelas diferenças de idade, seis e quatro anos; durante toda minha infância senti-me afastado do grupo. A frase que mais ouvi, por muitos anos, foi: “eles vão, você fica...”.
Ah! Se eu pudesse crescer depressa!
Quando brincávamos qualquer brincadeira, ou jogávamos qualquer jogo, a probabilidade de eu perder era imensa; caso de psiquiatria, análise ou coisa parecida: “eu sou um perdedor!”.
Hoje isto tudo é muito engraçado, mais naqueles dias imaturos foi causa de muito sofrimento.
Jogo Vasco x Arsenal, da Inglaterra, campo do Vasco, à noite. Coisa rara. Foram todos.
Eu fiquei em casa ouvindo pelo rádio, decodificando a custa de algumas lágrimas, as palavras do locutor, em imagens. Como teria sido o gol do Nestor? Nesse dia, nem o colo de mamãe serviu de consolo. Muito pelo contrário.
E as roupas? Quase nunca novas. Sempre podiam ser adaptadas: “estão novinhas, seu irmão quase não usou...”, dizia mamãe com manifesta naturalidade. Livros no colégio então nem se fala, todos de segunda quando não de terceira mão.
Péssimo negócio ser caçula. Um perdedor nato. Positivamente, definitivamente, era caso para um psiquiatra ou então não teria salvação.
Exageros a parte, tudo isso em maior ou menor intensidade viria habitar meus pensamentos, em várias ocasiões, durante minha infância.
Minha sorte era poder contar, a todo o momento, com meu amigo Tim. Amigo fiel de todas as horas e por muitos anos.
Só eu o conheci e com ele convivi.
Nunca discutimos, pois jamais vi alguém mais cordato e que aceitava sempre minhas vitórias. Eu era um vencedor.
Meu amigo Tim deixou de existir quando a adolescência chegou; sempre fiel, até o fim, na minha imaginação.
Logo, terei oportunidade de contar mais um pouco sobre minha família, principalmente o convívio, bem mais próximo, com os parentes ligados à mamãe.
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