por José Carlos Coelho Leal

sexta-feira, 30 de março de 2012

12 - O SÓTÃO


Coisa intrigante era o sótão lá de casa. Espaço liberado a todos, menos para mim, pequeno demais para tal empreitada: subir ao sótão.
         Jamais poderia imaginar tratar-se de zelo, um  ato de carinho para me proteger, ao invés de  algo a ser vedado ao meu regalo.
         Não havia jeito, passou a ser um desafio a subida ao sótão. Afinal toda criança de sete anos deve ter o direito de subir ao sótão, ponderava em meus pensamentos.
As vezes ficava olhando para a longa escada de madeira encostada à parede e a plataforma que precedia o tampão de lambris, barramento a qualquer pretensão em desvendar o mistério.
         Certo dia, quando me vi sozinho, desencostei a escada de madeira apoiando-a com todo cuidado, sem barulho, na plataforma. Devagarinho galguei o primeiro degrau, o segundo, terceiro e quando estava já alcançando o quarto, as pernas tremeram; sem controle e desolado desisti da empreitada.
         Com muita raiva, disse poucas-e-boas para meu amigo Tim. Inadmissível sua falta de colaboração. Poderia, pelo menos, ter-me dado um pouco mais de coragem. Não gostei de sua atitude; não gostei, mesmo!
         Ele não reclamou...
         Dias mais tarde quando menos esperava, com consentimento e colaboração da mamãe, protegendo-me, subindo atrás de mim, descobri finalmente o que até então me era proibido.
Vitória e decepção. Afinal, nada de muito especial estava diante de meus olhos: dois baús grandes, daqueles para viagens em navio, muitas caixas, um par de perneiras - dos tempos das excursões de papai -, uma bengala, algumas roupas velhas, vassouras, latas, diversas tábuas, tudo perfeitamente arrumado.
Revistas, jornais e alguns livros.
Bem que mamãe, com certa freqüência, dizia: “semana que vem, vou arrumar o sótão” ou, “preciso varrer o sótão”.
Agora tudo estava muito claro.
         Vencida esta primeira batalha, pouco e pouco eu e o sótão começamos a ficar íntimos, mas sempre com o controle de Dona Tininha: “Carlinhos - Carlinhos, sou eu -, desce deste sótão!”, ou “O que você está fazendo aí por tanto tempo?”. Apesar desta vigilância, valiam a pena minhas incursões ao sótão.
         O sótão era lugar para brincar-se sozinho.
Uma das primeiras aventuras foi descobrir o que continham aqueles enormes baús. Não foi fácil abrir o primeiro; o segundo, nem tanto. Depois uma caixa, outra e por fim, em pouco tempo, tudo por ali me era muito familiar, inclusive maciços moldes de madeira na forma de cabeças, dos tempos em que mamãe fazia chapéus (*).
Depois foi a vez do material fotográfico de papai. Várias placas de vidro com pares de fotografia, e uma máquina para vê-las em terceira dimensão.
Grande achado!
Inacreditável, até hoje sinto uma ponta de remorso.  Com o passar  do tempo destrui várias destes pares de fotos e o equipamento ficou em estado lastimável, lentes quebradas e engrenagens emperradas.
Imagino o que papai deva ter lamentado por tão valiosa perda.
Ainda havia o que descobrir...
Quando cresci, percebi que a janelinha do sótão era um privilegiado posto de observação.
Bastante camuflado pela arquitetura do imóvel, me era permitido penetrar na intimidade de alguns vizinhos e em decorrência, vizinhas.
Fiz descobertas bastante audaciosas, descobri alguns segredos e procurarei mante-los...
Por muito pouco não me transformo num voyeur militante.


______________

(*) – Muito novinha, ainda não tinha completado doze anos, por estrita necessidade de ajudar financeiramente seus pais, mamãe empregou-se como “ajudante de chapeleira”.
Sua carteira de trabalho foi assinada em 23 de março de 1925.
Seu empregador: “A Futurista – Passalacqua Barbosa & Cia”, Rua 7 de Setembro, 181 – Rio de Janeiro”
Detalhe : remuneração não especificada.




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