Havia uma revista que habitava nossa casa, desde sempre. Era “Seleções”.
Ainda hoje tenho alguns exemplares antigos, guardados que foram no sótão, por anos a fio, caprichosamente embrulhados certamente por ocasião das faxinas rigorosas que minha mãe fazia.
Vez por outra folheio estas velhas conhecidas e, apesar de reconhecê-las como um indubitável instrumento de propaganda norte-americana, sempre alguma lembrança ressurge ao deparar-me com um desenho, fotografia ou mesmo um artigo qualquer que tenha lido quando criança.
Uma seção de “Seleções”, bastante famosa, era “Meu Tipo Inesquecível”. Durante minha vida conheci várias pessoas que poderiam facilmente integrar esta galeria. Uma delas seria meu tio Armando, casado com tia Angelina, irmã de mamãe.
Tia Angelina fazia jus à sua descendência italiana, reforçada por uma alta dosagem de sangue calabrês que corria em suas veias; de gênio bastante difícil, seria natural que o convívio fizesse de tio Armando uma pessoa um tanto nervosa. No entanto, sempre o vi ponderado, tranqüilo apesar da vida apertada que sempre levou.
Mesmo não sendo rotina, em muitos domingos, nossas famílias reuniam-se, somadas a de tia Helena, outra irmã de mamãe, casada com Tio Paulino, um baixinho de sangue espanhol, bastante agitado.
Com todo esmero e carinho, tio Armando elaborava deliciosas massas, preparando macarronadas sensacionais.
Nestes dias a garotada deveria deixar os “velhos” em apuros, pois a nós três, juntavam-se os primos Armando e Waldir, filhos de tia Angelina e Wilson, Célia e Maria Helena, filhos de tia Helena.
Freqüentávamos muito a casa de nossos tios, e ainda muito pequeno passei alguns dias em suas casas.
Nesse tempo, final dos anos quarenta, as famílias de tia Angelina e tia Helena, que também nunca foi pessoa das mais calmas, moravam juntas, no bairro do Rio Comprido. Imagino que esta sociedade deva ter sido mais uma provação à paciência de todos, inclusive do tio Armando.
Mas sua personalidade tranqüila prendeu definitivamente minha atenção. Quando já maior, visitava-o freqüentemente por minha conta, convivendo mais diretamente com ele..
Tio Armando fabricava sapatos em sua oficina, instalada no quartinho dos fundos de sua casa, agora sem mais companhias. Em qualquer dia da semana, de segunda a sexta, entre oito horas da manhã e onze da noite e nos sábados até o meio-dia, sempre o encontrei trabalhando. Camiseta sem mangas no banco de couro, sentado à frente de uma de suas máquinas elétricas, muito amiúde um cigarro no canto da boca, atento a um velho radio de válvulas sintonizado na Rádio Nacional.
Lá estava meu tio, sempre carinhoso para comigo - sinto uma emoção forte quando escrevo estas linhas -, disposto a uma conversa animada, quando não, a um simples silêncio compartilhado.
A cada visita, ganhava uma correia nova para meu relógio de pulso, feita com retalhos dos seus trabalhos. Sempre atualizado com o que acontecia no mundo, por causa da Rádio Nacional e sempre disposto a falar de futebol, ele que era Flamengo, apesar de italiano de nascimento.
No sábado, encerrava as obrigações ao meio dia, depois de acondicionar todo trabalho da semana num impecável embrulho feito com um grosso papel pardo.
Tomava um banho caprichado, almoçava, para depois sair para entregar o serviço, receber seu pagamento e pegar nova encomenda para a empreitada da semana seguinte.
Voltava altas horas da noite.
No domingo, tio Armando era da família, inclusive para fazer as suas massas deliciosas.
“Meu Tipo Inesquecível” sempre me intrigou: o que fazia Tio Armando, até aquelas adiantadas horas, nas noites de sábado?
Muito bom, vovô!!
ResponderExcluirmuito bom amei está história muito interesante tu me deu uma bela ideia pra me fazer o trabalho da escola obrigado
ResponderExcluirFRANCIELLY-8 ano !!!!!!!!
Valeu FRANCIELLY - Só esse comentário já alimenta minha alma... MUITA SATISFAÇÃO... Felicidades e um BEIJO! ZÉ KARLOS
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