No outro lado do rio ficava o Colégio Baptista - assim, com “p”.
Nesta época do ano começava um novo espetáculo na voz da meninada que retornava às aulas. Da janela do quarto dos fundos, quarto dos meus pais, eu apreciava o movimento e já tinha de vista, alguns conhecidos bem familiares, agora um pouco mais crescidos e ainda guardando o rubor dos dias de férias.
Até a campainha convocando as classes às salas de aula, ainda hoje, ouço com nitidez, assim como ainda soa claro o apito da fábrica da Brahma (antiga Companhia Hanseática do Rio de Janeiro), sempre às dez para as sete, sete, onze, dez para o meio-dia, meio-dia e cinco horas da tarde.
Aquele silvo balizava nossas vidas e sua ausência significava: Domingo!
Era comum, nos domingos, o sumiço dos meus companheiros, cada um tomando o rumo da família.
Fred e Yara, por exemplo, iam sempre para o barco, assim se falava.
Na verdade Seu Gunther tinha um iate, o Spray, construído por ele próprio, e que ficava fundeado no Iate Clube, na Urca.
Anos mais tarde construiu um novo barco coroando noites e noites de trabalho na oficina montada no sótão de sua casa, em serões até altas horas. De casa, ouvia-se o barulho das máquinas e eram estranhas as noites silenciosas. Será que alguma coisa havia acontecido?
Detalhe, às 10 horas do noite cessavam os trabalhos; nem um minuto antes, nem um depois... A Lei do Silêncio era religiosamente cumprida. A velha disciplina alemã se impunha. Aprendi muito esse respeito com a convivência da com a colônia germânica que habitava nossa vila.
Domingo, dia em que papai ouvia pelo rádio um programa de músicas líricas e de canções napolitanas. Eram-nos familiares um Beniamino Gigli ou um Tito Schipa.
Mamãe, por seu lado, adorava as audições de uma cantora lírica brasileira chamada Christina Maristany. Apesar de ligada à ópera esta cantora fez muito sucesso no rádio: “Creio mesmo que o samba deve ser prestigiado, como uma expressão interessante do nosso folclore” dizia Christina conquistando em definitivo a audiência.
Domingos de sol, domingos de chuva, domingos cinzentos, alguns quentes, outros frios...
Nestes dias nossos vizinhos da “casa um” esbanjavam o som de sua “vitrola”, tocando sempre em alto volume os mesmos poucos discos.
Lembro bem: “Pintinhos no terreiro”, o mais tocado e repetido até a exaustão. Já tinha opinião própria, apesar de minha pouca idade e achava aquilo uma tremenda exibição, pois pouca gente naquela época tinha condições de possuir semelhante preciosidade, um rádio que também tocava discos.
Uma “vitrola”. Sinal de “status”; será que era assim que diziam?
Música clássica também fazia parte das audições de papai, se bem que com menor freqüência.
Com tal variedade de músicos e músicas, teria que dar no que deu: hoje, gosto muito de música.
Um detalhe interessante é que nossos vizinhos “exibicionistas” eram “Getulistas” enquanto papai, e nós, por conseqüência, éramos “Brigadeiro”, ou seja, PTB versus UDN.
Qualquer boa notícia para o PTB acarretava um belo concerto de “vitrola” a todo volume, num evidente desafio à nossa esportividade, paciência e bom gosto. E lá vinha nosso conhecido “Pintinhos no terreiro” e assemelhados. Não muitos, evidente...
Mas apesar de tudo a vila era uma grande família.
Certamente ainda não havia notícias da tal “Sociedade de Consumo” naqueles tempos do pós-guerra. Na verdade tive poucos brinquedos, mas longe de lamentar acho que este privilégio, não meu, mas de toda uma geração, foi altamente saudável.
Tinha minha possante motocicleta e, juntando-se a ela, lá estava meu belo caminhãozinho feito de caixa de goiabada, as tampinhas de cerveja que tinham várias utilidades e até como dinheiro valiam, o trenzinho imaginado nas caixas de fósforos dispostas lado a lado, sem contar com o time de botão, feito realmente de botões, muitas das vezes surrupiados da capa de chuva do papai, e ainda mais valorizados quando “acavalados”.
Finalmente, num belo Natal, alguns poucos anos após o fim da Guerra, com a “matéria plástica” invadindo o mercado, ganhei dois times completos feitos de “galalite”: um do Botafogo e outro do América. A glória!
Será que por causa disso sou Botafogo? Ou porque foi campeão de 1948? (*) Ou, ainda, seria influência de meu pai que foi seu remador e por ele torcia?
Definitivamente é difícil qualquer alternativa. O que interessa: ser botafoguense me fez sofrer bastante, esta é a verdade, pois outro título só foi possível comemorar em 1957 quando eu já aniversariava pela décima nona vez. Foi um tremendo jejum para um garoto que adorava futebol. Coisas da vida e que só acontecem ao Botafogo e aos botafoguenses!
Futebol!
Uma das grandes dificuldades era convencer Dona Tininha que, como todas as crianças, eu gostava de jogar futebol. Quase impossível.
Como consolo, batia bola no minúsculo quintal de casa fazendo tabelas memoráveis com meus imaginários companheiros materializados na parede. Devo ter incomodado muito Dona Zita, vizinha da casa três, aquela do insuperável cafuné.
Num certo domingo, meu jogo de bola teve um desfecho inusitado.
Zé Carlos, o maior goleiro do mundo, defendendo bolas incríveis, as quais agarrava na volta de violentos petardos desferidos contra a parede.
Após um dos mais belos chutes, aconteceu: na volta, pisei na bola e desequilibrado caí de queixo no chão.
O sangue em profusão foi o disparo para um grande berreiro que entre outras coisas, acordou papai de sua dormidinha dominical. Enquanto mamãe fazia os carinhos de praxe, papai apareceu e logo saiu sem nada dizer. Um detalhe: levou a bola.
Mamãe esperando pela ajuda providencial e nada. O tempo passando, e nada. E lá se vai mais sangue.
Por fim, foi procurar papai que estava tranqüilamente fumando um “belo” cigarro, sem não antes ter lembrado de estraçalhar minha querida bola de borracha e, jogá-la irremediaelmente no Rio . Pode-se imaginar o tremendo “arranca rabo” acontecido.
Quanto ao futebol, adeus por muito tempo...
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(*) – Em 12 de dezembro de 1948, o Botafogo de Futebol e Regatas tornou-se Campeão Carioca, ao derrotar o Vasco por 3 a 1, jogando com apenas dez jogadores. O beque Gerson contundiu-se seriamente e, naquele tempo, não eram permitidas substituições.
Foi a glória para Carlito Rocha, o eterno e místico Presidente, e a recompensa para o simpático cãozinho “Biriba”, o maior mascote que o futebol do Rio já teve.
(Pequeno capítulo de meu livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997)
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