Quando chovia forte, mais difícil ainda era pegar no sono.
O dorme-não-dorme era importunado pelo barulho das águas do Rio Trapicheiros que, nesses dias, cismava em ficar com mau humor.
Desperto e muito assustado, com os ouvidos bem atentos, a tudo acompanhava numa inútil vigília.
Nos grandes temporais sentia-se o baque das enormes pedras no leito do rio, sendo arrastadas pela correnteza. Sempre achei que num dia sinistro nossa casa poderia ser levada também.
E aí, cadê sono!
Explicações não me convenciam e o zelo continuava até a chuva amainar.
Mamãe era mais convincente, quando em noites de trovoadas, me serenava: “... é Papai do Céu que está arredando os móveis”. Aí, eu dormia.
Nessa época, era muito pequerrucho, como ela dizia; ficava fácil ceder a argumento de tamanha evidência.
Também, difícil, dormir sem o papai em casa.
Ia para cama e ficava na expectativa da chegada do próximo bonde - falarei dele, o bonde, com mais detalhes, logo adiante.
Ligadíssimo, ouvia o barulho de longe.
O bonde das dez chegou. Mentalmente contava os passos de papai até a varanda da frente. Nada, não veio. O jeito é esperar o bonde das onze.
Nada!
Meia noite, e finalmente o som esperado dos passos cadenciados, batidos com energia para espantar os gatos, como dizia, até subir os degraus.
O tilintar do chaveiro.
Nem precisava botar a chave na porta. Eu já estava dormindo.
Obs. - Trecho do livro "Cheiro de Verão" escrito em 1997
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