por José Carlos Coelho Leal

domingo, 25 de março de 2012

3 - MIL NOVECENTOS E TRINTA E NOVE


         Nasci no dia 1º de agosto de 1939, uma terça-feira, por volta da uma hora da tarde.
Foi um dia de sol, como seriam de bom tempo as três semanas seguintes. Chovera um pouquinho somente na zona sul, no domingo anterior, coisa de molhar o chão, nada mais; depois, só lá pelo dia 23 de agosto choveria em toda a cidade.
Mas, o quê, além do meu nascimento aconteceria naquele ano de 1939?
Fazia exatamente um ano que Lampião, Maria Bonita e mais dez cangaceiros haviam sido mortos após o cerco a Angicos, no interior de Sergipe.
Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, tinha 40 anos, gostava de ler, usava lenços de seda, perfume francês Fleur D´amour, óculos alemães e bebia uísque White Horse (*). Recebia proteção do Padre Cícero, mas certas fontes sustentam que esta ligação era a única possível para conter o avanço da “Coluna Prestes” (*).
Com Virgulino foram encontrados cinco quilos de ouro e mil contos de réis, o suficiente para a compra de 120 carros de último tipo da época. Durante toda minha infância, as histórias de Lampião me assustavam...
Voltemos a 1939.
Logo no 1º dia do ano, na Alemanha, Hitler decretava a obrigação das mulheres prestarem serviços civis em beneficio do Reich.
Longe dos problemas que ameaçavam a paz mundial, o cinema americano produzira dois grandes sucessos:
“E o vento levou” com Vivien Leigh e Clark Gable foi um dos maiores êxitos do cinema de todos os tempos, baseado que fora no best-seller mundial de Magaret Mitchell, conquistando o “Oscar” de melhor filme daquele ano.
Enquanto a Europa já vivia os primeiros horrores da guerra, as atrizes americanas disputavam a primazia que levaria uma delas a viver a heroina Scarlett O’Hara. O produtor David O. Selznic testou mais de 60 atrizes, numa campanha que se revelou uma grande estratégia para promoção do filme.
Em 17 de agosto, a Metro, então o maior estúdio de Hollywood, lançava “O mágico de Oz”, história da garota Dorothy (Judy Garland) que envolvida por um furacão chega a uma “terra encantada” muito além o arco-íris.
A história de Dorothy, do cãozinho Totó e os amigos Homem de Lata, Espantalho e Leão, embalados pela cançâo Over the rainbow foi vista por mais de um bilhão de pessoas, público que cresce ainda hoje devido às repetidas exibições na TV, principalmente nos finais de anos quando parece que a ganância dos produtores televisivos cede um pouco à terna poesia do imaginário infantil.
         Mas aqui no Brasil, jorrava petróleo na Bahia (21/01). Nascia o cineasta Glauber Rocha (14/03). Acontecia a primeira demonstração de TV no Rio de Janeiro (03/06), e para variar, o Brasil recebia um empréstimo de 50 milhões de dólares do Governo Americano (09/03).
Nos “States”, Carmem Miranda começava a fazer muito sucesso (04/05)
         A par desses fatos, acontecimentos dramáticos e até, porque não dizer, irônicos, ocupava os noticiários mundiais.
         Morre o Papa Pio XI (10/02). Cardeal Eugênio Pacelli é eleito papa e recebe o nome de Pio XII (02/03).
Terminava a Guerra Civil na Espanha, com mais de um milhão de mortos; a vitória de General Francisco Franco tem como consequência a implantação de forte regime ditatorial que só terminaria com sua morte em 20 de novembro de 1975 (01/04).
França e Grã-Bretanha reconhecem o governo de Franco enquanto os Estados Unidos reatam relações diplomáticas com a Espanha (02/04).
Logo em seguida a Espanha se retira da Liga das Nações, Alemanha e Itália assinam pacto de mútua assistência, Alemanha e União Soviética assinam tratado de não agressão, Inglaterra e Polônia ajustam um acordo de assistência mútua e, finalmente, a Alemanha lança um ultimato à Polônia (tudo isso aconteceu entre maio e agosto de 1939).
Em 1º de setembro a Alemanha invade a Polônia e dois dias depois França e Inglaterra declaram guerra ao Reich. Inicia-se a 2ª Guerra Mundial.
O Presidente Vargas diz que o Brasil está neutro na guerra, assim como os Estados Unidos declaram a mesma neutralidade em cinco de setembro.
Por seu lado a União Soviética também invade a Polônia...
Em 23 de setembro morre Sigmund Freud.
Nos territórios do Reich, os judeus são obrigados a usar uma estrela amarela de identificação e, em quatro de novembro os Estados Unidos votam a lei Cash and Carry, que “simplesmente” permite a venda de material militar para qualquer pais beligerante...
Em 1939 surge o Batman, protetor de Gothan City, um velho apelido de Nova York. Apareceu sozinho, mas logo surgiria seu parceiro Robin.
Descobriu-se o fator RH, a aplicação do DDT como inseticida, a vitamina K sintética, a técnica de formação de nuvens para provocar chuvas.
No comércio foram lançadas as primeiras máquinas para lavar louças, automóveis com moderna transmissão automática e produzia-se a penicilina.
Realiza-se o primeiro vôo com propulsão turbo-jato.
Ari Barrozo compunha “Aquarela do Brasil”, uma espécie de hino nacional não oficial. Até hoje os “gringos” assimilam com facilidade este “samba-exaltação”, possivelmente pelo seu jeito meio samba, meio rumba. Seria, talvez, o “samba-inzoneiro” (*).
Em 1º de agosto nasce José Carlos Coelho Leal. Neste mesmo momento, lá pelas onze em Nova York, Glenn Miller e sua Big-band gravavam nos estúdios da RCA Vitor, In the mood sucesso para várias gerações.
Finalmente, no carnaval de 1939 a grande vencedora foi “A Jardineira”...
“Ó jardineira
Por que estás tão triste
Mas o que foi que te aconteceu
Foi a Camélia que caiu do galho
Deu dois suspiros e depois morreu...”. Trecho de “A Jardineira”, de Humberto Porto e Benedito Lacerda.

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     (*) – O mascate libanês Benjamin Abraão, também fotógrafo é o responsável pelas mais célebres imagens de Virgulino e seus companheiros. No filme “Baile perfumado” a dupla Lírio Ferreira e Paulo Caldas, incluiu seqüências originais filmadas por Benjamin. Tomando conhecimento destes filmetes mudos, onde estão comprovadas as notícias das sedas, dos uísques e dos perfumes franceses e, ferido nos seus brios, o Governo intensificou a perseguição a Virgulino até o total extermínio do bando.
         (*) – Coluna Prestes: movimento revolucionário que resultou numa marcha guerrilheira que percorreu mais de 24 mil quilômetros em território brasileiro, durante 647 dias, cujo estado-maior era constituido por Miguel Costa, Luis Carlos Prestes e Juarez Távora. Pregava reformas políticas e sociais e combatia o governo do presidente Artur Bernardes.
(*) – Inzoneiro: mexeriqueiro, intrigante, sonso, mentiroso.
         Até hoje os críticos “caem-de-pau” no verso em que Ari se inspira no mulato inzoneiro...

OBS: trecho do livro CHEIRO DE VERÃO escrito por mim em 1997

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