Nasci no dia 1º de agosto de 1939, uma terça-feira, por volta da uma hora da tarde.
Foi um dia de sol, como seriam de bom tempo as três semanas seguintes. Chovera um pouquinho somente na zona sul, no domingo anterior, coisa de molhar o chão, nada mais; depois, só lá pelo dia 23 de agosto choveria em toda a cidade.
Mas, o quê, além do meu nascimento aconteceria naquele ano de 1939?
Fazia exatamente um ano que Lampião, Maria Bonita e mais dez cangaceiros haviam sido mortos após o cerco a Angicos, no interior de Sergipe.
Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, tinha 40 anos, gostava de ler, usava lenços de seda, perfume francês Fleur D´amour, óculos alemães e bebia uísque White Horse (*). Recebia proteção do Padre Cícero, mas certas fontes sustentam que esta ligação era a única possível para conter o avanço da “Coluna Prestes” (*).
Com Virgulino foram encontrados cinco quilos de ouro e mil contos de réis, o suficiente para a compra de 120 carros de último tipo da época. Durante toda minha infância, as histórias de Lampião me assustavam...
Voltemos a 1939.
Logo no 1º dia do ano, na Alemanha, Hitler decretava a obrigação das mulheres prestarem serviços civis em beneficio do Reich.
Longe dos problemas que ameaçavam a paz mundial, o cinema americano produzira dois grandes sucessos:
“E o vento levou” com Vivien Leigh e Clark Gable foi um dos maiores êxitos do cinema de todos os tempos, baseado que fora no best-seller mundial de Magaret Mitchell, conquistando o “Oscar” de melhor filme daquele ano.
Enquanto a Europa já vivia os primeiros horrores da guerra, as atrizes americanas disputavam a primazia que levaria uma delas a viver a heroina Scarlett O’Hara. O produtor David O. Selznic testou mais de 60 atrizes, numa campanha que se revelou uma grande estratégia para promoção do filme.
Em 17 de agosto, a Metro, então o maior estúdio de Hollywood, lançava “O mágico de Oz”, história da garota Dorothy (Judy Garland) que envolvida por um furacão chega a uma “terra encantada” muito além o arco-íris.
A história de Dorothy, do cãozinho Totó e os amigos Homem de Lata, Espantalho e Leão, embalados pela cançâo Over the rainbow foi vista por mais de um bilhão de pessoas, público que cresce ainda hoje devido às repetidas exibições na TV, principalmente nos finais de anos quando parece que a ganância dos produtores televisivos cede um pouco à terna poesia do imaginário infantil.
(*) – O mascate libanês Benjamin Abraão, também fotógrafo é o responsável pelas mais célebres imagens de Virgulino e seus companheiros. No filme “Baile perfumado” a dupla Lírio Ferreira e Paulo Caldas, incluiu seqüências originais filmadas por Benjamin. Tomando conhecimento destes filmetes mudos, onde estão comprovadas as notícias das sedas, dos uísques e dos perfumes franceses e, ferido nos seus brios, o Governo intensificou a perseguição a Virgulino até o total extermínio do bando.
(*) – Coluna Prestes: movimento revolucionário que resultou numa marcha guerrilheira que percorreu mais de 24 mil quilômetros em território brasileiro, durante 647 dias, cujo estado-maior era constituido por Miguel Costa, Luis Carlos Prestes e Juarez Távora. Pregava reformas políticas e sociais e combatia o governo do presidente Artur Bernardes.
(*) – Inzoneiro: mexeriqueiro, intrigante, sonso, mentiroso.
Até hoje os críticos “caem-de-pau” no verso em que Ari se inspira no mulato inzoneiro...
OBS: trecho do livro CHEIRO DE VERÃO escrito por mim em 1997
OBS: trecho do livro CHEIRO DE VERÃO escrito por mim em 1997
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