por José Carlos Coelho Leal

domingo, 25 de março de 2012

2 - O MENINO QUE TROUXE A GUERRA

            Nasci na Casa de Saúde Laranjeiras, pelo menos é isto que minha memória registra do que foi contado por alguém e, confirmado pela minha certidão de nascimento.
Conforme testemunho insuspeito de minha mãe, apressado como nunca, por pouco não venho ao mundo dentro do elevador. Contava que sua gravidez fora afetada pela vivência de uma grande crise pessoal, uma das muitas que ao longo de minha vida viria assistir; com certeza, após nove meses de convívio tão íntimo, alguma coisa sobrara para mim.
Talvez aí estivesse a explicação para minha contínua “agitação”, origem de uma rebeldia precoce e, entre outras mazelas, uma renitente insônia, só vencida a duras penas ou, pelo exagerado cansaço ou, à custa de um fármaco da moda.
         Muito criança sempre a ouvia dizer, quando estava mais inquieto e certamente incomodando os mais velhos, que eu tinha trazido a guerra.
Na verdade, a Segunda Guerra Mundial começaria dias depois. Era muita responsabilidade para alguém tão pequenino, trazer para humanidade tamanha desgraça. Mas o que se há de fazer, fatos são fatos.
         Aliás, as imagens e sons mais antigos que minha memória registra são relacionados com a Segunda Guerra. Eram as marchas tocadas pelo rádio - na época “ouvia-se rádio”- os aviões que passavam assiduamente, alguns tão baixos faziam tremer os alicerces da casa, e o blecaute.
O blecaute.
Lembro com nitidez de meu pai discutindo com um guarda, encarregado de fiscalizar a operação “escuridão” e, cobrando com rispidez, se ele havia desligado ou não as luzes na hora determinada pelo “apito” da fábrica da Brahma que anunciava uma possível investida aérea alemã. 
Felizmente, era só treinamento e minha lembrança não registra nenhum ataque, nem bombas caindo do céu, graças a Deus.
         Nossa casa estava salva!



OBS: Esse texto é fragmento do meu livro "Cheiro de Verão" - escrito em 1997.

Nenhum comentário:

Postar um comentário