por José Carlos Coelho Leal

terça-feira, 6 de novembro de 2012

"CHEIROS DA VIDA" - nº 60 - A CARONA


                      

             Época maravilhosa aquela quando às segundas-feiras as aulas eram no Rio.
          Petrópolis só na terça.
          Eram aulas práticas de Tecnologia Mecânica ministradas nos laboratórios da Escola Técnica Nacional, juntinho do Maracanã. Aulas de torno, fresa e demais máquinas-ferramenta. Hora de colocar a mão na massa e fabricar peças previamente desenhadas nas aulas teóricas e onde a precisão milimétrica era fundamental.
          Talvez a motivação principal fosse o professor, a figura sensacional de Miguel de Assis Vieira.               
          Achava até que eu poderia dar para a coisa.   
          Em compensação aos sábados permanecíamos em Petrópolis até o fim da tarde. Pela manhã 4 horas de Geometria Descritiva e, à tarde, mais 4 horas de Mecânica Racional.
          Saíamos de Petrópolis já com noite fechada, quase sempre acompanhados do tradicional “ruço” da serra e, muito amiúde, absorvendo um frio de “bater-queixo”.
          Nas semanas em que o Fernando estava a fim de estudar tinha carona garantida apesar de não raramente eu ficar muito chateado com meu amigo. O “cara” saía completamente do seu itinerário, o “bandido” morava em Botafogo, o que me deixava sinceramente penhorado. 
          O problema é que depois de percorrer mais de 100 quilômetros, ao invés de deixar-me na porta de casa, deixava-me a cerca de cem metros do meu destino, na esquina das ruas José Higino e Conde de Bonfim.
-         Puxa Fernando! Não dá para dar uma subidinha até minha casa. Nem cem metros.
-         Complica muito meu itinerário.
-         Complica nada. Você até corta caminho...
-         Uma ladeirinha faz bem para a saúde.
-         Estou cheio de bagagem.
-         Fortalece os braços.
-         Legal! Semana que vem desço de ônibus.
-         “Lelê”! Você não vive sem mim.

           Na semana seguinte repetia-se a mesma cena.


          - Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito  em Arraial do Cabo ao longo do ano de 2001.
        



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