Inicia-se 2002. Foi-se o
primeiro ano do novo século.
Uma novidade e, outra, nem
tanto.
A partir de 1º de janeiro doze países europeus passaram a adotar uma moeda única, o Euro. Uma novidade.
Enquanto isso na Argentina,
isso já não é novidade, o senador peronista Eduardo Duhalde assume a
presidência. É o quinto presidente em dez dias. Além disso: Bush se engasga
com um biscoito, a Rede Globo estréia uma “barbaridade” chamada “Big Brother
Brasil”.
No Rio 20 mil pessoas contraem dengue e o mosquito Aedes aegypti se espalha por todo o país e, mais uma vez, a
Lagoa Rodrigo de Freitas é palco do trágico espetáculo da mortandade de peixes,
dessa vez em pleno
Carnaval , Na quarta-feira de cinzas foram retiradas da lagoa
94 toneladas de peixes.
A facção criminosa PCC
promove rebelião em sete penitenciárias paulistas. Executa 15 presos e fere 49.
Equanto isso uma bomba explode no prédio da Secretaria de Administração
Penitenciária.
O Prefeito de Santo André,
Celso Daniel, do Partido dos Trabalhadores é assassinado após sair do
Restaurante Rubahyat. Foi executado com oito tiros. Crime comum ou político.
Pelo jeito o caso dará “pano para mangas”. "Coisa" muito séria por trás disso tudo...
Pensando bem o Euro é a
única novidade, o resto faz parte de nossa triste rotina.
A coisa está braba (aliás, quando não esteve???...) É melhor
voltar para nossa história.
Meio braba também ficou a
coisa no nosso curso.
Vamos recapitular: criamos
um curso vestibular em Petrópolis, eu e o Ivan Sylvio alugamos a sala de certo
Almirante Iramaia para usa-la somente à noite e, para tanto, pactuamos um
aluguel que naquele momento chegava 7000 cruzeiros mensais.
O curso ia indo muito bem,
obrigado.
Numa segunda-feira estava eu gozando a
minha saudável permanência na Cidade Maravilhosa e já me preparava para dormir.
No dia seguinte deveria estar às 5 horas da manhã na Rodoviária Mariano
Procópio, pois o primeiro ônibus para Petrópolis sairia pontualmente às 5,15
horas.
Era quase 11 da noite quando
toca a campainha.
-
É o Ivan, grita mamãe lá de baixo.
-
Ivan? Essa hora?
-
Isso. Venha atendê-lo. Do jeito que estou não posso
aparecer para ninguém.
-
Estou indo.
Às segundas-feiras era dia
do Ivan pernoitar em
Petrópolis. Pelo menos assim fora combinado e estava
funcionando muito bem.
Dava aula
até às 22 horas, tratava de providenciar o fechamento do curso e, normalmente, só
retornava ao Rio no dia seguinte, para variar no ônibus das 5,15 horas, direto
para firma onde estagiava aqui no Rio.
Diabos!!!
Se voltou hoje e
veio direto cá para casa, é porque temos problemas. Certamente dos grandes –
pensei com meus botões enquanto nervosamente me metia dentro das calças.
Desci a escada correndo.
-
Cara! Você não devia estar em Petrópolis?
-
Leal! Não dá para imaginar o que aconteceu. Pedi para o
Werner me substituir na última aula e me mandei para o Rio. Estou vindo direto
da rodoviária.
-
Isso esta na cara! Mas o que aconteceu?
-
Você nem imagina...
-
Isso você já disse, agora fala.
-
No intervalo da segunda para terceira aula estava na
secretaria quando apareceu um senhor muito bem apessoado querendo matricular o
filho.
-
Mas agora? O ano já está chegando ao fim.
-
Foi isso que estranhei.
-
E daí?
-
O senhor começou a fazer uma série de perguntas
inclusive querendo saber quem eram os donos do curso.
-
Só podia ser fiscal de alguma coisa.
-
Foi o que pensei.
-
Não era. A coisa é bem mais complicada.
-
Fala porra!
-
Simplesmente o Dr. Nazareth, esse seu nome, é o dono da
sala.
-
O dono da sala é o Almirante.
-
Era! Era!
-
Como assim?
-
O almirante é um pilantra que não paga aluguel ao Dr.
Nazareth há vários meses, aliás, um aluguel de 4.000 cruzeiros. Simplesmente
esta sublocando a sala para nós na maior cara de pau. Com reajustamento deste
semestre já estamos pagando ao patife 7.000 cruzeiros.
-
Cacete! Aluga por 7.000 uma sala que, teoricamente lhe
custaria 4.000. Canalha!
-
É isso.
-
E agora?
-
Agora o Dr. Nazareth está colocando uma ação na justiça
para despejar o Iramaia.
-
É, mas quem vai para rua somos nós.
-
Calma!
-
Como calma? Você tem certeza que a história do Nazareth
é verdadeira.
-
Claro. Ele mostrou escritura e inclusive o contrato de
aluguel assinado pelo Almirante com aquela letrinha de veado que ele tem.
-
Mas quem vai tomar prejuízo somos nós.
-
É isso que estou querendo dizer. O Nazareth fez todas
aquelas perguntas para saber realmente quem éramos. Convencido de nossa boa-fé
prometeu não tomar nenhuma providência até que tenhamos condições de alugar
outra sala.
-
Dá vontade de encher de porrada a cara daquele
Almirante de merda.
-
Agora é manter a calma, planejar tudo com cuidado,
providenciar a mudança e só depois iremos falar poucas e boas para o
“comandante de barquinho de papel”.
-
A sala já estava pequena mesmo. Agora temos que dar o
pulo para valer. Vamos montar um curso de verdade.
-
Isso!
-
Pode até ir escolhendo o novo nome para nosso curso.
- Trecho de meu livro "Cheiros da Vida" escrito em 2002 (a partir desse capítulo) em Arraial do Cabo.
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